domingo, 12 de dezembro de 2010

As Euro Zone Bonds são inviáveis


Para que pudesse haver Euro Zone Bonds era necessário que os países do Norte da Europa pagassem as dívidas dos países do Sul da Europa no caso, quase certo, de estes entrarem em bancarrota. Como os cidadãos do norte não são tansos, isso nunca acontecerá.

As Bonds, (em português: obrigações), são dívidas traduzidas num título. Por exemplo, se eu comprar uma obrigação de 1000€ quer dizer que eu empresto 1000€ ao emissor da obrigação.

Quem compra obrigações (empresta dinheiro - o credor) pensa numa taxa de juro real (i.e., um aumento no seu poder de compra) e acrescenta-lhe a inflação antecipada e a expectativa que tem do risco de incumprimento das obrigações (do devedor falir não pagando o acordado).

A componente da taxa de juro que traduz o risco de incumprimento denomina-se na gíria financeira por Spread, (em português: incremento).

Em termos simples, um credor que quer uma taxa de juro real de 0.5%/ano, que antecipa uma taxa de inflação de 1.5%/ano e que calcula o risco de incumprimento do devedor como 1%/ano, então pede 2%/ano como taxa de juro mínima pelo empréstimo.

Relativamente aos países, o risco de incumprimento resulta da impossibilidade financeira mas, principalmente, da falta de vontade. Se eu ouvisse um político de um país dizer que “a solução para os nossos problemas é não pagar aos credores estrangeiros”, naturalmente antecipava um risco muito elevado desse país, vir a incumprir as suas obrigações.

Ao nível da Zona Euro existem diferenças culturais importantes entre os países relativamente ao cumprimento das suas obrigações: Em média, os cidadãos do Norte consideram um imperativo absoluto cumprir as obrigações enquanto que os do Sul são mais “flexíveis”. Estas diferenças culturais fazem com que, sabiamente, as pessoas que poupam algum dinheiro e o querem aplicar garantindo que na sua velhice o têm de volta exijam uma taxa de juro superior aos países do sul da Europa. Aos países do Norte os aforradores contentam-se com taxas de juro próximas de 2%/ano enquanto que a Portugal exigem taxas superiores a 6%/ano.

A emissão de Euro Zone Bonds, por haver o pressuposto de que os países da Zona Euro garantem solidariamente o cumprimento dessas obrigações, seria vantajosa, em termos de taxas de juro exigidas, para Portugal. Por exemplo, Portugal precisa de 50mil milhões de Euros em 2011 e com Euro Zone Bonds, em vez de pagar 3mil milhões de Euros de juros por ano (6%/ano), passaria a pagar apenas mil milhões de Euros (2%/ano). Parece uma ideia brilhante.

Mas isto é óbvio. Se formos a um banco e pedirmos 1 milhão de euros, dizem-nos que não. No entanto, se levarmos como avalista, por exemplo, o Sr. Eng. Belmiro de Azevedo, eles não só nos emprestam como ainda nos trazem um cafezinho.

E se Portugal, a Grécia, a Espanha ou a Itália decidirem não pagar quem é que vai pagar? Terão que ser os países do Norte que pensam ser um imperativo moral assumir os seus compromissos.

Mas não há tansos: ninguém de juízo perfeito quer ser nosso avalista. Passa-se o mesmo ao nível das Euro Bonds.

Os cidadãos do norte da Europa sabem que se Portugal voltasse a ter crédito a uma taxa de 2%/ano, tínhamos mais 30 anos de regabofe: subir pensões, subir ordenados, dar subsídios a qualquer chafarica, RSI, PPP, 30 linhas de TGV, mais 5 aeroportos internacionais, mais 10 auto-estradas, e tudo mais que o marketing político dissesse que dava votos.

Eles sabem que, apesar de estarmos numa situação aflitiva há vários anos, em 2010 a despesa pública e o défice crescem. Eles, e eu também, temos a certeza absoluta que a despesa pública e o défice apenas não aumentarão em 2011 se não houver quem nos financie.

E por não haver tansos por essa Europa fora, as Euro Zone Bonds nunca existirão.
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Pedro Cosme Costa Vieira

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