quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

O efeito bola de neve


A necessidade de rupturas estratégicas para qualquer economia contraria a necessidade de curto prazo de reduzir abruptamente o défice nas contas públicas. Ou seja, quando o modelo de crescimento económico está profundamente errado e é necessário proceder a mudanças estratégicas, o limite do défice é um obstáculo. Porquê? Apenas alguns exemplos:
1)      1) Ruptura significa mudar o tecido empresarial, isto é, o Estado não deve impedir que as empresas sem valor acrescentado para a economia fechem portas. Espanha fez o mesmo nos anos 80. Custos sociais = +défice no curto prazo.
2)      2) Ruptura pode significar que o papel do Estado se centre no investimento reprodutivo com claras apostas estratégias de longo prazo (o país não pode mudá-las se muda o partido do Governo); turismo, vinhos, novas tecnologias, têxtil de valor acrescentado. As grandes empresas do vestuário estão a regressar da China para produzirem com qualidade em Portugal e o país já tem um naipe interessante de marcas nacionais, pese embora o consumidor não se aperceba muitas vezes dessa realidade (Sacoor, Throttleman ou Vicri são lusas e exportam). Investimento = +défice no curto prazo.
3)     3) Um downsizing das Administações Públicas significa acabar com o desgoverno dos serviços e fundos autónomos, fundir empresas e serviços e colocar mais produtividade onde há laxismo. A questão não seria então reduzir salários, mas sim mantê-los no curto prazo e subi-los no médio ou longo prazo. Porquê? Porque, como em qualquer empresa, quem trabalha dedicadamente quer sentir-se compensado e os melhores quadros já olhariam para o Estado como um bom empregador. Indemnizações e/ou subsídios de desemprego= +défice no curto prazo.

Chegamos então ao ponto-chave. Espanha, Irlanda, Grécia ou Itália não têm problemas semelhantes aos de Portugal. Todos nós conseguimos fazer uma análise dos pontos fortes de cada um destes países, vantagens competitivas que resultaram de apostas claras de há muitos anos por parte do Estado e dos privados. O único problema nestes países resultou de erros no sistema financeiro e, por exemplo, demasiada especulação imobiliária (Espanha).
Como parar o chamado efeito snowball (bola de neve) em que aparentemente Portugal e outros países caíram? O ministro das Finanças da Irlanda explicava ontem que as medidas draconianas vão resolver os problemas, e que o recurso ao Fundo Europeu de Estabilidade Financeira e ao FMI acontece apenas para travar… o efeito snowball em que o sistema financeiro tinha entrado, arrastando a própria economia.

Portugal tem, portanto, duas alternativas: segue a Irlanda ou luta com outros pela flexibilização do Pacto de Estabilidade, isto é, parar com esta volúpia da redução abrupta dos défices.  As duas medidas em simultâneo seriam o ideal. 1) Deixava de ir ao mercado da dívida e pagar juros exorbitantes, pelo menos durante os próximos quatro ou cinco anos; 2) Alargar o défice seria libertar recursos para as apostas de mudança estratégica do país. Dentro de meia dúzia de anos, Portugal reapareceria não só com finanças públicas mais saudáveis como também munido de uma economia real mais forte, com vantagens competitivas mais fortalecidas. O discurso de baixar os salários para aumentar a competitividade, uma vez que não podemos desvalorizar a moeda, desapareceria de vez. O fatalismo e mérito da redução salarial pressupõe a inevitabilidade da actual camisa de forças germânica, facto notório cada vez que os ministros da União Europeia se reúnem e prestam vassalagem a Merkel.
Veja-se o efeito deste fatalismo para Portugal nos números do efeito snowball.


O efeito snowball resulta da seguinte equação:

D é o nível de dívida total do Estado, Y é o PIB nominal,  DP é o défice primário, isto é, os juros (nominais) médios pagos sobre a dívida pública, Y é a taxa de crescimento nominal do PIB e SF é o ajustamento dívida-fluxo.

No Orçamento do Estado para 2011, aparece o resultado:


Quebrar esta espiral tem custos. E emagrecer agora para ficarmos com as mesmas debilidades estruturais na economia pode não travar o efeito snowball nos próximos 50 anos e torna o país menos capaz de aproveitar períodos de prosperidade na Europa e de resistir melhor às tempestades.

Pedro Palha Araújo 

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