quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Alemanha e Europa: um casal com arrufos



“Recebo-te por minha esposa a ti, Europa, e prometo ser-te fiel, amar-te e respeitar-te, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, todos os dias da nossa vida”. Este está longe de ser o discurso germânico relativamente à União Europeia em geral e à Zona Euro em particular.

A crise da dívida soberana da Zona Euro exacerbou a desconfiança dos alemães no projecto europeu e uma esmagadora maioria diz que, só em situações de absoluta emergência, é que a Alemanha deve voltar a ajudar um país da união monetária.

As conclusões decorrem de uma nova sondagem da Allensbach, ontem publicada no "Frannkfurter Allgemeine Zeitung" e divulgada em Portugal pela versão online do Jornal de Negócios, segundo a qual 63% dos inquiridos responde "não ter muita" ou mesmo "quase nenhuma" confiança na União Europeia (UE), o que traduz um novo máximo histórico.

Há dois meses, a percentagem de alemães que se dizia descrente da UE era de 51%, valor que se mantinha relativamente estável desde 2005, segundo escreve a agência Bloomberg, citando o jornal alemão.
Os que se dizem crentes no projecto europeu passaram, por seu turno, de 37% para 26% no mesmo espaço de dois meses.

A mesma sondagem conclui ainda que uma esmagadora maioria, 83%, considera que a Alemanha só deve envolver-se na ajuda a um outro país do euro (para além da Grécia e da Irlanda) em situações de "absoluta emergência" e sempre no âmbito de um compromisso que force os ajudados a aceitarem "condições exigentes". Apenas 6% considera que eventuais apoios aos parceiros do euro devem ser concedidos de forma mais flexível.

Estes resultados sugerem que a crise da dívida soberana europeia promete ter fortes implicações no denso processo eleitoral que se avizinha na Alemanha e, consequentemente, na base de apoio parlamentar da chanceler conservadora (CDU) Angela Merkel. A partir de Fevereiro e até ao fim do ano, sete dos 16 Estados federados vão a votos. As legislativas estão marcadas para 2013.

Ora, segundo o FMI, a turbulência nos mercados financeiros da Europa irá continuar, pelo menos até meados do ano. É evidente que nessa altura já serão visíveis os bons ou maus resultados das medidas de consolidação orçamental, nomeadamente em Portugal, na Grécia (que já iniciou a caminhada da austeridade há meio ano) e a Irlanda, o país recém-resgatado pelo Fundo Europeu de Estabilidade Financeira. O comportamento da Espanha será decisivo para a Zona Euro. Veremos se este sentimento popular alemão se transmite directamente à senhora Merkel.

Fernando Ulrich (BPI) e o empresário António Murta (Pathena) disseram recentemente, no programa Prós e Contras, que as posições alemãs até são moderadas e que a disciplina orçamental germânica deveria ser a regra nos países periféricos. Quanto ao segundo aspecto, parece-me inquestionável: Portugal pode ser muito menos rico do que a Alemanha, mas quem não tem deve gastar em conformidade… Quanto ao primeiro aspecto, a ver vamos se essa moderação alemã se mantém por muito tempo e não me parece que as posições públicas de Berlim estejam a ser tão “soft” assim.

A Europa, enquanto projecto de união política (a determinados níveis) e monetária, poderá sobreviver se olhar para o seu passado. As diferentes nações estão historicamente habituadas ao conflito, mas a Europa sempre funcionou quando alguns dos seus dirigentes olharam para o conjunto e viram as diferenças. As características, pontos fortes e debilidades são muito distintas dentro desta diversidade europeia. Logo,  fazer tábua rasa e germanizar as políticas de 27 nações, ou até mesmo dos 17 Estados da Zona Euro, é utópico. O Plano Marshall nunca teria acontecido se os seus progenitores olhassem para a Europa numa perspectiva nacionalista.

Pedro Palha Araújo

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