domingo, 23 de janeiro de 2011

O euro faz bem a Portugal?

Portugal ganhava se saísse da Zona Euro neste momento? Não vi ninguém provar de forma categórica que sim ou que não. Como tal, a discussão é legítima. O país ganharia pelo menos a dois níveis (económico e político): podia desvalorizar a moeda para fomentar as exportações (as extra-comunitárias é que estão a sustentar o crescimento das vendas ao exterior, curioso!), ganhava provavelmente flexibilidade a nível salarial (assim o demonstra um excelente estudo publicado no Boletim de Inverno do Banco de Portugal sob o título “Sobre a sensibilidade cíclica dos salários") e libertava-se do colete de forças do Pacto de Estabilidade e dos “diktats” à moda de um “europeísmo de raiz nacionalista germânico”.


Sair da Zona Euro neste momento significaria a balbúrdia nas contas públicas? Não poderá nem deverá ser assim, mas a gestão do tempo e as apostas no investimento reprodutivo poderiam ser geridas de outra forma. Alguém reparou nas recentes declarações do Eng. Belmiro de Azevedo? "Portugal, mesmo quando melhorar, não pode investir neste momento quase nada em recursos técnicos. Não tem dinheiro, e vai ter menos. Ter estragado dinheiro em projetos sem retorno económico imediato é, e espero que não seja no futuro, um desastre. Tem de haver uma mudança total".

Se os alemães têm um trauma com Hitler, os portugueses terão um stress pós-traumático com Salazar. Basta ler um pouco do seu papel na Economia nacional para perceber que nem tudo foi mau. Antes de ser presidente do Conselho, Salazar foi ministro das Finanças no quadro de uma ditadura militar surgida logo após a primeira república. E os efeitos fizeram notar-se muito cedo, logo a partir do seu primeiro ano na pasta (1928). Dir-se-á que Portugal vivia num contexto diferente. É verdade: não tinha havido uma crise financeira global como a actual. Apenas tinha havido uma Guerra Mundial e veio depois a  Grande Depressão dos Anos 30.


Portugal perdeu o Norte, sobretudo a partir de 1995, como o provam vários indicadores (dívida pública e dívida externa, por exemplo). É preciso raciocínio simples, back to basics, e uma purga das engenharias financeiras que nos fazem endividar hoje a prestações suaves que se agigantam quando batermos com a porta e deixamos um país penhorado aos mais jovens. A conta básica no quadro que se segue é necessária, mais do que nunca: não se gasta o que não se tem e ainda podemos poupar.
O que faltou a Salazar, no plano económico-financeiro, foi tempo ou simplesmente visão para dar ao país um rumo estratégico de desenvolvimento de longo prazo, através de investimento reprodutivo, nomeadamente capitalizando o valor das suas colónias. Ele terá provado que é possível colocar as contas em ordem, mesmo em ambiente externo adverso. É verdade que as condicionantes são agora diferentes, mas duvido que a intensidade dos problemas e das pressões fosse muito distinta do actual cenário com que se deparam os nossos governantes.

Fonte:"A Primeira República e a Sustentabilidade das Finanças Públicas Portuguesas: Uma Análise Histórico-Económica", Nuno Ferraz Martins e António Portugal Duarte.

Infelizmente, pouco podemos fazer internamente. Sair de livre vontade? É como um sem-abrigo abandonar um hotel de 5 estrelas, cujo serviço até pode ter inúmeros defeitos, mas sempre é um tecto. Ou a Zona Euro resolve os seus problemas e sai mais forte desta crise, ou a Alemanha estende o seu poder e influência e seja o que Deus quiser, ou o projecto da moeda única acaba de morte natural e cada país terá de valer-se dos seus talentos. Como aconteceu depois da I Guerra Mundial, da Depressão dos Anos 30 e depois da II Guerra Mundial.
Fonte:"A Primeira República e a Sustentabilidade das Finanças Públicas Portuguesas: Uma Análise Histórico-Económica", Nuno Ferraz Martins e António Portugal Duarte.

Vítor Bento, no seu livro “O Nó Cego da Economia”, avança com dados que comprovam a forma Portugal perdeu com o euro, não tanto porque a moeda única seja má em si, mas mais porque Portugal não estava preparado, disciplinado, em termos de finanças públicas, e acabou por agravar ou criar problemas que até então não tinha. “Se não conseguir retomar o caminho da convergência económica, a participação na União Económica e Monetária ter-se-á traduzido num desastre económico para Portugal, de que as gerações mais jovens serão as mais penalizadas (…) Haja liderança que se queira empenhar nesse objectivo” (sic).

Pedro Palha Araújo

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