sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Sócrates, Chavez e Kadafi: um ponto em comum


José Sócrates, Muammar Kadafi e Hugo Chavez. Quais são as semelhanças? Cingindo-nos ao plano das relações bilaterais e políticas governamentais, as similitudes são maiores do que se possa pensar. Não é demais lembrar que as relações entre os três são "saudáveis" e os contactos frequentes.A venda de Magalhães,só por si, já motivou animados encontros entre o primeiro-ministro português e o chefe de Estado venezuelano. Por outro lado, José Sócrates fez da Líbia uma prioridade da política externa e de Kadafi um aliado.

As estatísticas confirmam a proximidade entre Kadafi e Sócrates: entre 2006 e 2010 as exportações portuguesas para a Líbia aumentaram 70%,  O primeiro-ministro visitou a Líbia quatro vezes em seis anos, recebeu Kadafi em Lisboa durante a cimeira UE-África, abriu uma embaixada em Tripoli e assinou um acordo de cooperação económica e empresarial com "a Grande Jamahiriya Árabe Líbia Popular Socialista". Em Outubro de 2005, visitou pela primeira vez a tenda beduína de Kadafi e classificou-o de "líder carismático". Uma identificação consigo próprio?

A memória nem sempre é um instrumento cómodo. Mas afinal qual será a semelhança entre os três líderes? Avanço apenas uma: "aumentar os salários para prevenir uma indesejável saída do poder". Kadafi está com tantas dificuldades em segurar-se nas rédeas da Líbia que resolveu agora aumentar em 150% os salários  e subsídios sociais (ver aqui). Nada de inédito. Hugo Chavez  faz uso desse expediente com alguma frequência (2008 e 2010).

Os actuais cortes salariais na Função Pública em Portugal poderiam ter sido evitados se o descontrolo da despesa não tivesse sido tanto e se, por mero eleitoralismo, Sócrates não tivesse acedido ao aumento em 2,9% dos trabalhadores do Estado em 2009 e aos acréscimos subsequentes nos apoios sociais (subsídio de desemprego prolongado, RSI, complemento solidário para idosos, majoração do abono de família). É evidente que as causas da actual conjuntura não se resumem aos pontos já referidos, bastando ler alguns relatórios do Banco de Portugal para perceber qual é o conjunto de motivos do imbróglio português e que a crise internacional não desculpa tudo, antes pelo contrário.

De qualquer forma, dar com uma mão para logo tirar com a outra é sempre deselegante e tem um efeito pernicioso junto dos visados. Com a corda na garganta e Passos Coelho já em bicos de pés, Sócrates não hesitaria certamente em tomar uma medida de aumento salarial semelhante à de Kadafi. Mas como não vivemos numa  república do Magrebe, Médio Oriente ou América Latina, as regras são mais apertadas e Angela Merkel teria uma síncope cardíaca se tal facto se verificasse dentro da Zona Euro.

Pedro Palha Araújo

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