domingo, 17 de abril de 2011

A bancarrota de Portugal – Teremos que sair da Zona Euro? Parte I

Antes de responder a esta questão tenho que explicar como funciona uma zona monetária e como o sistema responde a um desequilíbrio externo. Simulo uma aldeia que tem uma moeda e comparo o seu funcionamento em câmbios flexíveis e em câmbios fixos.
A aldeia de Santo Aleixo dos Mendigos
Tem moeda própria, o Falso. Circulam na aldeia 10000F e o governo do sistema cambial é assegurado pelo Cambista que tem reservas de 1000€ e 1000F.
As transacções dentro da aldeia são em Falsos e as realizadas com o exterior são em Euros. Por exemplo, um agricultor compra uma camisa ao Alfaiate por 10F; o Alfaiate compra no exterior 5€ de pano, um agricultor vende no exterior 10€ de batatas.
Para poderem comprar bens no exterior, os aldeões trocam os Falsos por Euros e, quando voltam de vender bens ao exterior, trocam os Euros por Falsos.
1. A Balança Comercial da aldeia está em equilíbrio com uma cotação do Falso de 1€/F.
Cada dia uns aldeões cambiam 100F por 100€ que gastam na importação de bens. Nestas operações, o Cambista reduz as suas reservas em Euros para 900€ e aumenta as suas reservas em Falsos para 1100F. A quantidade de Falsos em circulação diminui em 100F.
Outros aldeões exportam produtos no valor de 100€ que cambiam por 100 Falsos. Nestas operações, o cambista aumenta as suas reservas em Euros para 1000€ e reduz as suas reservas em Falsos para 1000F. A quantidade de Falsos em circulação aumenta em 100F.
Ao fim do dia mantêm-se as reservas e a quantidade de moeda em circulação.
2. A Balança Comercial desequilibra-se e o Cambista implementa câmbios flexiveis
Há uma crise e os exportadores começam a exportar apenas 90€ por dia o que desequilibra a Balança Comercial, BC. Se o cambista não actuar, as suas reservas em Euros diminuem, as em Falsos aumentam e a quantidade de Falsos em circulação diminui.
O Cambista estabelece uma regra de ajustamento da cotação do Falso em função das reservas cambiais: Quando as reservas em Euros diminuem (e as em Falsos aumenta), o Cambista desvaloriza o Falso (e vice-versa).
A diminuição da cotação do Falso induz um aumento proporcional no preço dos bens importados (que diminui as importações) e uma diminuição proporcional no preço dos bens exportados (que aumenta as exportações). Por exemplo, à cotação de 1.1€/F, as importações diminuem para 95€/s e as exportações aumentam para 95€/s, ficando a BC equilibrada.
O câmbio flutuante bem feito é um mecanismo muito forte de ajustamento da economia.

A BC desequilibra-se, o Cambista mantém o câmbio fixo mas a moeda perde a convertibilidade
A diminuição da moeda em circulação induz uma diminuição nos preços (deflação) que é uma força equilibradora da BC: preços mais baixos fazem expandir as exportações e diminuir as importações.
No entanto, como as reservas cambiais são pequenas (10%) e existe rigidez na diminuição dos preços, só é possível manter a convertibilidade em câmbios fixos quando há pequenos desequilíbrios na BC. Se os desequilíbrios forem grandes, as reservas em euros esgotam-se antes de haver ajustamento o que implica a perda da convertibilidade da moeda que é um mecanismo muito forte de correcção da BC.
A generalidade dos países é mal governada (por exemplo, pelo Chaves) pelo que não tem moeda convertível:
Provavelmente o Chaves não é esta mas se o google diz que sim, quem sou eu para dizer que não.
A BC desequilibra-se e o Cambista pretende manter o câmbio fixo e a convertibilidade 
Vamos supor que a economia é pouco flexível pelo que a diminuição em 10% da quantidade da moeda em circulação não é suficiente para equilibrar a BC. O Cambista precisa endividar-se em Euros para reduzir ainda mais a quantidade de Falsos em circulação. Endividando-se em 500€, consegue aumentar as suas reservas em Falsos para 500F e diminuir a quantidade de moeda em circulação em 50%.
O câmbio fixo com endividamento é uma estratégia aceitável quando existe excesso de exportações (como é o caso da China com endividamento negativo) mas pouco recomendável para combater défices pronunciados da BC pois pode levar à bancarrota do Cambista.
O objectivo primordial do FMI é evitar que os cambistas entrem em bancarrota. É um mecanismo de ajuda mútua em que os cambistas das aldeias com excedente cambial ajudam os cambistas das aldeias com défice cambial. Mas os cambistas ajudados têm que diminuir a liquidez da aldeia senão nunca mais há equilíbrio externo.
Isto porque existem cambistas que pedem Euros emprestados e depois, emprestando Falsos aos aldeões, evitam o ajustamento (tipo Guterres).
Cada aldeia tem a sua moeda
Contam-se mil aldeias e mil moedas diferentes no país. Nesse caso, teoricamente o cambista de Santo Aleixo dos Mendigos terá reservas das 1000 moedas diferentes e terá 999 taxas de câmbio. Tal seria impraticável pelo que o Cambista apenas terá reservas de 3 ou 4 moedas (Falsos e, por exemplo, Euros e Dólares). Uma pessoa que queira Contrafeitos que é a moeda de Santa Edwiges dos Endividados, troca primeiro Falsos por Dólares e, uma vez chegada à outra aldeia, troca Dólares por Contrafeitos. Dá muito trabalho.
Nota final: A variável mais importante para medir o desequilíbrio da aldeia é a Balança Corrente mas a Balança Comercial é de mais fácil compreensão.


Pedro Cosme Costa Vieira



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