sábado, 16 de abril de 2011

Cobradores do fraque estrangeiros em Portugal


Estou profundamente convencido que a repetição sucessiva de mentiras, meias-verdades, equívocos, sacudidelas da água no capote (a culpa não é certamente minha), injúrias pessoais sucede a tal ritmo na vida política portuguesa que o cidadão comum já nem quer saber. Ele quer que não o chateiem e, sobretudo, que não lhe vão continuamente ao bolso para corrigir desvarios de uns eleitos que foram gastando, gastando e agora estão aflitos e a discutir de quem é a culpa da intervenção do FMI & Ca. Trata-se do mesmo efeito que advém da repetição de imagens violentas (guerras, doenças e fome). Já conseguimos olhar para o ecrã, ver uma criança morrer ou amputada e vamos dormir sossegados. Chama-se a este fenómeno o “efeito da dessensibilização”. No plano político, aconteceu o mesmo, infelizmente.

Mas há que tentar ir um pouco além da patine que cobre toda esta amálgama de números relativos à dívida pública, juros e flic-flacs políticos. Só nos faltava mesmo o Dr. Fernando Nobre, o anti-partidos mais mediático da actualidade, concorrer nas listas de  um partido… laranja, depois de ter sido mandatário do Bloco de Esquerda nas eleições europeias. Ser anti-partidos significa amar a todos por igual? Não, ele já esclareceu: só quer mesmo ser presidente da Assembleia da República e caso não seja eleito abandona o Parlamento, deitando ao lixo a confiança de quem votou em si.

O sociólogo norte-americano Robert Fishman considera que Portugal foi injustiçado pelos mercados. Num artigo publicado no "New York Times, Fishman acha mesmo que Portugal estava a lidar bem com a crise instalada desde 2008, mas os predadores/especuladores tramaram o país. Uma visão idílica: quem nos empresta dinheiro é especulador quando olha para o risco de falência do Estado e pede juros mais altos, mas é frequente ser chamado de financiador quando compra barato ou caro e nos vai dando balões de oxigénio. Normalmente, os especuladores e financiadores são exactamente os mesmos. Os amigos no mercado da dívida pública seriam os bancos portugueses, impelidos a comprar títulos que como colaterais já nem eram aceites por instituições financeiras estrangeiras, uma vez que o rating da república está no limiar da classificação de lixo?

A realidade está nos “fundamentals” da economia portuguesa e não nesta patine de jogos políticos e comentários conjunturais. Bastam dois indicadores, sem menosprezo pelos restantes: dívida pública e dívida externa, sendo que parte da primeira é responsável pela segunda. Em percentagem do PIB: as Administrações Públicas são responsáveis por 46,2% e o sector financeiro por 32,7% da dívida externa líquida. Menos simpático é o retrato da dívida externa bruta: 226% do PIB português.

Fonte: Procedimento dos Défices Excessivos, INE (2011)

                                   Fonte: Banco de Portugal


A culpa não foi de qualquer partido em particular e nem da crise financeira. Olhando para o espectro temporal da dívida pública e externa, temos os governos de António Guterres, de Durão Barroso, de Santana Lopes e de José Sócrates. Basta seguir a curva ascendente nos gráficos. O problema vinha de há muito tempo. O famoso “monstro” (dívida externa), assim designado por Cavaco Silva em 2000, não tem parado de crescer, colocando-nos a todos nas mãos de estrangeiros. Sim, é verdade, os estrangeiros mandaram agora para cá uns cobradores do fraque, mas estes não se limitam a vir buscar o que é de terceiros. Ditam as nossas políticas para a próxima década. Os nomes são conhecidos: FMI, Comissão Europeia e Banco Central Europeu.

Pedro Palha Araújo

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