segunda-feira, 13 de junho de 2011

O abandono Nuclear: estará a Dra. Merkel a actuar de forma emotiva?

Eu penso que a Dr.a Merkel é racional e quer ajudar Portugal mas isso não é transmitido pela Comunicação Social. Um leitor deste blog, a quem agradeço, referiu que o abandono da energia nuclear na Alemanha é uma decisão emotiva que irá trazer problemas a Portugal. Vejamos que não.
E que dizer à E. Coli fatal ter vindo da agricultura biológica?
As centrais nucleares da Alemanha estão velhas
As centrais nucleares da Alemanha são dos anos 1970 estando numa fase terminal da sua vida útil, com perdas de eficiência. A Alemanha para continuar a produzir electricidade com combustível nuclear teria que construir novas centrais.
Fig. 1 – Produção eléctrica nuclear na Alemanha e na China (1990-2010, Banco Mundial)
O consumo de energia está a deslocar-se para a Ásia
A Alemanha (e Itália) tem um consumo de electricidade em decrescimento o que coloca um risco de negócio muito grande na construção de novas centrais nucleares que precisam 40 anos para se amortizarem. As autoridades alemães prevêem mesmo uma redução de 40% no consumo de electricidade a médio prazo.
O consumo de electricidade tem diminuído nestes países porque têm deslocalizado a sua indústria pesada para a Asia.
Relativamente a 1990, na Alemanha consome-se praticamente a mesma electricidade enquanto na China se consome 6.5 vezes e com um aumento médio de 9.4%/ano.
Fig. 2 – Evolução do consumo de electricidade (1990-2010, Banco Mundial)
A Alemanha quer a Rússia como parceiro estratégico
A Alemanha pretende que os Países de Leste se desenvolvam como seus parceiros estratégicos (recordo que 20 milhões de alemães nasceram em territórios que hoje pertencem a esses países de onde foram expulsos em 1945) e a importação de gás natural da Rússia funciona como um instrumento fulcral nessa estratégia de integração económica: A Rússia exporta matérias-primas e a Alemanha produtos de elevado valor.
Para a Alemanha, a Europa de Leste também funcionará como um contrapeso relativamente às pressões da União Europeia com os seus países falidos que querem mama.
A Itália quer integrar-se com os países do Norte de África que também são exportadores de gás natural.
Fig. 3 – Evolução do uso do gás natural na produção de electricidade (1990-2010, Banco Mundial)
Acresce que a Alemanha é um grande exportador de equipamento para a energia eólica e pretende expandir as exportações experimentando as inovações tecnológicas internamente o que também obriga ao uso de gás natural em centrais de apoio.
A Alemanha vai aproveitar o excesso de capacidade produtiva da França
A França construiu centrais nucleares antecipando um grande aumento do consumo de electricidade que não se verificou. Assim, tem excesso de capacidade instalada que a Alemanha procura adquirir a preço de saldo.
Desta forma, como a Alemanha compra o gás natural à Rússia que não o pode vender a mais ninguém e vai adquirir capacidade instalada na França que também não está a ser aproveitada por ninguém, a sua decisão é completamente racional e as decisões racionais trazem benefícios a toda a gente incluindo Portugal.
Finalmente: Está tudo em choque porque a E.Coli veio da agricultura biológica
O azeite espanhol marado, as vacas loucas, os nitrofuranos, a gripe das aves, o leite chinês adulterado, veio tudo da indústria alimentar intensiva. Parecia que o que era moderno era mau e que o antigo, a agricultura biológica, estava acima de qualquer risco.
Aquilo é um choque: um fulano no seu quintal, faz uma agriculturazita biológica seguindo os protocolos tradicionais e causa uma crise alimentar tremenda, com dezenas de mortos e centenas de pessoas nos cuidados intensivos. E se o problema não fosse atacado com a eficiência alemã, aquilo teria causado milhares de mortos.
Este caso faz-me recordar que as centrais nucleares não indemnizam em caso de fuga radioactiva acidental. Parece gravíssimo mas será que este alemão da agricultura biológica vai indemnizar alguém?
As centrais nucleares têm risco, os aviões têm risco, os automóveis têm, a electricidade tem risco, o mar tem risco, tudo tem risco.
Imaginemos o pior cenário que pode acontecer e a realidade vai ser mil vezes pior.
Estar vivo é um grande risco mas não podemos deixar de viver com medo de que o céu nos caia em cima das nossas cabeças.
Fig. 4 – Bunga Bunga: La vita è a soli due giorni.
Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

hynek disse...

visto deste ângulo, parece lógico. Mas há outros factores a ter em conta.
Existem razões económicas e técnicas que é preciso ter em conta nesta análise. Aqui apresento algumas, de várias fontes:
A Merkel manda fechar as centrais nucleares até 2021 mas também quer reforçar centrais térmicas em 20 GW (dobro da potência planeada para substituição das velhas centrais térmicas). As centrais térmicas emitem CO2 e também partículas radioactivas contidas no gás ou carvão (com maior procura vai aumentar preço - gás russo de 350 USD/1000 m3 para 500 USD).
A paragem das 7 centrais nucleares em Março deste ano teve impacte negativo (em 10%) no preço da energia eléctrica transaccionada com países vizinhos. Estima-se que o preço, com fecho de todas as centrais, vai aumentar em 30%.
O Governo Alemão terá de indemnizar os produtores da energia nuclear, E.ON e RWE, (fala-se em 22 biliões de €).
O fisco Alemão deixa de receber 2.3 biliões de €/ano dos produtores da energia nuclear (imposto sobre energia nuclear).
Procurei informações sobre amortização destas centrais, encontrei sobre Temelin (R. Checa) o prazo de amortização de menos de 20 anos.
As energias renováveis, sobretudo eólica e solar fotovoltaica, são energias intermitentes (não devem passar 30% da potência total senão causam problemas graves na rede). Sem potência suficiente de compensação para equilibrar a rede haverá instabilidade e apagões que influenciarão negativamente também as redes dos países vizinhos.
Eliminação de importantes fontes de energia implicará reestruturação da rede energética alemã e construção de alguns milhares km de novas linhas eléctricas de alta tensão - os custos serão astronómicos.

De certeza que haverá mais argumentos, a favor e contra. O futuro é que dirá quem tinha razão.

Continuo achar que a decisão da Merkel vai ser desastrosa para economia alemã e, consequentemente, para toda UE.

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code