quarta-feira, 8 de junho de 2011

O reescalonamento da dívida e o desastre

O reescalonamento (i.e., não pagar) da divida externa leva ao desastre imediato porque precisamos continuamente de mais dinheiro para financiar o nosso enorme défice comercial, 1650M€ em Março 2011. O Memorando de Entendimento assinado pelo PS é uma farsa, é baseado na mentira de podemos amortizar a divida sem corrigir a balança comercial. Agora, é preciso um novo Memorando de Entendimento verdadeiro, muito mais abrangente e com objectivos de longo-prazo.
Fig.1 - O Memorando de Entendimento


O reescalonamento.
O endividamento externo português é muito grande, cerca de 200 mil milhões de euros. Há quem defenda que a solução para este problema é não pagar, reescalonar. Mas, além da dívida, o grande problema de Portugal é o défice comercial que é enorme (1650milhões€/mês, INE - Março 2011) o que obriga a pedirmos constante mais dinheiro emprestado.
É fácil dizer para aumentar as exportações mas isso demora muito tempo e é muito difícil de fazer.
Se Portugal anunciasse que não pagava o que deve, instantaneamente deixávamos de poder importar alimentos e combustíveis o que levaria ao colapso de todo o tecido produtivo português. Já imaginou se ficássemos de um dia para o outro sem combustíveis (gasolina, gasóleo, gás, electricidade), fibras e tecidos (paravam os têxteis), peles (parava o calçado) e rações para animais? Seriam essas as consequências do reescalonamento da dívida.
O défice comercial tem que ser corrigido mas com o mínimo possível de tensão.
É como eu treino no judo: quando estamos desequilibrados quanto mais tempo estivermos de pé, pior será a queda. Temos que nos preparar com tempo, enrolar o corpo para que a energia seja absorvida suavemente pelo todo evitando as tensões que normalmente levam à fractura do braço que apara a queda.
Vamos fazer um Memorando de Entendimento com verdade.
Não podemos ter um Memorando de Entendimento em que nos comprometemos a pagar juros e amortizações que sabemos ser uma intrujice. Não vamos pagar nada. De facto vamos, na melhor das hipótese, pedir mais dinheiro emprestado, tipo Dona Branca, para dizer que pagamos alguma coisa.
Comprometimento do lado de Portugal
Objectivo de longo-prazo (a 50 anos): atingir uma dívida externa de 60% do PIB.
Objectivo intermédio (a 10 anos): atingir e manter um superavit comercial de 2.5% do PIB.

Ano
2011
2012
2013
2014
2015
2016
Saldo Comercial
-11,50%
-9,00%
-7,00%
-5,25%
-3,75%
-2,50%
Ano
2017
2018
2019
2020
2021
2022
Saldo Comercial
-1,50%
-0,50%
+0,50%
+1,25%
+2,00%
+2,50%

Fig.2 - Trajectória necessária para a balança comercial, 2011-2022.

Do lado da Europa (420MM€)
Adquirir a totalidade da dívida externa portuguesa (200MM€).
Financiar o nosso défice comercial durante o processo de correcção (70MM€)
Financiar os juros entretanto vencidos à taxa de 5.5%/ano (150MM€).

Contrato de Boa Vontade
A taxa de juro cobrada pela Europa (5.7%/ano) terá que ser decomposta na taxa de juro cobrada pelos credores ao fundo de resgate (actualmente 3.7%/ano) e na penalização de 2p.p./ano que será uma caução.
Se Portugal atingir o objectivo intermédio, a caução (80MM€ em 2022) é convertida em amortização da dívida e a taxa de juro deixa de ter penalização.
Fig.2 - Trajectória da dívida externa com um verdadeiro Memorando de Entendimento

A partir de 2020,  o superavit da balança comercial permitirá amortizar de facto a dívida externa.
Não será nada fácil corrigir a balança comercial mas a alternativa é o colapso.
Se tivermos mesmo que pagar os 5.7%/ano, é necessário acordar mais 10 anos para atingir um superavit comercial 6.5% do PIB.

Os juros da dívida continuam a bater recordes. Parta já uma missão para falar com a Merkel pois temos ali uma amiga.

Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

hynek disse...

um belo cenário....

Um grande obstáculo ao desenvolvimento e ao crescimento da economia portuguesa, ao meu ver, é o próprio estado (ou seus funcionários?). Os obstáculos burocráticos (para criar condições para subornos?), excesso de regulamentação inútil, inércia da justiça....
O estado prefere a estorvar em vez de simplificar e ajudar que as coisas aconteçam. Por isso não acontecem e a economia vai-se afundando.

Há imensa coisa que pode ser feita em Portugal por Portugueses, sem necessidade de serem importados. Existem capacidades, falta vontade política. A economia do país está bloqueada artificialmente.

Será que Passos Coelho vai conseguir desbloquear a economia?

Quanto à Merkel, a mim parece que está fazer tudo para se manter no poder, tal como Sócrates. A mais recente rejeição da economia nuclear (para agradar aos Verdes), se se concretizar, vai ajudar afundar economia alemã e consequentemente a europeia, pois o preço da energia, em toda Europa, vai subir e a estabilidade da rede eléctrica vai ser posta em causa. Para Portugal sobra também. Por isso o cenário aqui traçado poderá sofrer uma alteração para pior, mesmo se nos esforçarmos e fizermos tudo bem.

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