segunda-feira, 18 de julho de 2011

Desvalorizar o Euro? É uma anedota?

Lembram-se do cambista de Santo Aleixo dos Mendigos?
Para explicar como se determinam as taxas de câmbio tenho que voltar lá e recordar o funcionamento de um sistema de câmbios flexíveis. É preciso voltar à aldeia.

O que é uma Zona Monetária.
Uma zona monetária tem uma moeda que circula internamente. Pode ser parte de um país (por exemplo, em Macau circulava a Pataca e não o Escudo), o caso mais normal é ser um país e, no caso da Zona Euro, é formada por vários países.

O Banco Central, BC, tem duas importantes missões.
    1. Tem a Taxa de Juro (taxa de desconto) para controlar a taxa de inflação.
    2. Tem a Taxa de Câmbio para controlar a "saúde das contas externas".
Estas duas variáveis não são perfeitamente independentes: o aumento da taxa de juro também mexe nas "contas externas" e a taxa de câmbio também mexe na taxa de inflação.
No dia a dia, o BC troca euros por moeda estrangeira para as importações poderem ser pagas e troca a moeda estrangeira recebida das exportações por euros.
Fig. 1 - Esquema da Zona Euro (exemplo contra o USDólar).

Existem mais umas parcelas que entram nas "contas externas" como sejam a "balança de serviços", os juros e lucros pagos/recebidos e as transferências unilaterias (dos imigrantes/emigrantes).
Chama-se Balança Corrente ao conjunto destas entradas/saídas de dinheiro.
Quando a Balança Corrente é negativa, as reservas em moeda estrangeira do Banco Central diminuem e a quantidade de euros em circulação aumenta. Assim que o Banco Central observa estes movimentos, usa as suas variáveis para controlar o desequilibrio.

Vai desvalorizar o Euro.
Ao desvalorizar o euro, os bens e serviços importados vão ficar, em euros, mais caros. Então, comparando com os bens produzidos internamente, existe uma alteração dos preços relativos que favorece os bens internos.
Mas o poder de compra vai diminuir. A gasolina, os alimentos, etc., porque são importados, vão aumentar de preço o que faz diminuir o poder de compra.
Em termos de bem estar, a desvalorização é perfeitamente equivalente a uma diminuição dos salários, rendas, depósitos bancários e dividas (em euros).
A desvalorização vai aumentar a inflação. Mas é um efeito ténue.
Os produtos importados aumentam de preço. Como importamos 40% do que consumimos, uma desvalorização de 1 ponto percentual, induz um aumento da inflação em 0.4 pontos percentuais.

Vai subir a taxa de juro.
Se a quantidade de euros em circulação aumentar, a inflação aumenta. Para evitar isso, o BC aumenta a taxa de desconto (juro). Assim, as pessoas depositam mais dinheiro no BC.
A subida da taxa de juro também corrige a Balança Comercial. Mas é um efeito ténue.
Do lado da procura, o aumento da taxa de juro diminui o consumo e o investimento (aumenta a poupança).
Do lado da oferta, aumenta a oferta de trabalho: as pessoas querem trabalhar mais pelo mesmo salário o que tem como efeito induzir uma tendência de diminuição dos salários.

O poder equilibrador da Balança corrente da taxa de juro é mais fraco que o efeito da desvalorização.
Se não houver desvalorização, 
     A) A taxa de juro vai aumentar muito (porque o efeito é tenue: já está nos 20%/ano)
     B) Os salários têm que descer de forma significativa (ou aumenta o desemprego: já está nos 13.5%).

Quando a Balança Corrente é positiva, as reservas em moeda estrangeira do Banco Central aumenta e a quantidade de euros em circulação diminuiu. O Banco Central vai usar as suas variáveis de controle em sentido contrário.
     Vai valorizar o Euro.
     Vai descer a taxa de juro (a EURIBOR está com taxas reais negativas).
Interessante ninguém falar nisto: a Zona Euro tem uma taxa de juro muito baixa. E que nós não soubemos aproveitar.

Como estão as balanças correntes das principais Zonas Monetárias?
Agora já podemos raciocinar. Só precisamos de dados das Balanças Correntes.
Se a Zona Euro tiver uma Balança Corrente negativa então, o Euro tem que desvalorizar.
Se a Zona Euro tiver uma Balança Corrente positiva então, o Euro tem que valorizar.

Fig. 2 - Balança Corrente nas Zonas Euro, Dólar, Yen e Libra (1999/2009, Banco Mundial).

Evolução futura das cotações mundiais,
O Dólar tem que desvalorizar dos actuais 1.40USD/€ para 1.70 USD/€;
A Libra tem que desvalorizar dos actuais 0.87 Libra/€ para a paridade, 1.00 Libra/€;
O Yen tem que valorizar dos actuais 110Y/€ para 90 Y/€.
O Euro deve manter. Como a Balança Corrente está quase no zero, a cotação vai-se manter.
O que acontecerá se as moedas não ajustarem à Balança Corrente?
Haverá um aumento do endividamento das Zonas Monetárias deficitárias (USA e UK) que induzirá novas "crises de dívida soberana".
O Baraka quer ir neste sentido e por isso é que existe a guerra do "tecto do endividamento" que o Baraka quer aumentar e os Republicanos não. O aumento do tecto é a semente de termos uma Grécia e um Portugal à escala planetária. Até a BARRACA ABANA.
O Japão poderia aumentar o nível de vida da sua população (pois os combustíveis e os alimentos descem com a valorização da moeda) mas vai acumulando créditos.

É incrível.
Quando um fulano diz uma asneirada gravissíma como, por exemplo, de que o Euro precisa desvalorizar, na rádio, tv e jornais, toda a carneirada repete a asneira.

Fig. 3 -Ou sai asneira ou entra mosca.

Portugal é um manicómio em que os ditos sem tino ecoam boca-a-boca e vão sendo deturpados no processo de criação de novos desatinos.
É um manicómio em autogestão. 
São atordadas umas a seguir às outras. Também se não fosse isso, onde é que eu  ia buscar inspiração?

Fig. 4 - Em Portugal, estas malucas davam opinion makers de economia.

O gajo pensa que sabe tudo.
Pelas minhas palavras parece que eu julgo saber tudo. Ainda nenhum leitor o disse mas eu chego a achar-me um iluminado.
O mais grave é que eu sei pouco de economia. Até porque sou engenheiro e dos fracos.
Então imagino: o que é que aqueles dirigentes e opinion makers têm na cabeça?
O que é aqueles professores catedráticos de economia andam a ensinar?
Não há um número, um raciocínio, nada. É só dizer asneira da grossa.

Os portugueses pensam assim. 
Um colega meu, insigni economista, tem uma filha que estuda num colegio fino.
Os pais reuniram-se e pediram para que os professores proibissem as crianças de ver os "Morangos com Açucar" porque era degradante. Estava indignado porque eles não queria proibir.
Eu, tanso, perguntei: "mas ela não vê os Morangos na escola. Vê-os em tua casa. Desliga isso".
"Aí fica quebrado o laço pai/filha, ela não compreende que é para bem dela,... blá, blá, blá"
Claro que eu pensei, este gajo é larilas (peço desculpa a todos os larilas que têm filhos).

Portugal está igual.
Os políticos não os/as têm no sítio (tintis ou mamocas) para assumir que os salários têm que descer 25%. Não. Argumentam que "o povo não compreenderia, blá, blá, blá" e mandam os alemães que, desde 2000 desceram os custos do trabalho 15% enquanto nós aumentamos 20%, desvalorizar a moeda que tem uma cotação correctíssima.
Fig. 5 - A Miley tem-as no sítio.

Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

hynek disse...

também não sou economista, mas também procuro saber o que preciso e procuro relacionar os assuntos. Penso que muitos salários são adequados à produtividade dos que o auferem e dos respectivos custos de trabalho. Outros nem por isso. Há demasiada gente que não produz para sustentar o seu salário e tem de se ir ao salário de outros, explorados até ao tutano, para pagar estes salários (empregos conseguidos por cunhas, nepotismo.., falta de capacidades para determinado trabalho, etc....) basta ir ver os salários astronómicos de alguns dirigentes das empresas públicas. Uma empresa privada, quando o dono emprega lá familiares ou amigos que não produzem, pode ir à falência (se não corrigir à tempo, vai mesmo). Empresas públicas, mesmo em falência técnica, continuam ser regadas com dinheiro do erário público. É por isso que Portugal, no seu global, tem altos custos de trabalho em relação a aquilo que produz (falado globalmente à escala de Portugal). Não há melhor mama do que a do Estado. Não há empresa mais privilegiada do que o Estado. Vai buscar lucros (impostos), e que lucros!!!! ao tudo e todos. Infelizmente a Democracia chegou a este ponto, serve só a quem sabe servir-se dela. Os restantes são meros idiotas úteis (na democracia grega - do grego "idios" - a maioria dos cidadãos que trabalha para sustentar as minorias que governam, sem tempo nem oportunidade para pensar sobre esta injustiça). Está na hora de nossa democracia sofrer alguns ajustes.

João disse...

É óbvio que a balança corrente da zona euro está quase totalmente equilibrada - a quase totalidade do comércio internacional dos países que a compõem é intra-comunitário.

Só não vê quem não quer. Parabéns, Prof. Cosme, por dizer a verdade quando toda a gente parecer ter medo de a mostrar. Os salários têm de descer. E muito. É isso ou sair do Euro (aí não descem em termos nominais, descem em termos reais, que vai dar ao mesmo, com a diferença de as pessoas acharem que estão a ganhar poder de compra quando na realidade estão a perder e muito).

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