sexta-feira, 22 de julho de 2011

Estamos num buraco muito pior que o de 1982

Ontem estive no bar a falar com um colega meu que é especialistão em economia portuguesa, o O.F. Estive à conversa uma hora e meia a ver se sacava informação relevante para vos transmitir.
Numa conversa de "sacar informação" temos que ser agressivos e dizer coisas meio parvas para induzir respostas informativas.
Resultou que o O.F. está optimista porque
1) "A dívida líquida portuguesa está próxima do que era em 1984, 90% do PIB"
2) "Em 1982 a balança corrente era de -13.5% do PIB e passou a +1.7% do PIB em 1985".
"E saímos com certa facilidade dessa situação"

Mas os meus números não dizem isso. Porque será?

A balança corrente.
Quantifica o saldo da balança comercial (importações e exportações), o saldo da balança de serviços (turismo), juros e transferências unilaterais (emigrantes).
Em 1982 o saldo comercial era de -14.9% % do PIB e em 2009 era menor, -7.7% do PIB
Em 1982 as remessas dos emigrantes foram +8.8% do PIB e em 2010 foram apenas +1.4% do PIB
Quando a balança corrente é negativa, tem que entrar dinheiro no país para cobrir esse défice.

A dívida.
Acumulando o défice corrente, obtemos o endividamento do país. Certo?
Está errado. E aqui é que reside a principal diferença, para pior, da nossa situação actual.
É que a dívida ao exterior apenas considera a dívida de residentes a estrangeiros. Não considera a dívida de estrangeiros (que investiram o dinheiro em Portugal) a outros estrangeiros. E mais: se esses estrangeiros se financiarem junto de portugueses, é contabilizado como dívida do exterior a Portugal.
Assim, há muito dinheiro que Portugal deve ao exterior mas que não está contabilizado como dívida pois não vence juros.

O investimento estrangeiro.
Se a EDP construir uma barragem por 500Milhões€ e pedir esse dinheiro emprestado aos espanhóis, este valor é contabilizado na dívida de Portugal ao exterior.
E a Iberdrola construir a mesma barragem por 500Milhões€ com capital espanhol, este valor não é contabilizado na dívida de Portugal ao exterior.
Qual é a diferença real entre estas duas situações?
É que a EDP vai pagar juros aos espanhóis e a Iberdrola vai pagar dividendos aos mesmos espanhóis.

Será assim tão diferente?
Os juros da EDP saem de Portugal.
Os lucros da Iberdrola saem de Portugal.
O investimento estrangeiro (directo ou não), vai no futuro, como os juros, drenar recursos portugueses.
E pode acontecer ainda pior: pode rapidamente ser convertidos em dívida:
A Iberdrola vende a barragem à EDP por 500milhões€ e empresta-lhe esse mesmo valor. Sem mais nada, os 500milhões passam a aparecer na dívida ao exterior.
Em termos económicos é exactamente a mesma coisa mas contabilizada de forma diferente.
É como as PPPs que não contam no endividamento público mas são a mesma coisa.
Ou, nas empresas, os contratos de Leasing.
Assim sendo, como nos comparamos com 1982?
Vou pegar na Dívida Líquida de 1982 e acrescentar-lhe o défice corrente do período 1982/2010.
Obtenho para 2010, uma posição líquida de -173% do PIB. Este valor é muito superior aos 110% do PIB considerados correntemente como o endividamento líquido (o Banco de Portugal indica um número menor, 95%).

Fig. 1 - Comparação entre 1982 e 2010

Vamos amortizar isto em 50 anos.
Primeiro, a balança corrente tem que ir a zero (que será, sem juros, uma correcção de -6% do PIB),
Isto é muito difícil porque já não temos remessas dos emigrantes.
Depois, fazendo uma taxa de juro de 3.5%/ano, uma inflação de 2.0%/ano e um crescimento de 1.6%/ano, temos que libertar mais 3.5% do PIB.
Isto não é possível.
Será preciso uma correcção de 10pp, 17 mil milhões de €.
Será preciso reduzir as importações em 30% sem afectar as matérias-primas usadas nos bens e serviços exportados.
Alguém acredita nisto? Eu não até porque ninguém nos empresta dinheiro a 3.5%/ano.

Vamos é tratar de sair da Zona Euro.
Como o Governo não fala sequer em descer salários, temos que sair da Zona Euro para desvalorizar os custos do trabalho em 30%.

Eu não vi a bola cruzar a linha mas ouvi dizer que já está
3:0 para os ratinguistas

Há um desvio ... colossal
Nada do que tem sido dito corresponde à verdade. Posso garantir porque não não ouvi nada disso.
O que eu penso que aconteceu:
"Digam uma novidade bombástica" disse o PPC.
"Há um desvio, pausa e dedos a enrolar, nas contas públicas, pausa, de 2 mil milhões €" diz o das Finanças
"Não, uma novidade mesmo, que ninguém saiba"
"O Vitor Bento, pausa, está a ficar, pausa e dedos a enrolar, careca"
"É pá, em comparação com a primeira, isto sim, isto é uma novidade colossal"
"Sim, pausa, na Pauásia, pausa e dedos a enrolar, ninguém sabe, pausa, que o Vítor, pausa, é pausa,  careca, e, pausa e dedos a enrolar, sabem do desvio"
pausa, pausa, pausa, pausa, pausa, dedos a enrolar, pausa, pausa, pausa, pausa, dedos a enrolar, ...

A minha última teoria
Eu tenho um colega, que era um bocado gordo, que foi para o governo Sócrates. Lá não usava a roupa de professor. Bons fatos, feitos à medida.
Entretanto emagreceu. Novos fatos. 
No outro dia vi-o e, pumba, voltou a usar exactamente a mesma roupa que tinha antes de ir para o governo. Como está mais magrote, a roupa fica-lhe um bocadito grande. Não faz mal.
O interessante é que agora o Ministro das Finanças usa aqueles fatos azuis feitos à medida
para um gordo.

É pá, o dito cujo teve que deixar lá os fatos que estão a ser re-utilizados.
Isto é que é poupança.


Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

hynek disse...

mais um bom exemplo de como as coisas sérias podem ser divertidas a explicar. Obrigado e fico ansioso para ver os novos artigos.

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