quarta-feira, 13 de julho de 2011

A falência soft de Portugal: a saída da Zona Euro

Em Abril, quando escrevi sobre a falência de Portugal,  prometi que ia dar uma visão de como poderia ser a falência soft. Prometer é fácil mas essa missão veio-se a tornar muito difícil.
Então pensei: vou-o fazer quando o blog atingir 30000 visitas. Isto porque nunca imaginei que tal fosse possível de acontecer.
Mas aconteceu, o que agradeço, pelo que estou obrigado a avançar com o roteiro para a saída do Euro.

Fig. 1 - Muito obrigado.

Vamos sair do Euro.
Cada vez é mais evidente que  Portugal e a Grécia (e, com menor grau de certeza, também a Irlanda, a Espanha e a Itália) vão sair da Zona Euro.
Isto porque, apesar de constantes anúncios de medidas duras, no concreto nada acontece em termos de equilíbrio da economia  em termos de Défices do Estado e da Balança Corrente (os famosos "Défices Gémeos")
Nos média já se fala disso há algum tempo mas ainda ninguém apresentou um possível roteiro para uma bancarrota controlada.

Tenho que o fazer eu.

Acredito que a Alemanha já está a desenhar um plano para implementarmos quando se verificar que o "resgate da troika" falhou.
Fig. 2 - Foi bom mas acabou-se.

Porque é que o resgate falhou?
Os normais mecanismos de ajustamento da economia (variações na taxa de juro, na taxa de inflação e nos salários nominais) funcionam bem quando o sistema está  apenas um pouco desviado do equilíbrio.
Nestas situações, o Governo não precisa fazer nada e pode ainda adoptar políticas ligeiramente erradas que, mesmo assim, a economia acaba por se equilibrar.
É como aquelas dietas malucas em que as madames querem fazer uma caminhada a alta velocidade sem comer: o organismo vai  sentir-se cansado e cheio de dores musculares pelo que, quer queiram quer não, têm que parar para poupar energia.

Na situação actual, em que o desequilíbrio é muito profundo e afecta tudo, é necessário que o governo adopte medidas firmes e muito diferentes do que é normal fazer.
Será, principalmente, necessário induzir a
     Diminuição dos salários e flexibilização dos contratos de trabalho;
     Diminuição das pensões de reforma e outras transferências sociais;
     Subida das taxas de juro dos contratos a taxa fixa (habitação);
     Liquidação/falência das empresas públicas;
     Agilização dos tribunais mexendo nos "direitos fundamentais" do cidadão.

Como o Governo acredita na estratégia de anunciar que vai fazer e nada fazer e os normais mecanismos  de equilíbrio automático não actuam de forma suficientemente rápida então, a falência de Portugal é inevitável: vão falir os bancos, as empresas, as famílias e o Estado.

Sendo inevitável a saída da Zona Euro, uma saída controlada terá um impacto menos negativo que uma saída à bruta.

Fig. 3 - Quando der para o torto, o melhor é saber por onde sair.
Primeiro passo: fixação dos preços e salários em Euros e em Escudos.
Anúncio a 1 de Outubro de 2011
Efectivação a 1 de Janeiro de 2012
Como o Escudo só foi abandonado há 10 anos, 80% da população ainda raciocina com os preços em escudos. Por isso, será aconselhável manter o câmbio de 200.482 Escudos para 1 Euro.
O câmbio Euro/Escudo mantém-se, inicialmente, fixo.

Segundo passo: Reintrodução do Escudo em circulação juntamente com o Euro.
Efectivação a 1 de Abril de 2012
As caixas multibanco começam a dar escudos mas também Euros.
Os supermercados, o Estado e demais passam a estar obrigados a receber em Escudos e em Euros.

Fig. 4 - O melhor é usar as mesmas notas.

Reintrodução do Banco de Portugal como banco Central
Será necessário que o Banco de Portugal comece a controlar a liquidez e a reintroduzir o mercado aberto de Escudos ressuscitando a taxa de juro LISBOR.

Terceiro passo: Redenominação da moeda dos contratos.
Efectivação no dia 1 de Julho de 2012
Todos os contratos de trabalho, as reformas e as prestações sociais passam a estar denominados em Escudos.
(este ponto não é obrigatório) Os contratos do Estado também passam a estar denominados em Escudos . Haverá contratos com o exterior que será necessário que se mantenham em Euros para não se tratar de um incumprimento externo.
A partir deste momento, tudo o que esteja no perímetro do Estado (Estado central, empresas públicas, autarquias e empresas autárquicas, regiões) apenas pode fazer novos contratos denominados em escudos.
Esta medida evitará que o Estado se endivide para além da sua capacidade de pagamento.

O roteiro não pode induzir uma corrida aos bancos
A redenominação não pode implicar o incumprimento das obrigações externas nem a saída massiva de capitais pelo que:
Os depósitos bancários e as dívidas bancárias continuam a ser denominadas em Euros.
Se os depósitos bancários não continuarem em euros, haverá uma corrida aos bancos o que induzirá a bancarrota descontrolada de Portugal.
Não pode ser.
O Escudo não terá credibilidade para ser reserva de valor.
Como vai funcionar o sistema bancário:
Uma pessoa recebe o seu salário em Escudos e  deposita-o no banco em Euros (ao câmbio, inicialmente fixo)
Quando for levantar 50 contos ao Multibanco, é feito o câmbio e retirado da conta os correspondentes Euros.
Quarto Passo: Passagem a "câmbio fixo" deslizantes.
Inicio a 1 de Outubro de 2012.
A passagem a câmbios flutuantes induzirá flutuações muito fortes na cotação até atingir um equilibro entre os 240$/€ e 260$/€ (uma desvalorização entre 20% e 30%).
O melhor será a utilização de um período (1 ano) de desvalorização deslizante.
Passando no dia 1 de Outubro de 2012 à cotação de 201.00/€, a cotação diminui às 0horas de cada Domingo mais 1.00$/€ até atingir, no dia 15 de Setembro de 2013, a cotação de 250.00$/€.

Fig. 5 - Desliza, desliza que eu estou aqui em baixo à tua espera.

Quinto Passo: Passagem a câmbios fixos.
Início a 1 de Outubro de 2013.
Os câmbio deslizante fará a cotação ir para um câmbio de equilibro pelo que é expectável que a cotação se mantenha facilmente fixa.
Mantendo-se os câmbios fixos durante o período de ajustamento (até 2020), podemos voltar a entrar na Zona Euro com esta nova cotação (250$/€).
Se a situação não estabilizar, será necessário passar a câmbios flexíveis e continuar com o Escudo.
  
Como os salários e os preços vão ser denominados em Escudos, a desvalorização do Escudo induzirá uma  descida dos salários e dos preços (em euros) dos bens e serviços produzidos em Portugal e um aumento dos bens e serviços importados (em escudos).
Esta variação dos preços relativos induzirá um aumento nas exportações e uma diminuição das importações.

Onde entra o "novo plano de ajuda"?
O prejuízo de sairmos do Euros será, no máximo, de 50mil milhões€
Este valor é o aumento da dívida externa líquida, 200milmilhões€, induzido pela desvalorização do Escudo em 25%.
Mas o prejuizo será muito maior se teimarmos em ficar na Zona Euro sem fazer as duras medidas de ajustamento necessárias para equilibrar a nossa economia.

Participação do Estado nas perdas: 30 mil milhões €
Da perda total de 50 mil milhões€, prevejo a necessidade de o Estado ajudar as famílias e as empresas que vão perder a capacidade de pagar as suas dívidas.
Este problema não pode ser passado para os credores porque implica a falência do sistema bancário.
O Estado terá que fazer um plano de ajuda às famílias e empresas que vão ficar insolvente.
Supondo que o Estado vai cobrir 1/4 das perdas cambiais dos activos dos bancos (que são cerca de 450 mil milhões €), para uma desvalorização do Escudo em 25%, o "novo plano de ajuda" terá que cobrir cerca de 30 mil milhões de euros, (25% de 450 mil milhões€) / 4, a somar à divida pública.
Fig. 6 - A jovem quer uma ajuda? Uns 100 euritos? Quer dizer, uns 20 contos?
Portugal vai ainda precisar de muito mais dinheiro.
Esta necessidade existe mesmo que Portugal se mantenha na Zona Euro.
Eu estimo esse valor em 420 mil milhões de € ao longo dos próximos 50 anos.
Esta verba deve ser negociada quanto antes e juntamente com o roteiro da saída.

Afinal, podemos sair da Zona euro sem grandes traumas ou aflições.
Se os problemas forem pensados e as soluções implementadas com cabeça, nada é impossível de resolver.
Mas duas coisas são certas. Uma é que vamos morrer. Outra é que nos próximos anos, o nosso rendimento vai diminuir cerca de 25%

Pedro Cosme Costa Vieira

3 comentários:

Anónimo disse...

Já pensou no Euro para os paises nordicos e o Euro 2 para os paises do Sul? E o euq esta ser discutido aqui na Alemanha.

Cumpts.

H.S.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Anónimo,

Já pensei nisso e escrevi um post que pensei que estava on-line mas está apenas no meu livro.
Amanha vou apresentar um resumo.

A minha argumentação é que os fracotes não querem ficar numa zona monetária só com fracotes.
Quererá Portugal ficar com a Grécia?
Não.

Sair da Zona Euro implicará que cada país vai ter uma moeda diferente.

pc

Anónimo disse...

A sua analise e blog é excelente deixe-me dizer com toda a franqueza. A meu ver e vou entrar num capitulo vulgarmente chamado conspiração, o mundo vai entrar em colapso financeiro como um todo. Existe um plano bem delineado para o controle dos estados e sua dependência dos sistema financeiro global. A Nova Ordem Mundial (NWO) está a ser implementada enquanto a industria do "let me entertain you" nos distrai e afasta da realidade. Pesquise por exemplo "Zeitgeist 2 Addedum". Meu caro nada disto vem nos livros académicos, mas quem tiver um palmo de testa percebe o que está a acontecer!

Cumprimentos novamente da Alemanha.

H.S

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