quarta-feira, 27 de julho de 2011

Os salários e o equilíbrio da economia

Portugal tem a sua economia muito desequilibrada: Desemprego, Défice Comercial, Défice Público.
Uma economia de mercado tem múltiplas variáveis que actuam em conjunto para que os desequilíbrios que vão surgindo sejam corrigidos: salários, taxa de juro, nível geral de preços face ao exterior, migrações.
Como na Sic Notícias decorre uma discussão sobre a flexibilidade dos despedimentos e parece-me que o Feyo está engasgado contra o Bernardino, hoje vou começar pelo mercado de trabalho.
A Economia de Mercado.
A economia de mercado pressupõe uma especialização dos indivíduos. Vou condensar todos os indivíduos em dois agentes agregados: os Empregadores e os Trabalhadores.

O mercado de trabalho.
As vontades dos Empregadores encontram-se com as vontades dos Trabalhadores no mercado de trabalho.
Quanto mais elevado for o salário, mais os Trabalhadores procuram empregos e menos os Empregadores oferecem empregos.
O salário relevante em termos económicos é o salário real, W/P, dado pela divisão entre o salário nominal, W, e o nível de preços, P.
Há um salário de equilíbrio de mercado em que a quantidade de empregos procurada é igual à quantidade de empregos oferecidos.
A evidência empírica diz que no equilíbrio ainda existe "desemprego registado" de 4%.
Por razões exógenas ao mercado (por exemplo, uma alteração dos preços), o mercado de trabalho pode caminhar para um situação de desequilíbrio:
      Desequilíbrio 1 - Se o salário real for maior que o valor de equilíbrio haverá desemprego.
      Desequilíbrio 2 - Se o salário real for menor que o valor de equilíbrio haverá "vagas" desocupadas.
O salário real vai evoluir no sentido de corrigir o desequilíbrio.
No caso do desequilíbrio 1, não havendo limitações legais, o salário real vai diminuir o que faz cair  o desemprego e aumentar o número de pessoas a trabalhar. O mercado passa do ponto A para o ponto B (ver Fig. 1).
O desemprego vai ser reduzido por dois mecanismos: por um lado, aumenta a oferta de empregos (são criadas mais vagas nas empresas) e, por outro lado, diminui a procura de empregos (menos pessoas querem trabalhar).

Fig.1 - Correcção do mercado de trabalho quando o salário é muito elevado


Quando o mercado está no desequilíbrio 2, o nível de emprego também vem diminuído mas não haverá desemprego. Pelo contrário, os Empregadores não conseguirão encontrar trabalhadores em número suficiente para as vagas abertas. Então, o salário vai aumentar, aumentando o nível de emprego e a facilidade com que os empregadores encontram novos trabalhadores.
Fig.2 - A curva da procura: a 20€, quero uma; a 15€, quero duas; a 10€, quero quatro. Mas olhando bem, tu pareces-me um homem pá!
Outras variáveis que afectam o mercado de trabalho.
O salário real é a variável que mais afecta o mercado de trabalho. Outra variável importante é a taxa de juro. A produtividade também é uma variável muito importante mas é exógena ao mercado.
Supondo que estamos no equilíbrio A e acontece uma subida da taxa de juro (ver, fig. 3).
Os empregadores, para cada salário, vão querer menos trabalhadores porque, nas economias desenvolvidas, o trabalho e o capital são factores complementares. A taxa de juro traduz o preço do capital pelo que a sua subida leva a uma diminuição do investimento e também da necessidade de trabalhadores.
Fig.3 - Evolução do mercado de trabalho quando há aumento da taxa de juro

Numa primeira fase, o mercado vai passar do ponto A para o ponto B onde aparece desemprego. O mercado ajustando o salário real (diminuindo), o desemprego vai diminuir até termos o nos equilíbrio do ponto C.
A diminuição dos salários vai permitir que o nível de emprego da economia se mantenha quase idêntico à situação inicial.
Portugal, neste momento, está a sofrer um aumento vertiginoso da taxa de juro. Então, por não haver diminuição dos salários reais, o desemprego está a aumentar de forma explosiva e sem dar mostras de abrandar da tendência. Desde 2002, o número de desempregados já triplicou (ver Fig. 4). Recordo que a redução do número de desempregados de 2009-2010 apenas foi transitório e conseguido à custa de défices públicos enorme que nos levaram às gigantescas taxas de juro que agora estamos a pagar.

Fig. 4 - Evolução do número de desempregado (1998-2011, fonte: INE)

Será que flexibilizar os despedimentos vai equilibrar o mercado de trabalho?
Sim.
Uma pessoa sendo despedida, posteriormente vai para um emprego com menor salário.
Mas não é a medida correcta porque a perda do emprego é uma situação muito traumática para o trabalhador. Desvaloriza a sua auto-confiança e causa perda nas suas competências. Claro que haverá sempre necessidade de uma ou outra pessoa ser despedida, mas o ajustamento do mercado não pode ser feita pelos despedimentos mas antes pela descida / subida do salário real.
É melhor que a pessoa não chegue a sair do seu emprego original.
A facilitação dos despedimentos apenas traduz a dificuldade que o Governo tem em flexibilizar os salários.
Porque é que o Código do Trabalho proíbe, mesmo que o trabalhador o queira, haver uma diminuição do salário? Que valor está o Estado a defender? O desenvolver da miséria?
Se qualquer contrato, em caso de dificuldades financeiras da empresa, pode ser revisto, porque é que a empresa em dificuldades não pode propor novos salários?

Fig. 5 - Paguem menos mas dêem-nos trabalho

Sempre que há uma dificuldade numa empresa, se houver activos, os trabalhadores votam invariavelmente pela falência. Ainda não houve nenhum caso em que os trabalhadores propusessem uma redução dos salários. É lógico:
1) Temos prioridade a receber.
2) Recebemos 30 dias por cada ano de trabalho
3) Se tivermos mais de 50 anos, recebemos Subsídio de Desemprego durante mais de 30 meses mais 2 meses por cada 5 anos de serviço.
4) Depois, vamos para a reforma sem penalização.

Dizem que isto vai mudar.
Mas é só para o tempo futuro, blá blá blá, daqui a 10 ou 15 anos já estará plenamente em vigor.
E a taxa de desemprego vai explodindo.
E Portugal vai caminhando para a bancarrota.

Fig. 6 - O diminuir não é assim tão negativo

Não gostei do meu novo nome.

Pedro Cosme Costa Vieira

1 comentários:

Anónimo disse...

A figura 2 está a tornar-se uma lenda no campus

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