segunda-feira, 11 de julho de 2011

Portugal está mal? Não. Cuidado é com os EUA

Há algo de podre nas agências de rating. Portugal reuniu sem grande dificuldade um consenso político alargado em torno de um plano de austeridade imposto pelo FMI, BCE e UE para nos emprestarem 78 mil milhões de euros e evitarmos, desse modo, a bancarrota. Houve eleições e o governo tem maioria no Parlamento. Todos os sinais são positivos e a Moody's baixa o rating da dívida sem mais nem menos. Até aqueles que eram mais benevolentes com estas agências vieram gritar para a praça pública.

Quem estiver mais atento às notícias dá conta que, de facto, algo anda virado do avesso: a directora-geral do FMI falou ontem sobre um possível default dos EUA e o presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, convocou para hoje uma cimeira de emergência com o presidente da Comissão, Durão Barroso e os três ‘senhores' do euro, Jean-Claude Juncker do Eurogrupo, Jean-Claude Trichet do BCE e o comissário Olli Rehn. O objectivo é discutir o segundo plano de resgate da Grécia, o perigo de a Itália entrar em incumprimento e a situação espanhola. Quanto a Portugal, não se passa nada para já...

Portugal? "Passa-se alguma coisa por aí?", pergunta Lagarde

Ou seja, o grande paradigma do crescimento económico está com problemas tão graves ou mais do que os apontados a Portugal, com a agravante de um eventual incumprimento norte-americano traria problemas sistémicos, mundiais. Como todos sabemos, os problemas estruturais de finanças públicas não surgem da noite para o dia. Vejamos então o que dizem as agências de rating, todas de raiz norte-americana (Fitch tem agora capitais franceses) sobre os EUA.


Standard & Poor's


 United StatesAAA
Jun 2011
Fitch

 United StatesAAA
September 2000

Moody's


 United StatesAaaMar 2010

O triunvirato dá nota máxima aos EUA nas suas mais recentes notações. A mais activa tem sido a S&P, com avisos sérios, ameaçando mesmo rever o rating do seu país natal até...2015. Que dureza!

Não havia sinais de alarme na economia norte-americana, visíveis para especialistas como os que trabalham nas agências? Bom, é verdade que a crise financeira de 2008 também lhes passou ao lado. Talvez tivessem dispensado a maioria do seu pessoal para férias nessa altura!

FIGURA 1: Dívida pública dos EUA em % do PIB
FIGURA 2: Os tectos para a dívida púbica dos EUA foram
crescendo ao longo dos anos, adaptando-se às circunstâncias

Curiosamente, o que preocupa os norte-americanos não é tanto o crescimento da dívida, mas sim o facto de o país estar no limiar do seu tecto legal (FIGURA 2). Portanto, a directora-geral do FMI, já instalada nos EUA, disse esperar que os dois partidos (Republicano e Democrata) cheguem a um compromisso até à data – 2 de Agosto – que a Casa Branca deu como limite para o Congresso aumentar o tecto máximo do endividamento dos EUA, que chegou ao seu limiar a 16 de Maio.

Apesar do impasse nas negociações, o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, assegurou ontem que o país não deixará de cumprir os seus compromissos financeiros. “Os Estados Unidos não entrarão em default” (incumprimento da dívida), reforçou.

Ficamos assim todos mais descansados. O descontrolo das contas públicas pode ser resolvido nos EUA e em países como Portugal, onde a dívida anda pelos 93% do PIB e o défice pelos 9% (5,9% é o objectivo para este ano). Basta estabelecer um limite constitucional para o endividamento (em % do PIB), mas adaptá-lo ao longo do tempo, se necessário. O mesmo se poderia fazer com o défice, só para facilitar e não andarmos aqui todos com a cabeça à roda de cada vez que uma agência de rating dá notas sem olhar para os testes dos seus alunos.

Pedro Palha Araújo


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