quinta-feira, 14 de julho de 2011

Títulos da dívida pública: a suprema embrulhada

Pescadinha de rabo na boca ou o imbróglio
das dívidas soberanas europeias


De acordo com os instrumentos do FEEF (Fundo Europeu de Estabilidade Financeira), teoricamente já é possível que um Estado receba dinheiro e depois o use para recomprar uma parte da sua dívida, normalmente com um desconto significativo”, referiu o porta-voz do ministro das Finanças, Martin Kotthaus, citado pela Reuters há dias. Pressionados pela Alemanha, os estados da Zona Euro até já admitem que os privados participem nos custos de uma eventual reestruturação da dívida grega. É como uma família em que uns emprestam dinheiro aos outros e as regras relativas ao pagamento e juros vão sendo alteradas ao longo do tempo. É família, ninguém leva a mal.

Vou vender a minha casa, um bem que possuo (podia ser o meu ordenado, isto é, a minha capacidade de criar riqueza, um activo de qualquer forma), mas depois vou ao banco (o FEEF não me aceita) e vou conseguir recomprar a casa a um preço mais baixo e o banco até me faz um crédito bonificado nessa circunstância. Se o mercado imobiliário recuperar (mercado secundário!) até vendo outra vez o imóvel. Faz todo o sentido! A engenharia financeira não tem limites, como se constatou em 2008.

É uma das maiores embrulhadas que já se viu. Já tínhamos percebido que havia bancos europeus que iam ao mercado primário e secundário da dívida comprar títulos da dívida do respectivo país ou de outros estados. Se necessário, até recorriam ao BCE, pagando uma taxa de 1% para se financiarem para comprar… títulos das dívidas soberanas. A propósito, os bancos são grande parte dos privados que serão chamados a participar nos custos de uma reestruturação ou recalendarização da dívida grega e quiçá de outros países. O BCE nunca irá gostar muito desta solução porque andou a comprar títulos da dívida dos países periféricos no mercado secundário. De quem é o capital do BCE? Dos bancos nacionais da Zona Euro...

Engenharia financeira = ideias brilhantes

Tal como sugerem alguns economistas, entre eles o director da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, José Reis, mais valia que o BCE emprestasse aos Estados da Zona Euro. Por outro lado, poderão ter alguma razão aqueles que defendem as eurobonds, que no fundo já existem quando o Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira (gerido pela Comissão Europeia e que apoia a UE-27) e o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira emitem dívida para financiar pacotes de ajuda acordados com países como Portugal e Irlanda (Grécia não beneficiou até agora do FEEF porque obteve apoio antes da sua criação).

Suspeito que a Zona Euro já entrou num processo de fuga para a frente. Os problemas avolumam-se. A Itália é já uma preocupação e eventuais problemas com a Espanha fazem parte dos piores pesadelos europeus. As agências de rating não dão tréguas, pese embora a Comissão Europeia pareça agora empenhada em criar uma estrutura própria de notação financeira. A solução pode amenizar os downgrades do triunvirato norte-americano e até o BCE diz que a Moody’s pode avaliar Portugal como “lixo” que em Frankfurt assobia-se para o ar e aceitam-se os títulos da dívida portuguesa como colateral.

Pedro Palha Araújo

1 comentários:

Anónimo disse...

Aquele que nunca pecou que atire a primeira pedra!

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