sexta-feira, 23 de setembro de 2011

As reformas do mercado de trabalho

Numa economia com moeda própria (como o escudo) existem dois instrumentos de política que permitem controlar o mercado de trabalho (o desemprego) e o mercado externo (o défice corrente).

Por um lado, há a desvalorização da moeda. Consegue-se corrigir o desequilíbrios das contas externas com uma desvalorização da moeda porque, instantaneamente a) diminuem os preços dos bens produzidos em Portugual, b) aumentam os preços dos bens produzidos no estrangeiro e c) diminuem os salários reais dos portugueses (e aumentam os no estrangeiro).
Por outro lado, há a inflação. Consegue-se corrigir o desequilíbrio do mercado de trabalho (desemprego) com um aumento da inflação porque facilita, em termos psicológicos, a descida do salário relativamente aos preços relativos (a descida do custo do trabalho).


Está perfeito porque são dois instrumentos para controlar dois mercado.
Por isto é que todos os países deixaram o Ouro e adoptaram moeda própria (em papel).
As economias passam a ser fáceis de conduzir. Até eu, com os meus rudimentares conhecimentos de economia, seria capaz de gerir uma região que tivesse moeda própria. Até o Sócrates era capaz.

O Ricardo Reis cometeu dois pequenos erros.
Eu gosto muito do RR. É um pessoa simpática, agradável e é um dos maiores cientistas económicos do mundo. Por isso, é um grande prestigio para mim conhece-lo pessoalmente.
E enche o meu ego de orgulho poder apontar ao RR estas duas pequenas falhas de raciocínio.

Falha 1. O RR diz que, a saída de Portugal do Euro implica uma desvalorização do novo Escudo.
Isso só é verdade porque temos uma Balança Corrente, BC, desequilibrada (-10% do PIB) que não queremos equilibrar com a diminuição dos preços pois obrigaria a uma diminuição nos "custos do trabalho" em termos reais e nominais (diminuição dos salários ou aumento do horário de trabalho) que repugnamos. 
Se tivéssemos a BC equilibrada, não aconteceria qualquer desvalorização. Por exemplo, se a França sair do Euro, ninguém prevê que ocorra uma desvalorização do Franco. E, quando em 2012 a Alemanha sair do Euro, observar-se-á uma (pequena) valorização do Marco (< 10%).
Se reduzíssemos os salários nominais em 25%, a saída do Euro não implicava qualquer desvalorização do Escudo.
Então, a implicação não é "sair -> desvalorizar" mas antes "uma BC deficitária -> desvalorizar".

Falha 2. O RR diz que, desvalorizando a moeda, a inflação aumenta.
A inflação é um fenómeno puramente monetário que se controla aumentando ou diminuindo a liquidez da economia (em termos simples, a quantidade de moeda em circulação). Se queremos aumentar a inflação, o Banco Central injecta dinheiro (compra dívida pública). Se queremos diminuir a inflação, o Banco Central retira dinheiro de circulação (vende dívida pública).
Então, a implicação não é "desvalorizar -> inflação" mas antes "aumento da liquidez -> inflação".

Existirá alguma ligação entre "desvalorizar" e "inflação"?
A desvalorização implica um aumento proporcional (quase porque há a margem de comercialização) no preço dos bens importados.
Supondo que os preços locais não variam, que a desvalorização é de 20% (o preço dos bens importados aumenta 25%), e que o peso dos bens importados no consumo é de 20%. Então, a "inflação importada" fica em 5.0%. Por exemplo, na Saída da Argentina do Dólar, os preços dos bens importados aumentou 400% e a "inflação importada" ficou-se nos 25%.
Mas apenas existe "inflação importada" porque o Banco Central não quer manter firme a liquidez (que levaria à queda generalizada dos preços locais). Assim, acumoda a "inflação importada".
Então, a implicação deverá ser "alto desemprego -> permitir a inflação importada".

O Ricardo Reis respondeu-me no dia 27 de Setembro de 2011 o que muito agradeço.

Caro Pedro,
Obrigado pelos teus comentários e parabéns pelo excelente blogue. Em relação às questões que levantas:

Questão 1
Concordo (quase) completamente. Uma premissa no meu raciocínio é que a BC está desequilibrada. Como isso é conhecimento corrente, não achei necessário explicitá-lo no meu texto.

Questão 2
Novamente, não discordo do que dizes. A minha falha é, novamente, de omissão, neste caso de passos no mecanismo. O raciocínio completo seria:
"Com moeda própria, seria de esperar que, por um lado, os agentes económicos esperassem que o Banco de Portugal fosse mais propenso a aumentar a liquidez do que o BCE, e por outro lado que o Banco de Portugal de facto aumentasse a liquidez quer para nos ajudar a recuperar da recessão quer como forma de gerar receita para resolver os problemas de finanças públicas. Quer um mecanismo, quer o outro, levam a maior inflação”.
Mas deixa-me acrescentar que mesmo antes que o banco central aumentasse a liquidez, provavelmente a inflação aumentaria. Se Portugal deixasse o euro, eu esperaria que a taxa de cambio nominal se desvalorizasse mais do que os 20-30% que a nossa taxa de cambio real está sobrevalorizada. Isto porque eu esperaria que aumentassem de imediato as expectativas de inflação no país e que houvesse uma fuga de depósitos para fora do país, logo diminuindo a procura de dinheiro, o que com uma oferta de dinheiro inalterada, resulta logo em inflação.

Um voto final de encorajamento por subires, à tua maneira, o nível da discussão sobre economia em Portugal.

Ricardo

No que ficamos?
A desvalorização não é 100% independente da inflação mas são dois instrumentos diferentes que podem ser perfeitamente controlados. A moeda pode desvalorizar e a inflação ficar exactamente na mesma e a moeda pode ficar exactamente na mesma e haver inflação. Depende tudo de como está a economia.
Em Portugal como temos um duplo desequilíbrio económico (triplo porque as contas públicas também estão desequilibradas), teria que aumentar a inflação para diminuir o desemprego (porque não somos capazes de diminuir os salários nominais) e desvalorizar a moeda para diminuir o défice externo (porque não somos capazes de reduzir os preços).

Qual a importância da agilização dos despedimentos?
O Governo está-se a concentrar principalmente no desequilíbrio das contas públicas mas isso não é suficiente para evitar a bancarrota. Mesmo que Portugal tenha um défice público zero, não tem como  controlar as contas externas. Tínhamos que baixar os preços mas o INE garante que os nossos preços estão a aumentar mais depressa que os dos nossos parceiros comerciais. A nossa economia vai no sentido do precipício total.
O Governo, querendo que fiquemos no Euro, tem que meter pressão do lado dos trabalhadores para que aconteça uma diminuição do nível de salários reais o que irá impulsionar a descida do desemprego e dos preços.
Não há pressão maior que facilitar os despedimentos em conjunto com uma diminuição do Subsídio de Desemprego. É um alicate que aperta dos dois lados.

Mas falta o principal
Que é permitir, em alternativa ao despedimento, o aumento do horário de trabalho ou a redução dos salários dos trabalhadores. Não existe qualquer fundamento moral para o Estado proibir esta liberdade contractual.
Por exemplo, para um salário de 200€/s, 40h/s, o Trabalhador A produz 100u. e o Trabalhador B 80u. O Governo vai dar a hipóteses ao empregador despedir o B mas também deveria ser dada a alternativa de aumentar o horário de trabalho do B para 50h/s ou reduzir o salário para 160€/s.

Vamos supor uma pessoa em Arouca.
Que é uma terra isolada e longe de tudo. Um trabalhador pode preferir em emprego à beira de sua casa a ganhar 300€/mês a ir trabalhar para o Porto a ganhar 600€/mês.
O Estado não se deve meter nestes assuntos.

Descer a TSU dos "novos empregos" vai dar asneira grossa.
Os governantes e os comentadores estão a pensar no efeito directo de não cobrar TSU: os empresários vêm o custo dos novos trabalhadores diminuir pelo que vão contratar mais pessoas.
Mas isso funcionaria no Céu, vá lá, na Alemanha.
Aqui, os malandros vão pensar que se arranjarem uma empresa que os contrate por 1000€/mês e não forem trabalhar, em 15 meses só têm que descontar para a Segurança Social 1540€. Depois vai receber de Subsídio de Desemprego 650€/mês durante 18 meses mais 500€/mês durante 9 meses de Subsídio Social de Emprego que soma 16300€ mais RSI durante um ano ou dois e ainda lhe conta mais 2.5 anos de tempo de serviço para a reforma.
A S.S. recebe 1540€ e vai largar mais de 20mil. Isto é que vai ser um negócio da China.
Os técnicos do governo são da maior incompetência que jamais foi criado à face da Terra.

Pedro Cosme Costa Vieira

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