segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Qual a lógica da China emprestar dinheiro a falidos?

A Faculdade de Economia do Porto, onde ensino, tem dos melhores alunos do país. Em testes de aferição realizados a nível nacional, são oe que apresentam melhores resultados.
Não sei como é nas outras escolas, mas na minha essa muito elevada capacidade não é convenientemente aproveitada porque o ensino concentra-se em exercícos rebuscados e cheios de pormenor que mascaram, para não dizer que não contêm, os conceitos gerais da teoria económica.
Só com Leis da NAtureza e Princípios gerais é que o aluno poderá, no futuro, compreender como actuar em presença de uma economia em constate mutação.
Todos os meus colegas sabem que eu sou incapaz de resolver aqueles exercícios.
Como não sei resolver esses exercícos logo, não sei economia.
Como não sei economia, tenho que simplificar as questões de forma a vincar as grandes forças que fazem mover a realidade económica.

Fig. 1 - Perceberam? Há alguma dúvida?

A questão típica de um aluno da FEP.
Os alunos, dada a complexidade da exposição, sentem-se incapazes de colocar questões sobre os problemas económicos concretos. Sentem-se burros. Já imaginaram a pergunta
  - Sr. Professor, se o Kj/Sj for maior que 1.235 será que se mantém verdadeiro o facto de o Pt/St ser maior que 0.562? 
  -Vê-se que não esteve atento à exposição. Podem fazer perguntas mas que sejam pertinentes.

A questão de uma aluna minha.
Quando o Socrates foi à China pedir dinheiro, uma aluna questionou-me sobre a lógica desse negócio segundo duas vertentes. Primeiro, qual a vantagem para a China de emprestar dinheiro a um país falido e, depois, quais os inconvenientes para Portugal disso. O dinheiro vinha e ficava cá.
Isto não é uma questão fácil. Lá disse qualquer coisa mas só agora, decorridos longos meses, penso estar capaz de responder a esta questão. É mesmo dificil.

A questão do desenvolvimento tecnológico.
Os bens que produzimos contêm tecnologia que custou muito dinheiro a desenvolver mas que têm um custo de uso muito baixo. Por exemplo, a União Europeia investiu centenas de milhares de milhões de euros no desenvolvimento tecnológico do AirBus que, uma vez conhecidas as tecnologias, não é preciso incorrer nesse custo.
Outro exemplo, a Europa e os USA investiram milhões de milhões de euros no desenvolvimento da energia nuclear que agora torna essa tecnologia segura e barata. 
A China quer essa tecnologia sem ter que a pagar.
Então vai copiar a estratégia do Japão: emprestar dinheiro aos países mais desenvolvidos que depois se obrigam a transferir (a um preço igual a 1% do custo de desenvolvimento) a tecnologia para a China.

Fig. 2 - A convergência do Japão e a da China, PIBpc (fonte: Banco Munial)

O crescimento económico.
Uma economia que precise desenvolver tecnologia cresce, per capita, na casa dos 1.7%/ano (ver, USA e Japão depois de 1970, Fig. 2). Se o país importar tecnologia consegue crescer a uma taxa de 8.7%/ano (ver, Japão antes de 1970 e China pós 1980, Fig. 2). É uma diferença colossal que é necessário aproveitar.
Mas os países desenvolvidos não querem dar a tecnologia pelo que têm que ser forçados.

No período 2005-2010, a China teve um saldo corrente positivo de 170 milhões de milhões de USD que emprestou aos países desenvolvidos, principlamente aos USA.
Os USA habituam-se a viver acima das suas possibilidades (nos últimos 5 anos endividaram-se em 285 milhões de milhões de USD) pelo que não conseguem controlar a dívida que está completamente dependente dos empréstimos chineses. 
De repente, a China começa a pressionar dizendo que vai alterar a sua estratégia de compra de dívida.
Pronto, lá vem a tecnologia de borla.

Por exemplo, se a China emprestar 100 mil milhões a uma taxa de juro 5 pp. abaixo da rentabilidade do mercado interno chinês então, em 10 anos, vai ter um prejuizo de 40 mil milhões. No entanto, depois consegue apropriar-se de tecnologia no valor de 500 mil milhões pelo preço de 5mil milhões. Assim, tendo paciência, aplica 105 mil milhões e recebe 540 mil milhões. É um negócio da China.
Claro que, um dia, quando a China atingir a fronteira tecnológica, passará a crescer 1.7%/ano. Foi isto que aconteceu com o Japão desde 1970. Mas até lá, lá para 2050, a China desenvolve-se.
Em 2010, o rendimento disponível de um chinês é 13 vezes o que era em 1980.

Por exemplo, o negócio  nuclear.
Em 2007 a China decidiu que queria dominar a tecnologia nuclear. Foram aos USA e disseram aos da Westinghouse:
 - Queremos comprar centrais nucleares mas têm que transferir a tecnologia nuclear para a China a custo zero.
- Ai isso não pode ser, é estratégico para o USA, ai isso é que era bom - dizem os americanos.
- Ai que pena, é que para já, compravamos 4 e pagavamos 8 mil milhões e depois de transferirem a tecnologia, queríamos um total de 100 reactores. Então temos que ir falar aos europeus.
- Ai não, espere ai, traz um cafezinho para este senhor que eu não tinha percebido que eramos parceiros estratégicos.
A Europa transferiu tecnologia do AirBus, da cosntrução automóvel, etc., etc.

Em Portugal, vão entrar por aí.
Agora, a China vai entrar em Portugal comprando empresas mesmo falidas. Não me admiraria nada que comprassem, além da EDP que já disseram estar interessados, a CP, a REFER, O Metro do Porto e o Metro de Lisboa. Dá-lhes poder para vir à Europa buscar tecnologia a preço de saldo.

Pedro Cosme Costa Vieira

3 comentários:

Francisco Nunes Pereira disse...

Bom dia,

Não acha que para além do interesse na tecnologia, o principal motivo é financiar balanças de pagamentos deficitárias para que estes países continuem a importar da China?

Francisco Nunes Pereira

Económico-Financeiro disse...

Em parte está certo que o crédito também promove as exportações chinesas mas tem que ser usado com cuidado.
As exportações pressupoem receber-se o preço da mercadoria.
Quando a China vende um bem pelo preço de 1.5€/u e empresta 0.75€/u que não vai receber, de facto está a vender por 0.75€/u que não será suficiente para pagar o petróleo e outras matérias-primas usadas na produção do bem.
Os países têm que escolher se será mais vantajoso vender mais barato a pronto ou conceder crédito com risco de não receberem o valor.
Faz-me lembrar os negócios do Sócrates de vender a Angola e não mais se receber. As empresas chinesas, em Angola, fazem muito mais barato que as empresas portuguesas mas os chinas aos angolanos só vendem a dinheiro (em troca de petróleo) enquanto que os portugas vendem a crédito.
Porque será que os chinas não vendem a crédito aos angolanos e vendem ao americanos?
Penso que Angola não tem tecnologia que lhes interesse.
Um abraço, pc

Francisco Nunes Pereira disse...

Obrigado!

Francisco Nunes Pereira

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