sábado, 8 de outubro de 2011

O Brasil vai ser uma potência mundial mas em sonho.

O Brasil é muito grande.
Nos seus 8460 mil km2 cabia toda a União Europeia mais o Japão e a Índia e ainda sobrava muito terreno. A sua população (195M) é equiparável ao conjunto da Alemanha (84M), França (65M) e Reino Unido (62M).
Com estes números colossais é natural que os brasileiros aspirem a ser uma potência mundial.
Mas não basta querer ser. É preciso fazer por isso e os factos económicos apontam no sentido contrário.

Fig.1 - Mapa do Brasil

A situação económica do Brasil
Em 1960 o Brasil arrancou para 20 anos de forte crescimento económico, conseguindo uma taxa de 7.3%/ano (ver Fig. 2). Nesta altura, os brasileiros pensaram que tinha começado o arranque para se tornarem a terceira potência mundial.
Depois veio a terrivel década de 1980 que iniciou 20 anos de crescimento anémico (+2.0%/ano) o que fez com que, lentamente, o povo tenha perdido a esperança.
Caiu o Muro de Berlim, uma oportunidade, mas o Brasil não pôde ir a jogo porque estava falido.
Em 2003 voltou a esperança com o Lula. Foi um pequeno sinal (+3.6%/ano) mas o optimismo tomou conta do povo brasileiro. Só festa, samba, foguetório por tão pouco.
  
Fig.2 - Crescimento do PIB, Brasil - 1960/2010, USD de 2000 (fonte: Banco Mundial)

Se analisarmos em termos de PIB per capita (ver Fig. 3), no período 1980-2000 a economia brasileira esteve mesmo estagnada (+0.2%/ano) e, nos últimos 10 anos está a crescer (+2.4%/ano) mas, para quem quer ser uma potência, isto não é nada. Matendo-se esta taxa, o Brasil apena atinge o actual PIBpc português em 2050.

Fig. 3 - Crescimento do PIBpc, Brasil - 1960/2010, USD de 2000 (fonte: Banco Mundial)

Por que será que o Brasil não arranca? 
Há quem defenda que o crescimento é puxado pelo consumo. Estes são os "keynesianos", os da esquerda.
Dizem que, para um país crescer é preciso aumentar o consumo (e, consequentemente, combater a poupança). Há que favorecer a distribuição dos rendimentos dos que têm mais (e poupam mais) para os que têm menos (e consomem mais).
É este o processo que está a aquecer a economia brasileira.
Mas está pensamento está errado porque, para uma economia crescer, é preciso investir em nova capacidade produtiva.
E para haver investimento tem que haver poupança.
Para crescer é preciso diminuir o consumo. Estes são os "novos clássicos" que são seguidos na China e na Índia. Os esquerdistas chama-lhes neoliberais.

Perguntem aos esquerdistas, broquistas, keynesianistas que dizem que o consumo faz aumentar o crescimento como justificam a relação negativa entre o consumo e o crescimento verificada nos dados (ver Fig. 4). 
A linha de tendência foi calculada usando as 100 maiores economias (que representam 95.0% do PIB mundial, 2010, fonte: Banco Mundial) pelo WLS em que o ponderador é a dimensão da economia. Acrescente 10 pp ao consumo  por o investimento ser em termos brutos (uma proxy da amortização). Na banda entre as linha a verde acumulam-se 2/3 dos 100 países (em termos de PIB).

Fig. 4 - Crescimento do PIBpc e consumo, média 2000/2010, pp do PIB (fonte: Banco Mundial)

O aumento do consumo em 1 pp do PIB implica a diminuição do crescimento em 0.24 pp.
R2 = 80.4% (a variável consumo explica 80% do crescimento)
O investimento no Brasil sempre foi pequeno e está em queda pelo que a economia tem uns pequenos arranques mas pára logo.

Fig. 5 - Investimento Bruto, Brasil - 1960/2010, % PIB,  (fonte: Banco Mundial)

O Brasil teve e tem como principal problema a falta de poupança.
O povo brasileiro não tem hábitos de poupança. A taxa de poupança em 2010 foi de 15% do PIB. É uma sociedade de consumo, comparável com as mais evoluidas, em que as pessoas não estão dispostas a abdicar do conforto presente para fazer a economia crescer.
Mas não existe outra forma de crescer de forma sustentada que não seja pelo poupar e investir.
Mesmo investir com a poupança exterior (capital estrangeiro) não é solução. A economia cresce mas, como é preciso pagar os juros, a riqueza disponível para os nacionais não cresce. Mesmo assim, pontualmente o investimento estrangeiro é importante porque transfere tecnologia mas não pode substituir a poupança interna.

A falta de poupança é uma bomba relógio.
Não havendo investimento, os equipamentos vão-se tornando obsoletos, o design dos produtos fica démodé, a economia torna-se menos competitiva, o crescimento diminui. Aí, o Governo, dizendo que vai estimular a economia, começa a incentivar o consumo o que desequilibra as contas do país (ver fig. 5) até que, de repente, vem a "crise financeira". O Brasil, em 2007, entrou neste processo (Ver, fig. 6)

Fig. 6 - Balança Corrente, Brasil - 1960/2010, % PIB,  (fonte: Banco Mundial)

Como será a próxima década no Brasil?
O Investimento é cada vez menor. O défice corrente está a piorar. Não prevejo nada de bom.
Mais ano menos ano, vai estourar como estourou em 1979 e em 1999.
Talvez aguente até 2019 mas, indo como vai, estoura.

Mas o Brasil é dos BRICS que são o futuro.
O Brasil é tipo uma pessoa sem auto-estima que se enche de orgulho quando alguém lhe faz um elogio. E esse alguém é a China, o dragão, que usa os BRICS como arma política.
Re-olhemos para a posição dos BRICS na Fig. 4. O Brasil está a milhas da China e da Índia e junto da Africa do Sul.

Em 1980, a economia brasileira representava 50% da economia total dos BRICS.
Em 2010 já só representa 16% e, dentro de 10 anos, representará 10%.

Em 1980, a economia chinesa representava 21% dps BRICS.
Em 2010 já representa 57% e, dentro de 10 anos, representará 70%.

Quando a China aparece em algum forum internacional não quer parecer agressiva e, por isso, leva a reboque um país da América do Sul, um da Europa, um de África e a bomba humana Índia.
Importantes vão ser a China e a Índia. O Brasil é uma dama de honor.

Fig. 7 - Dimensão económica do Brasil, Índia e China - 1960/2010, USD 2000,  (fonte: Banco Mundial)

Em 1970, a economia chinesa valia metade da brasileira. Em 2010 já vale 3.5 vezes.

Vejamos o investimento
A China investe 45% do PIB, a Índia 35% e o Brasil 17%.

Fig. 8 - Investimento no Brasil, Índia e China - 1960/2010, %PIB,  (fonte: Banco Mundial)

Peso do Brasil na Economia Mundial
O Brasil é a sexta "economias" mundial mas representa apenas 2.2% do PIB global.
Apesar de as três maiores economias estarem a perder importância, essa fatia não está a passar para o Brasil mas vai para a China e para a Índia.

Ano
USA
EUU
JPN
CHN
IND
BRA
1970
30,76%
32,52%
14,03%
0,82%
0,96%
1,57%
1980
29,13%
30,40%
14,95%
1,04%
0,89%
2,44%
1990
29,09%
28,06%
17,09%
1,83%
1,11%
2,07%
2000
30,73%
26,36%
14,49%
3,72%
1,43%
2,00%
2010
28,24%
23,35%
12,24%
7,84%
2,35%
2,21%
Cresc. (1990/2000)
3,43%
2,23%
1,18%
10,42%
5,46%
2,54%
Cresc. (2000/2010)
1,67%
1,30%
0,82%
10,47%
7,76%
3,58%
2020 prev.
25,95%
20,69%
10,34%
16,52%
3,86%
2,45%
Tabela 1 - Peso comparativo do Brasil na Economia Mundia (fonte: Banco Mundial)

Espelho meu, espelho meu, será que o Brasil vai ser uma potência mundial?
Já o é e continuará a ser. É a potência do Futebol, do Samba, das mulheres bonitas e da goiabada.
Mas da economia e da geopolítica, nunca será uma potência.
Tinham que reduzir muito o consumo porque 2.45% não conta para nada.
Se o Brasil (ou Portugal) quiser voltar a ter crescimentos na casa dos 6%/ano tem que reduzir o consumo em 20 pontos percentuais do PIB.

Proverbio chinês
Se queres comer mais maçãs e és leviano, abana a árvore que tens. Se és sensato poupa esses esforço e planta mais macieiras.

Pedro Cosme Costa Vieira

15 comentários:

fpduarte disse...

Boa desmontagem. Oxalá não fosse assim mas fica demonstrado que é. Sem poupança acima dos 20 pc não há crescimento.

Falta-lhe um exemplo do Brasil como grande potência de mulheres bonitas!

Da leitura dos seus posts registo que a análise séria não é inimiga do bom humor e que a economia não é necessariamente uma "dismal science".

Cumprimentos

Anónimo disse...

Este sitio nao eh um caso de economia, mas sim da boa psicologia...o sujeito que escreve esta muito amargurado!

Tem algumas coisas, poucas, com sentido (consumo x investimento, etc). Porem, tortura esses dados, por exemplo, para comparar Brasil e China uma ora positivamente outra negativamente.

Lula nao foi a esperanca, fio a continuacao. A grande mudanca no Brasil foi em 1994, Plano Real, o que ocorreu desde la eh uma locomotiva a andar, porem nao "ajustaram" o intinerario, apenas usaram (Lula) da inercia para seguir adiante.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Anónio, agradeço ter lido o post e ter dado a sua opinião. A tecnica que usa é de retórica: atacar o escritor em termos pessoas. Atenção que as pessoas conhecem as técnicas:
http://economicofinanceiro.blogspot.com/2011/07/teorias-inconsistentes-concentracao-nos.html

Será o estimado leitor capaz de dar exemplos de países que, não poupando, o nível de vida dos seus cidadãos cresceu?

pc

Anónimo disse...

posso ate dizer que muitas coisas que dizem do Brasil é verdade,mas nunca esquecendo que fomos colonia de exploraçao e nao de povoamento, sendo assim fomos usados e explorados até hoje!!!elogio nosso povo pela força de crer em dias melhores, e tenho pena ao ve-los cegos diante de uma politica suja e ultrapassada,lembrando tbm que a populaçao só teve direito aos estudos ja bem tardio diante da europa...e america do norte, entao falar de Brasil nao é para qualquer um, como dizia Malthus o mundo precisa dos miseraveis, vejam Africa e por ai vai...o velho continente tem de pagar o preço como todos nós pagamos ao FMI, CREIO EM REVOLUÇAO EDUCACIONAL...NADA MAIS.

Anónimo disse...

http://www.youtube.com/watch?v=AaWYr9J-ySA

Anónimo disse...

http://www.youtube.com/watch?feature=player_detailpage&v=4sm3bQkzSM0#t=291s

Newton Pessoa disse...

Professor, sou um engenheiro elétrico brasileiro, mas permita-me dar uma opinião. O texto do dá a entender que o Brasileiro, o cidadão comum, não poupa nada e que torra qualquer migalha que sobra do salário em consumo e adora fazer uma dívida. Esta é uma verdade parcial.

Todo brasileiro empregado poupa compulsoriamente 8% para o FGTS, um fundo que visa proteger o trabalhador em caso de demissão, mais 11% para o INSS (previdência pública) mais o que ele contribui para o fundo de pensão ou para o plano de previdência privada (entre 6% e 9% tipicamente).

O patrão além de bancar o FGTS ainda contribui com 20% para o INSS.

De forma alguma esta poupança, forçada ou não, é pequena. O problema é o que o Estado, que no fundo é apenas o fiel depositário do dinheiro do FGTS e do INSS, faz com este dinheiro. O pior que nem os fundos de pensão e os planos de previdência privada escapam, porque são obrigados a compor o seu portifólio com um percentual de... títulos públicos.

Telmo Duarte disse...

Caro Pedro,
Adquiri uns ADR's da Petrobrás ( Petróleo Brasileiro ) quase por obrigação ( vencimento de um produto estruturado do Banco Best ). Alguns analistas opinam que poderão valorizar até 60 dólares rondando neste momento os 28 dólares.
No último mês apresentou uma valorização de cerca de 10%.
Com todo o respeito que lhe presto, gostaria de saber a sua opinião.
Muito Obrigado

Económico-Financeiro disse...

Estimado Newton, o que as pessoas descontam para o FGTS e INSS não é poupança porque o Estado entrega esse dinheiro como renda a outras pessoas. Poupança obrigaria a haver aplicação em oisas duráveis como barragens, usinas, etc.

Estimado Telmo,
A teoria diz que a cotação actual de uma empresa traduz o seu valor não podendo ser antecipado se haverá aumento ou diminuição.
Por isso, dizerem que "custa 28$ e pode vir a valer 60$" traduz que é um activo de muito elevado risco. É como o casino aposta-se 1€ e podemos ganhar 100€ ou nada.
"Custa 28$ e pode vir a valer 60$ ou 5$"
pc

Matheus Boni Bittencourt disse...

Já disse um dos maiores pensadores latinoamericanos, Darcy Ribeiro: o Brasil sempre foi um negócio muito próspero. A economia brasileira superou a Inglaterra agora, mas no passado apenas a exportação de açúcar superava toda a economia inglesa.

Me incomoda um pouco dizer que "o brasileiro comum não poupa". Não poupa, em geral, porque não têm dinheiro para isso. Os salários dos trabalhadores são na média baixos e permitem apenas cobrir as necessidades básicas. O "salário social" em serviços públicos de educação, saúde, transporte e previdência, também é parco, o que obriga o trabalhador a gastar do próprio bolso o que deveria vir dos bens coletivos. Existe pouco interesse em poupar, também, porque não é vantajoso. Os bancos são espoliadores impiedosos. Quem consegue um dinheiro a mais prefere investir na compra de um apartamento, um terreno ou títulos da dívida pública. E enfim um presidente neoliberal (Fernando Collor de Melo) CONFISCOU a poupança de todos os brasileiros durante uma crise. Poupança é mau negócio.

Já os 1% mais ricos, que concentram 50% da renda e das terras em suas mãos, fazem poupança... Em paraísos fiscais, onde formam "poupança" e voltam como "investimento" especulativo. Coisa parecida formam as empresas multinacionais que em associação com o empresariado nacional (e com o Estado nacional em obscuras parcerias público-privadas) dominam o mercado brasileiro: remetem seus lucros para as matrizes (em dificuldades em tempos de crise), sem nenhuma regulamentação ou tributação sobre essa "sangria" monetária.

Fica claro aí que o problema é o caráter dependente e desigualitário do capitalismo brasileiro. Enquanto for assim, a sangria dos superlucros empresariais para as "poupanças" em paraísos fiscais e matrizes de empresas multinacionais continuará.

Rafael Pinto disse...

Matheus,

Poupar não é vantajoso no Brasil? Você está maluco? O Brasil é o melhor país para se poupar, porque aqui tributamos pouco a renda (apenas 15% para investimentos) e muito o consumo, o que privilegia os poupadores. Além disso, convivemos há muitos anos com as taxas de juros mais altas do mundo, isto é, por aqui ganhamos dinheiro SEM RISCO à taxa de 4% a.a. ou mais em termos reais.

Você está confundindo o 1% brasileiro com o americano, por aqui a situação é BEM diferente, e ninguém que consegue seu dinheiro honestamente manda seu dinheiro para paraísos fiscais, afinal por aqui cobramos apenas 15% de imposto sobre a renda auferida de investimentos e temos as maiores taxas de juros do mundo, isso é o paraíso para qualquer investidor, diferente dos americanos, que têm sua renda tributada em até 50% dependendo do local onde moram (e.g. NYC).

Nosso 1% está longe de ser composto por mega empresários, visto que para entrar na parcela 0,13% mais rica da população, de acordo com o IBGE, você precisa de apenas R$15.300 mensais (Aproximadamente 8.700 dólares), este número está LONGE de ser considerado alto.

Rafael Pinto disse...

PS: Utilizei a expressão sem risco em caráter conotativo, afinal todos nós sabemos que não existe esse tipo de coisa.

Anónimo disse...

O tamanho do Brasil real é este: 8 514 876,599 e não os 8460 milhões de km2 que voce só deve ter computado a plataforma única continental.

Miguel Fernandes disse...

Em relação ao gráfico da Fig.4 fiquei com alguma curiosidade em aprofundar um bocado os resultados.

Deixo assim duas questões/sugestões quanto à verificação e aprofundamento dos resultados obtidos:

1 - Realizar o mesmo ajuste retirando conjuntos de 1,2,3... dos paises com maior peso no resultado obtido. (se me enviar os dados utilizados teria todo o gosto em fazer diversos testes.)

2- Ficando demonstrada a correlação entre as duas variáveis, como o seu resultado pretende demonstrar. Como explicar a causalidade em que assentam as suas conclusões seguintes.

Obrigado

Magno Pereira disse...

Um visionário!

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