sexta-feira, 21 de outubro de 2011

Quem será o culpado da crise que Portugal vive?

O Fernando, alter ego do Ex - Sr. Ministro Teixeira do Santos, é uma pessoa extraordinária. Em 1991 foi meu professor de macroeconomia e começou a orientação da minha tese de mestrado. Foi, apenas, um dos dois melhor professores da minha vida. O outro é o Rui Teixeira, meu mestre de judo.
Não tivemos qualquer contacto durante os 16 anos em que o Fernando foi TS mas, diziam-me que, quando vinha à faculdade, se mantinha simpático e agradável para com os colegas e demais funcionários.

Será que o TS é o culpado da situação dramática que vivemos?
Não é justo imputar ao Fernando, um companheiro trabalhador, leal, agradável e amigo,  as consequências negativas do guterrismo- socratismo. Há uns dias cruzei com o Fernando e estivemos a falar sobre aulas e sobre este blog. Até lhe mandei um link.
A nossa conversa lembrou-me um colega meu, o Luisinho, que esteve longos anos numa "casa de correcção" porque, aos 12 anos, matou um vizinho à facada. Era bom rapaz e a gente só falava de coisas banais tendo o meu pensamento que analisar cada palavra que eu ia dizer para que não tivesse a ver com facas, facadas, prisões, mortes, nada que lembrasse o "acidente". 
O Luisinho nunca disse a ninguém o que se passou naquele dia mas parecia viver com um enorme peso sobre a cabeça.

Fig. 1 - A quem devemos apontar a culpa?

Apesar da amizade, eu e muita gente queríamos saber de quem é a culpa de termos caído na bancarrota. Às vezes penso que o TS é o culpado enquanto que outras vezes penso que foi uma vítima do socratismo.
Uma pessoa muito sábia defende que o TS foi vítima do Rasputim.

Quem é o Rasputim?
É uma pessoa que é absolutamente incompetente mas que, no entanto, hipnotiza as mentes fracas. Para meu espanto, em 2005 o TS chamou-o para o secretariar. Eu disse logo, se o TS acha o Rasputim competente então, está com a mente fraca. Está esgotado.

Eu pensava que o Fernando se ia votar ao silêncio.
Que ia sofrer em silêncio o remorso da derrota. Que iria acabar a sua vida perseguido pelos pesadelos do Titanic a afundar. Mas não. Para espanto meu, vi o anúncio que o Fernando ia falar sobre "A crise do Euro: consequências e desafios".
O que iria ele dizer?
Será que ia responder às minhas dúvidas?

As pessoas são muito crueis.
Aberta a sessão falou este, falou aquele, cumprimentos para aqui, cumprimentos para acolá até que começou a falar o Representante dos Estudantes.
"Cumprimentos para o Magnífico Reitor, para o blá blá, para o titi titi, para as minhas senhoras e meus senhores".
E o Fernando? Não tem direito a nada?
Fez-se um décimo de segundo de duração indeterminada onde se viveu um silêncio sepulcral seguido de uaaaa..a..a. Parecia aquele instante em que dependuraram o Saddam e ele abanou na ponta da corda.
É pá, que crueldade.

Recebi um e-mail do Presidente da Associação de Estudantes da FEP em 26 out 2011
Caro Professor,
Só não cumprimentei o Professor Teixeira dos Santos por esquecimento.
Foi-me dito que na mesa apenas iria estar eu, o Professor João Proença, o Reitor Marques dos Santos e o Professor Teixeira dos Santos.
Quando entrei no Salão Nobre, apercebi-me que havia mais elementos nessa mesa. Na confusão do momento, com a pressão toda, passou-me completamente!
No final da cerimónia, mal soube da minha grave falha, falei com o Professor Teixeira do Santos para lhe pedir desculpa. O Professor percebeu perfeitamente, não valorizou a questão, até porque nem se apercebeu da minha falha.
Espero que o Professor Pedro Cosme não fique com uma ideia errada sobre mim, foi mesmo um erro meu, não foi intencional.
Deixe-me também dar-lhe os parabéns pelo post.
Um abraço,
João Urbano

O que eu queria ouvir do TS.
 - Enganei-me.
 - Pensava que a expansão da despesa pública seria apenas durante um ano e que depois a economia recuperava mas falhei.
 - Durante a noite acordo com pesadelos e suores frios e penso "será que fiz o melhor que podia ter feito"?
 - Esforcei-me muito mas não fui capaz de estar à altura da crise. Estava convencido da minha razão e não ouvi ninguém pelo que este erro me vai perseguir pelo resto da minha vida.
 - Desculpem-me.

O que eu ouvi.
- A culpa é de todos.
E depois voltou com a tese da "crise internacional".
Vejamos a argumentação.

1. A crise do subprime - 2007
Os bancos avaliaram erradamente o risco do sector imobiliário. Quando vieram as perdas, os Estados tiveram que socorrer os Bancos incorporando nos seus balanços os "activos tóxicos" como os do BPN.

2. A expansão do défice público - 2008/09
Para a crise do subprime não afectar a economia, "todos" os Estados começaram uma política expansionista. Em princípios de 2008 a dívida pública na Zona Euro era de 66.3% do PIB e em fins de 2010 atingiu 85.3% do PIB (fonte: BCE).
Que essa política deu resultados (medido pela diminuição dos spreads relativamente às Obrigações Alemãs).

3. A crise da dívida soberana - 2010
Os "activos tóxicos" introduziram risco no balanço dos Estados pelo que começa a Crise da Dívida Soberana.

4. A crise da dívida soberana passa para os bancos - 2011
A obrigações dos Estados em Crise que fazem parte do balanço dos Bancos fazem degradar a sua situação.
Os Estados vêm-se impossibilitados de socorrer os Bancos porque não se conseguem financiar.

Este raciocínio está errado.
O caminho relatado é de diluição do risco e o TS quer fazer crer que é um caminho de ampliação.
Quando o Estado incorpora os activos tóxicos (5 mil milhões€ do BPN) no seu balanço, estes correspondiam a apenas 4% da sua dívida total (70% do PIB, 120 mil milhões€).
As perdas do BPN traduziram-se, até agora, em 3MM€, abaixo de 2% do PIB.
Sendo que a dívida era 120MM€ em 2007, somamos-lhe os 3MM€ do BPN e ficou nos 175MM€.

Nesta conta falta justificar 52 mil milhões de euros.
O problema são estes 52 e não os 5 de activos tóxicos do BPN que redundaram em perdas de 3.
Então de quem é a culpa destes 52MM€?

A diminução do spread foi muito ligeiro e temporário
E traduziu mais a ideia de que a Alemanha nos ia salvar do que iamos no bom caminho.
Durante o período de convergência dos spreads, a taxa de juro de Portugal desceu à custa do aumento da taxa de juro da Alemanha. Assim que ficou claro que os alemães não vão salvar ninguém, a taxa de juro alemã começou a descer e a nossa a subir explosivamente.

Fig. 2 - Desde 2007 que a taxa alemã (10 anos) não pára de descer (fonte: BCE)

Fig. 3 - Uma ampliação para se ver que a pequena melhoria nos levou à bancarrota (fonte: BCE)

"Todos" não inclue a Estónia nem a Irlanda
A Estónia estava em 2007 com um défice corrente superior ao português e grego.
A Estónia parte de 2007 <-> -16.4% e cortou à força toda para 2008 <-> -10.02%; 2009 <-> + 3.88%  e 2010 <-> +3.61%.
A Irlanda parte de 2007 <-> -5.34% tem problemas em 2008 <-> -5.80% e corta, 2009 <-> - 2.84%  e 2010 <-> +0.47%.
Portugal parte de 2007 <-> -10.15%, descomanda-se para 2008 <-> -12.64%, mantém a loucura de 2009 <-> - 10.93%  e, depois da algazarra dos PECs I, II e II, acaba em 2010 <-> -9.89% encostado à Grécia.

Fig. 4 - Evolução da Balança corrente em resposta à crise do Subprime (fonte: Banco Mundial)

A culpa foi da Europa.
 - Como ninguém foi condenado por défice excessivo, fizemos o que tinha que ser feito. Gastamos à força toda.
Onde é que eu já ouvi isto?
Ouvi-o da boca do Alberto João!

Fig. 5 - Com amigos como eu não precisas de inimigos.

Soluções apontadas pelo TS para resolver a crise.
São o que dizia o Sr. ministro:
1. Mais penalização para quem não respeitar o Pacto de Estabilidade.
Mas nós não somos um Estado Soberano com pessoas sérias no Governo que respeitam os acordos que assinam? Será preciso tratarem-nos como mentecaptos para tomarmos caminho?
2. O "fundo de garantia" dar-nos dinheiro.
Mas não compreendem que o fundo de garantia para nos dar dinheiro tem que o tirar às pessoas dos países que respeitaram o Pacto de Estabilidade?
Fiquei desiludido mas continuamos amigos.

Nota final: Mais uma razão para os salários terem que voltar aos níveis de 1995 é as taxas de juros  terem voltado ao patamar que nos era exigido antes de entrarmos no Euro: 12%/anos (ver Fig. 2).
Eu fiz o grande sacrifício de faltar à minha aula de judo para poder ouvir a comunicação do TS.

Pedro Cosme Costa Vieira

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