terça-feira, 1 de novembro de 2011

A crise está cada vez mais próxima

O risco e a incerteza
Os teóricos da "decisão sob desconhecimento" costumam dividir a falta de informação em Risco e Incerteza.

Risco traduz que conseguimos calcular a probabilidade de cada um dos acontecimentos possíveis se virem a concretizar. O caso mais simples é o calculo da probabilidade de ganharmos o Euromilhões. Em termos económicos, por exemplo, quando fazemos um seguro de vida, a seguradora consegue calcular a probabilidade de morrermos nos próximos 5 anos.
Incerteza existe quando, pelo contrário, não conseguimos calcular a probabilidade dos acontecimentos possíveis ou, em casos mais grave, sequer identificar quais são os cenários possíveis.
A crise que se aproxima de Portugal é extremamente grave porque não se consegue antecipar o que vai acontecer quando formos atingidos.
E a crise aproxima-se a passos largos.

Fig. 1 - O que poderá correr mal? Comer caril toda a vida? Aguenta-se.

Shit Happens
A minha irmã sempre gostou de trabalhar por conta dela. Essas pessoas têm uma enorme capacidade para gerir cenários de risco e incerteza. Há duas semanas disse-me:
   - Estes 4 últimos anos preparei-me para a crise que ai se anuncia e tenho um pé-de-meia que me permite viver sem rendimentos durante 2 anos.
E aí parou. Vi na mente dele o aproximar de pensamentos tenebrosos.
   - Isto se o banco XPTO não falir porque tenho lá o meu peculio. Nunca pensei ficar tão preocupada, o que achas?
Rematei eu.
   - Há coisas que dizemos que podem acontecer mas que, no fundo, temos a certeza que não vão acontecer. Uma é podermos, de um momento para o outro, ter um AVC e ficarmos incapacitados. 
    - Outra é os bancos portugueses falirem.
Eu tive uma aluna na FEUP que, aos 23 anos, teve um AVC e ficou totalmente incapacitada.
E os bancos vão falir e mais cedo do que pensamos.


Fig. 2 - É pá, o que me foi acontecer. Ontem, quando nos deitamos, eras uma gaja boa. Maldito absinto.

Nós nem sonhamos a intensidade que a crise vai ter
Quando em 2007 começou a "Crise do Subprime", os bancos começaram a perder valor. Títulos de bancos referência no panorama internacional que na primeira metade da década de 2000 tiveram lucros de 1€/ano e estavam cotados a 10€,  tinham desvalorizado para 5€ e os peritos, porque davam a crise por corrigida, avaliavam esses activo entre 3€ e 7€. Decorridos 4 anos, a cotação desses activos anda nos 0.10€ e só não faliram porque foram intervencionadas pelos governos.
Em Portugal recordemos o BCP que na primeira metade da década de 2000 estava cotado nos 6.00€ e que hoje está abaixo dos 0.14€ (esquecendo os aumentos de capitais, temos perdas de 97.7%). O Berardo, um investidor batido no negócio, comprou por 400milhões€ uma posição no BCP que hoje vale menos de 14milhões€ (esquecendo os aumentos de capitais, tem perdas de 96.5%).
Existe uma probabilidade de 15% de o PIB cair mais de 30% o que não se observa em Portugal desde a guerra civil de 1828-1934.

Será que os alemães são parvos?
Apesar de na semana passada ter ficado acordado uma troca da dívida grega por dívida do Fundo Europeu de Resgate, a Grécia nunca a vai pagar o que deve.
Disse-me um colega doutorado na àrea das finanças públicas, o P.M.,
   -Não compreendo porque os países pagam a sua dívida externa. Se não pagarem, não lhes acontece nada de negativo."
Se um doutorado em economia pensa assim, o que pensará o grego comum?
E o pensará o alemão comum?
    - Se não há razão para os gregos pagarem o que devem qual é a razão para nós pagarmos o que eles devem?
   -Sendo que os gregos não vão pagar e nada lhes vai acontecer, não lhes vamos emprestar mais nada. O que emprestamos já está perdido mas não vai nem mais um cêntimo.

Fig. 3 - Os alemães, se se mantiverem sob o efeito da cerveja, vão salvar Portugal.

A Grécia vai declara a Bancarrota antes do fim de 2011.
O referendo é a antecâmara para o caos.
As taxas de juro da dívida pública alemã estão a diminuir a uma velocidade assustadora (já está com taxas de juro reais negativas). Por outro lado, os países latinos estão com as taxas de juro a subir vertiginosamente.
A França está a pagar 3.2%/anos enquanto que a Alemanha está a pagar 1.7%/ano.
Isto traduz que a os alemães não são parvos e que a Zona Euro vai entrar em colapso a curto prazo.
O fim da Zona Euro está mais por dias que por meses.

Aqui vai a razão para haver países que pagam o que devem
Quando Nietzsche matou Deus, o Homem teve que ser reinventado.
Cada um de nós que cremos na certidão de óbito de Deus, temos todos os dias que responder a perguntas muito difícil:
   - Qual a razão para eu não matar todo aquele que se interpõe entre mim e o que eu quero?
   - Qual a razão para eu não pregar calotes a toda a gente?
   - Qual a razão para eu não apalpar as mulheres boas no autocarro?
Dizem os brasileiros que, alegadamente, o Duarte Lima não arranjou resposta para estas perguntas. Que ele, durante a viagem. apalpou a D. Rosalina até ficar com as mãos cansadas.

A razão está na não-razão.
Temos que usar o princípio filosófico da reciprocidade.
Se eu quero viver num mundo agradável, tenho que tratar bem tudo o que me rodeia. Isso não parece ter um efeito directo na minha felicidade mas, ao fazer a energia do universo fluir livremente, evita o aparecimento de ponto de tensão energética, buracos negros, que levariam à desarmonia do cosmos.
Mas isto é um argumento parvo.
Pois é mas a nossa felicidade é feita de coisas parvas.
   Um olhar para aqueles bons traseiros que, no bar da FEP, se encostam ao balcão a pedir meias-de-leite. 
   Ser apalpado por uma velhota por engano.
   Alguém gabar o nosso cozinhado.
   O chefe dizer que somos bons e que confia em nós.
Sabemos ser tudo falso e irracional mas é isto a semente da nossa felicidade.
Descobriu Platão que a felicidade não resulta da acção de possuir mas que antes resulta do processo mental que antecipa a felicidade que irá resultar do possuir.

Fig. 4 - Este pôr-do-sol à beira mar com as gaivotas sobre o mar alteroso é de uma beleza indescritível.

A crise vai ser terrível, de consequências inantecipáveis e o PPC já tomou consciência disso
Depois da Grécia anunciar a bancarrota muito dificilmente o nosso resgate se aguenta (os 78MM€) .
Isto, por estranho que pareça, vai depender muito das sondagens. Se não houver uma clara maioria do povo a dizer que quer cumprir, a coisa entra em colapso.
Quem vai continuar a emprestar a um povo que se diz caloteiro?
A Dr.a Merkel precisa destas sondagens para convencer os eleitores alemães a continuar com a ajuda.

Também é importante que o PS vote a favor do OE2012
Muitos no PS mantêm a alucinação de que a culpa foi da crise internacional e que está tudo bom para não dizer que está óptimo. Mas o Seguro sabe que isso não é verdade.
Era importante que o Seguro mandasse votar a favor pois não vamos conseguir cumprir o compromisso do défice para 2011 havendo um resvalar nas contas de pelo menos 2500M€. Toda a gente sabe isso mas esses malucos do guterrismo-socratismo continuam a negar a evidência.
E as medidas de contenção previstas no OE2012 só dão para metade do que é necessário e está baseado num cenário macroeconómico muito optimista (prevê uma contracção de 2.8% quando vai ser para ai 20%).
Por isso vai ser necessária muito boa vontade dos nossos parceiros para ultrapassar o bancarrota grega.
Isto será um sinal do comprometimento com o Memorando da Troika.

Fig. 5 - A única diferença entre mim e um louco é que eu não sou do PS

Pedro Cosme Costa Vieira

3 comentários:

Anónimo disse...

Tenho algumas dúvidas sobre o destaque e a interpretação que faz dos sinais que lhe vão aparecendo na bola de cristal...
Se me permite há aspectos omissos no seu texto também que lhe deviam merecer a atenção :
- a Europa não tem um Ministério das Finanças europeu;
- a Europa não tem um FBI para perseguir em qualquer Estado membro ladrões e vigaristas que não cumprirem com as determinações desse Ministério;
- a Europa tem uma estrutura burocrática muitíssimo mais pesada do que os EUA (tendo em conta a população e o modelo de economia).
Sem uma solução que contemple estes aspectos - para além das trocas comerciais com a China - concordo consigo: é duvidoso que não soçobre e depois colapse. Mas até ao fim do ano (2011) palpito que se aguenta sem epinefrina, embora se recomende a efedrina...
António

Económico-Financeiro disse...

Estimado António,
Diz o povo "vive cada dia como se fosse o último pois um dia vais acertar".
O colapso da Zona Euro também será assim: hoje está tudo bem e, bummmm, acabou.
Recorda-se do BPP? Estava tudo bem para não dizer óptimo e, bummmm, as caixas multibanco começaram a dizer "impossivel satisfazer o seu pedido porque o seu banco está sem saldo". E ainda ninguém viu um cêntimo.
pc

Pedro Renner disse...


Caro prof. Pedro Cosme,

Tem sido um enorme prazer, nestes últimos cinco anos, parasitar o seu “blog”… e vira o disco e toca o mesmo!

Estive aqui hoje a revisitar alguns de seus textos antigos, e fui dar ali na Guerra Civil Portuguesa de 1828-1834 – também conhecida como Guerra Liberal – de onde retirei os parágrafos que seguem.

O que é interessante de observar é, na evolução da sucessão de D. João VI (esse fulano está a ter uma excessiva influência na minha vida), “as Cortes aclamaram finalmente como legítimo sucessor D. Miguel, rei de Portugal, deixando clara perante todos a sua legitimidade como herdeiro do trono e ilegítimos todos os actos praticados por D. Pedro em relação a Portugal após a "declaração da independência" no Brasil, e com grande alegria para o Povo em geral.”

A base para esta decisão das Cortes foram as Leis Fundamentais do Reino, “à luz das quais D. Pedro e os seus descendentes tinham perdido o direito à Coroa a partir do momento em que, por um lado, aquele príncipe se tornara soberano de um estado estrangeiro (Brasil) e, por outro, levantara armas contra Portugal.”

Entretanto, vira e mexe e a malta resolveu sair numa cena de pancadaria para resolver o diferendo, findo o qual “a paz foi assinada na Convenção de Evoramonte e determinou o regresso da rainha D. Maria II à coroa e o exílio do então já ex-infante D. Miguel para a Alemanha”, sendo que agora “por ter libertado Portugal do reinado de seu irmão Miguel, Dom Pedro IV foi aclamado como herói.”

Ai! Estas Cortes!

Bom trabalho.


Pedro Renner

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