sábado, 5 de novembro de 2011

Hoje tenho que ir dar uma rapidinha ao Brasil

Um comentarista viu uns números positivos sobre a Balança Comercial do Brasil. Interessante que o nosso Sócrates também estava sempre a atirar com números bombásticos sobre as exportações e, no entanto, ia encaminhando Portugal  lentamente para a Bancarrota.
O comentário provou que não fui suficientemente claro pelo que tenho que trazer mais uns números sobre a economia do Brasil.
Não  podemos, olhando para um pormenor, tirar conclusões sobre a totalidade do ser.

Fig. 1 - Não há qualquer dúvida que se trata de uma criança de raça negra. E bem escura.

A Balança Corrente.
As contas de um país com o exterior são condensadas na Balança Corrente.
Não basta saber qual o saldo da Balança Comercial para dizer que um país está em equilíbrio com o exterior. É preciso somar-lhe mais umas "pequenas" parcelas.
A Balança de Serviços, as Transferências Unilaterais e os Rendimentos Expatriados.
A Balança de Serviços consiste, grosso modo, no Turismo. Pessoas que nos visitam e gastam dinheiro e países que nós visitamos e gastamos dinheiro.
As Transferências Unilaterais são doações de países ou pessoas (por exemplo, ajudas ao desenvolvimento) e as transferências dos emigrantes/imigrantes.
Os Rendimentos Expatriados são o que temos que pagar / receber pelo investimento e endividamento estrangeiro.

Fig. 2 - Evolução das Balanças de Bens e Serviços e Corrente Brasileira (1970-2010, BM)

Apesar de em 2001 a Balança de Bens e Serviços brasileira ter um melhoramento significativo em 2011, a Balança Corrente piora ligeiramente (mais transferências e rendimentos expatriados) mantendo-se negativa em 4000milhões USD por mês, 2.3% do PIB.

Fig. 3 - Evolução da Balança Corrente Brasileira (1980-2011)


Fig. 4 - Evolução da Balança Corrente Brasileira (2010-2015, previsão FMI)


Se repararmos a evolução da balança corrente que antecedeu as crises de bancarrota brasileira (1979 e 1999) vemos que o padrão se está a repetir.
O défice da Balança Corrente é que leva um país à bancarrota (e não a dívida pública).
O Japão tem uma dívida pública astronómica e é um país com risco nulo de bancarrota porque tem uma situação corrente muito positiva.

Correcção instantânia
Uma coisa é como o país tem as suas contas com o exterior. Outra coisa é o seu crescimento económico.
Pode haver países sem crescimento económico que têm as suas contas externas equilibradas.
Por exemplo, o Zimbabwe tem crescimento altamente negativo. No entanto, como ninguém do exterior empresta activos a um residentes do Zimbabwe, a Balança Corrente tem que estar equilibrada.
Se a UE cortar as transferências para a Grécia ou Portugal, nesse mesmo dia a Balança Corrente cai de -10% para 0%.
Foi o que aconteceu em 2001 com a Argentina. 

O Crescimento do PIB
O crescimento económico tem a ver com o aumento do stock de capital que tem a ver com a poupança.
Os países poupam e investem mas parte do capital que existe deprecia-se. É o aumento líquido de poupança (o investimento líquido) que traduz o aumento de capital
  
Fig. 5 - A poupança líquida brasileira é 7%/ano do PIB


Fig. 6 - O crescimento médio brasileiro está nos 3%/ano do PIB e a cair rapidamente


Fig. 7 - A poupança líquida chinesa é 37%/ano do PIB

Fig. 8 - O crescimento médio chinês está nos 10%/ano do PIB e estável

O risco de falência
Não sou eu que diz que o Brasil caminha para a bancarrota.
São os brasileiros que o dizem ao exigirem uma taxa de juro de 10.44%/ano (a 9 anos) para emprestar dinheiro ao Estado Brasileiro (fonte: http://www.bloomberg.com/).
A taxa de juro incorpora a taxa de inflação (que no Brasil é de 5%/ano) a taxa de juro sem risco (por exemplo, a taxa da Alemanha, 1.7%/ano para uma taxa de inflação de 2%/ano) mais o risco do país falir no decurso do prazo contratado.
Para estes valores, a probabilidade implícita nos contratos de dívida pública de o Brasil falir antes do fim de cada um dos anos futuros com hair-cut de 50% vem dada por:

201213,3%
201323,3%
201432,1%
201539,9%
201646,8%
201752,9%
201858,3%
201963,1%
202067,4%


O Brasil tem uma probabilidade de 2/3 de entrar novamente em Bancarrota antes da década.
O estimado comentarista deu-me trabalho mas penso que o convenci que esse pequeno número que indica não indica nada. Infelizmente.

Pedro Cosme Costa Vieira

3 comentários:

mgomes disse...

Li por alto o seu livro,que me deixou perplexo.Estamos então ceguinhos? E deixo questões básicas: não devíamos ter aderido ao euro? Se não,qual a alternativa?O povo escolhe sempre bem? Então porque escolheu Guterres e Sócrates? Porque é que as pessoas andam revoltadas? Creio que pensavam que iam mudar para melhor?,ou não?O que pensa que o Governo devia fazer nesta conjuntura? Sair do euro não acarreta grandes prejuízos,dado termos,não só de pagar a dívida,mas também de pagar as importações (75 % do que consumimos)? Acabar com as vias férreas todas? Mas as rodoviárias pagam gasóleo,que importamos e é combustível fóssil cada vez mais caro? Fico muito curioso.

Económico-Financeiro disse...

Estimado mgomes, agradeço a suas questões:

1.Sabe-se hoje que aderir ao Euro foi um erro Temos que corrigir esse erro saindo.
Podemos voltar ao Escudo ou juntarmo-nos à Espanha (que também vai sair).

2. A grande vantagem da democracia não é o povo escolher sempre bem. É, vendo que foi enganado, escolher outro sem haver uma guerra como na Líbia. Guterres foi um erro. O Durão tentou corrigir esse passo mas o PSD não o deixou. O Sócrates outro erro induzido pela demagogia do Santana Lopes.

3. epois do rigor do cavaquismo, o guterrismo-socratismo prometeu às pessoas que o nosso rendimento ia aumentar, para sempre, 2.5%/ano mas agora vê-se que foi uma burla. As pessoas estão revoltada porque se sentem enganadas.

4. Nós somos mais pobres do que pensamos. Não são as medida de austeridade que nos vão empobrecer. Apenas vamos tomar consciência disso.
Sair do euro e desvalorizar 25% é exactamente igual a mantermo-nos e descer os salários e pensões 25%
O que interessa é "o que podemos comprar com 1 hora de trabalho". Isto vai diminuir com ou sem o Euro.
No entanto, é mais fácil digerir uma diminuição dos salários e pensões fora do Euro.

5. Contrariamente ao que dizem,os comboios gastam mais combustível que os autocarros. Se consultar o sitio da CP vê que um comboio emite mais CO2 por passageiro que um autocarro. E esse combustivel é tão importado como o do autocarro.
Por outro lado, sai dinheiro de Portugal para pagar os juros, elevadíssimos, do dinheiro aplicado nas linhas de comboio que não servem para mais nada.
Uma estrada é muito mais barata e flexível.

7. Prova de que os comboios estão ultapassados é que, se o preço traduzisse o seu custo, ninguém andaria de comboio. Pelo contrário, o transporte rodoviário paga muitos impostos e taxas e, mesmo assim, a pessoas só não andam se não puderem.

Um abraço,
pc

mgomes disse...

Mas uma locomotiva arrasta muitas carruagens (gente).E preconiza o fim da linha do Norte,e o eixo Braga-Faro,ou apenas as não rentáveis? E aue fazer dos milhares de hectares das vias férreas abandonadas,o material circulante e alguns milhares de desempragados?

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code