sábado, 26 de novembro de 2011

O Cavaco está maluco: o BCE não pode salvar a Itália nem ninguém

Por cada 100€ em depósitos bancários apenas existem 6.50€ em notas e moedas.

A economia europeia, por ser sofisticada, precisa de dinheiro para funcionar. Esse dinheiro são o outside money (notas e moedas), e o inside money (cheques, transferências bancárias e cartões sobre contas bancárias).
Como a moeda circula rapidamente, a quantidade de notas em circulação é muito pequena.
Na Zona Euro existem em circulação apenas 882.1 MM€ em notas e moedas corresponde a 9.36% do PIB (fonte:  BCE, Set2011).
Cada ano o BCE emite mais 50MM€ em notas e moedas.
Como a dívida externa italiana é de uma dimensão muito maior, 1850 MM €, não existe possibilidade de o BCE resgatar a Itália.
O Cavaco precisa urgentemente de uma pessoa competente para fazer umas contas e o aconselhar porque está a entrar no discursos ché-ché do Soares, Otelo e do Emplastro ("o Pinto da Costa é o meu pai").

Fig. 1 - Esta Bella Ragazza propõe-se a oferecer o sut a quem ajudar a pagar a dívida italiana. Ai que vou ter que largar mais uns 500€ para ajudar. Se fosses minha vizinha, derretia o meu ordenado todo a ajudar-te.

Recordando os posts passados
A construção desta minha conclusão tem uma certa sequência que é necessário ver:
1. O governador do BCE veio-me consultar sobre como salvar a Itália - 1
2. O BCE não pode imprimir notas
3. A inflação é um fenómeno puramente monetário


Quando depositamos o nosso carro numa garagem ele fica lá.
Mas quando depositamos dinheiro num banco não.
Em Portugal existem 245 mil milhões de € em depósitos bancários (fonte: Banco de Portugal, Set2011) e existem apenas 16 mil milhões de € de notas e moedas (fonte: BCE, set 2011, cálculo proporcional à ZE).
Agora imagine que tem 50000€ depositados no banco. De facto só lá depositou 3250€ em notas e moedas pois não se trata de um depósito mas de um empréstimo ao banco que o empresta a outra pessoa.

Teoria Quantitativa da Moeda
A quantidade de dinheiro que as pessoas pretendem deter, M, é uma decisão racional que está dependente de várias variáveis.

M é crescente com o PIB nominal
Como o dinheiro é principalmente usado para facilitar as trocas, quanto maior o PIB maior será a quantidade de moeda que as pessoas querem deter.

M é decrescente com a taxa de juro
Se eu, em vez de ter moeda, transferir o valor para um crédito, recebo uma taxa de juro. Então, ter moeda na mão dá-me um prejuízo igual à taxa de juro que perco.
A taxa de juro é igual à taxa de inflação mais a taxa de juro real pago na economia no período em que detenho a moeda (o período futuro).

M é crescente com o risco da economia
A moeda é a unidade de valor pelo que é o referencial sem risco. Quando na economia existe muito risco (nas crises), as pessoas querem entesourar moeda. Aqui sobressai a sua função de reserva de valor.
Podemos então formalizar a quantidade de moeda que as pessoas querem ter na carteira

M = A.(Y.P) - B.(p + r) + C.(risco) +  parte desconhecida
   Y = PIB real
    P = Nível geral de preços
    Y.P = PIB nominal
    p = Inflação esperada = DP
    r  = taxa de juro real
    M = quantidade de Moeda
    A, B e C parâmetros positivos
Podemos calcular os diferenciais (é como as derivadas)
    DM = A.(DY.P+Y.DP) - B.(Dp + Dr) + C.(Drisco)
    DM = A.(DY.P+Y.p) - B.(Dp + Dr) + C.(Drisco)

Agora, como a quantidade oferecida é determinada pelo Banco Central, podemos inverter a igualdade e simplificamos em incrementos relativos para determinar a taxa de inflação.

  p = DM + Dp + Dr - DY.P - C.(Drisco)  

Se o BCE aumentar a quantidade de moeda em circulação, a inflação aumenta proporcionalmente
Se o Banco Central for credível no seu mandato de manter a inflação de longo prazo (Dp + Dr = 0), então os preços aumentam proporcionalmente à quantidade de moeda emitida.
  p = DM  - DY.P - C.(Drisco)  

Por exemplo, se o BCE aumentasse a quantidade de moeda emitida em 10%/ano acima do que costuma fazer, a inflação passaria a ser 12%/ano.

O problema das crises.
O BCE tem a obrigação de manter a inflação nos 2%/ano. Quando a economia está em águas calmas a obrigação do BCE é relativamente simples de cumprir.
Quando se aproxima uma crise sabe-se que, a prazo, o PIB nominal vai diminuir (DY.P < 0 ) pelo que será preciso o BC diminuir a quantidade de moeda em circulação.
No entanto, nas crises há um grande aumento do risco ( C.(Drisco) > 0 ) que mais que compensa a queda do PIB.
Nas crise, em termos globais, é necessário o BCE emitir mais moeda.

Como é difícil adivinhar com certeza o futuro, quanto mais grave a crise mais dificuldade tem o BCE em controlar a taxa de inflação no curto prazo. Podemos ver na Fig. 1 que a crise do Sub-prime descontrolou a taxa de inflação e o mesmo está a acontecer com a crise da dívida soberana. No entanto, apesar da dificuldade e da variabilidade de curto prazo, em média, no período 2007/2011 o BCE conseguiu manter a inflação nos 2%/ano.

Fig. 2 - Evolução da taxa de inflação na Zona Euro, 2000-2012 (fonte: BCE)

O governador, Trichet, é o mesmo pelo que as dificuldades de controle da inflação no período 2007-2011 resultam apenas da severidade das crises.

Agora já podemos olhar para a divida soberana italiana
A divida externa italiana líquida é de 1857 mil milhões€.
Em média terá necessidades de financiamento na ordem dos 250mil milhões€ por ano.
O BCE, para um inflação de 2%/ano, emite por ano cerca de 50 mil milhões€ por ano (um aumento de 5% da massa monetária).
O quantidade máxima de moeda que o BCE consegue emitir são 130 mil milhões€, menos de metade do valor necessário para resgatar a Itália.
Os 130MM€ não dão nem para metade da Itália. Agora somemos a Grécia (50MM€/ano), Portugal (40MM€/ano), a Espanha (200MM€/ano) e temos necessidades de 550MM€ por ano.
O BCE, no máximo, pode salvar 20% da dívida dos PIIGS.

Os 130MM€ implica a Zona Euro passar a ter uma taxa de inflação de 50%/ano.
Os dados empíricos indicam que, quando a inflação é de 2%/ano, a quantidade de moeda detida pela economia é 10% do PIB. Quando a taxa de inflação aumenta para 100%/ano, a quantidade de moeda diminui para 1% do PIB.

     M/(Y.P) = 10% - 0.023 ln(p/2%)

Então, maximizando neste modelo o poder de emissão do BC, temos 1.4% do PIB para uma taxa de inflação de 54%/ano.
No caso da Zona Euro, PIB = 9400MM€ (fonte: BCE), temos um máximo de 130 Mil Milhões€.
Ultrapassando este limite, a taxa de inflação explode para as centenas ou milhares por cento por ano.

Fig. 3. Ajudar esta italiana causa mais inflação que tomar três pastilhas de Viagra.

Alguém acredita num inflação de 54%/ano?
Alguém acredita que a Alemanha, França, Luxemburgo, Holanda, Bélgica, e todos aqueles do Norte ficavam 1 minuto na Zona Euro se a taxa de inflação passasse a ser 54%/ano?
Alguém acredita que Portugal aguentava uma taxa de inflação de 54%/ano em solidariedade à Itália?

Certo dia estava um senhor na borda de uma ponte
Parecia que estava a pensar em se suicidar.
Aí, apareceu um cavalheiro com a barba por fazer e a cheirar mal e disse:
- Meu senhor que estás a pensar fazer uma loucura não o faças porque eu sou a tua fada madrinha. Pede-me um desejo que te será concedido.
- Minha fada madrinha? mas tens tão mau aspecto e és um homem.
- Não conheces a história da maça envenenada pela Fada Bruxa que adormeceu a Branca de Neve? Pois foi o que me aconteceu. Sou uma fada muito bonita e jovem envenenada. Agora, para eu quebrar este feitiço baixa as calças e vira-te de costas.
E assim aconteceu. Passados uns minutos (dizem que bons para um e mau para o outro), disse o suicida.
- Então agora já posso pedir que realizes o meu desejo.
- Meu filho que idade tens?
- 40 anos.
- E ainda acreditas nas fadas madrinhas? Então manda-te abaixo.

A economia discutida no barbeiro
O meu interesse pela economia surgiu no barbeiro. Tanta teoria interessante que surgia da mente daquele homem. O homem tinha solução para quase todos os problemas do mundo.
Desconfiei logo que nada tinha fundamento porque o homem apenas se dizia incapaz de curar os carecas. Então ele não sabia da ciência dele e sabia da ciência do Cavaco?
comecei a estudar economia e conclui que, afinal, o homem sabia tanto como o Cavaco.
Não sabia nada de nada.
Certo só sabia o número do autocarro que o levava para casa.
Nem sabia quanto custava o corte. Marcava no espelho 600$ e umas vezes dizia "deixe lá 400 paus", outras 500 e até me chegou a levar "300 paus porque você está magrinho".


A técnica dos demagógicos é não falar em números.
Ainda no outro dia vi um anúncio "venha fazer exercícios com o Dr. HU que faz bem aos rins, bexiga, figado, pulmões, coração, intestinos, e vigor sexual".
"Esqueceu-se" de dizer quanto bem fazia. Será que fazia melhor que dar uma caminhada? Não.
O Cavaco, Louçã e outros demagógicos também usam essa técnica:
O BCE pode injectar dinheiro na economia logo pode resgatar toda a gente.
Não dizem é que o BCE apenas pode emitir 50MM€/ano com um máximo de 130MM€ e que os PIIGS precisam de 550MM€/ano.
E mesmo a Alemanha só tem um superavit da balança corrente de 120MM€/ano.

Fig. 4. O BCE vai resgatar Portugal. O Pinto da Costa é o meu pai.

A inflação e o IVA
Emitir moeda é equivalente a aumentar os impostos.
Com uma taxa de inflação de 2%/ano, a emissão de moeda corresponde a uma receita de 0.5% do PIB (850M€/ano). Aumentando a inflação para 50%/ano, a receita aumentaria para 1.4% do PIB (2400M€/ano).
O IVA tem uma receita de 13500M€/ano.
Então, em vez de aumentar a inflação para 50%/ano podia-se subir o IVA de 23% para 25.5%.
Tenho a certeza que era melhor aumentar o IVA.

Será melhor a bancarrota ou a inflação?
O estimado leitor, se for esquerdista, comuna, broquista, está a pensar que eu cometi um erro de raciocínio.
Se, por exemplo, a Itália deve 100€, paga 3.5€/ano de cupão (juros) e devolve os 100€ daqui a 10 anos, se a taxa de inflação subisse para 50%/ano, em termos de poder de compra, a divida desvalorizaria para 8.61€.
Em vez da actual dívida de 1857MM€ a Itália passaria a dever apenas 160MM€.
Aí já o BCE poderia resgatar a Itália.

MAS ISTO SERIA UMA FRAUDE.
O que aconteceria é que os credores ficavam sem receber o seu valor.
O povinho que poupou e emprestou dinheiro à Itália (e demais países da Zona Euro) ficava sem 91.39% do seu dinheiro.
Por isso é que a taxa de juro da Grécia está nos 30%/ano, de Portugal nos 12%/ano e da Itália a caminho desses valores.
Os credores antecipam que nós os PIIGS são burlistas.
Entramos na Zona Euro prometendo que nunca mais íamos permitir a inflação e, uma vez apanhadas as poupanças dos incautos, pumba, atacamo-los com inflação.

É melhor a bancarrota.
A bancarrota fará com que o nossa país não tenha mais credibilidade.
É melhor dizermos que não podemos pagar a nossa dívida e desvalorizamo-la.
Por exemplo, se multiplicarmos o prazo da dívida actual por 3 passando a dívida a 10 anos para dívida a 30 anos e pagarmos uma taxa de juro de 2.82%/ano (a taxa de juro alemã a 30 anos), corresponde a "perdoarem-nos" 2/3 da nossa dívida (a taxa de juro portuguesa a 30 anos é de 9.866%_/ano). Fonte: bloomberg.
A dívida a 100 dias passaria a ser 300 dias (à taxa de juro alemã para esse prazo).

Durante muitos e muitos anos o Estado não conseguirá financiamento. Mais nenhum velhinho vai entregar os seus euros aos certificados de aforro.

Ao pagarmos o valor nominal e a taxa de juro.
Em termos morais ficamos mais confortados.
Diremos "Nós não nos recusamos a pagar as nossas dívidas nem burlamos as expectativas quanto à inflação. Apenas não permitimos que os mercados especuladores sugassem o nosso sangue".

A inflação é muito pior.
A bancarrota fará com que o nosso país, durante muitos e muitos anos, não tenha credibilidade.
Mas a inflação tem não só este problema (o Estado não cumpriu a promessa de manter a inflação) como o sistema monetário perde a sua credibilidade.
A bancarrota destroi a credibilidade do Estado mas a inflação destroi isso e a credibilidade do Banco Central.
Nunca mais será possível fazer empréstimos de longo prazo (a taxa prefixada).

Outra maluqice do cavaco - o BCE comprar toda a dívida pública acima de 10%/ano
Outra maluquice do Cavaco é propor que o BCE anunciasse uma taxa de juro máxima para a dívida dos países, por exemplo, 10%/ano, e, caso essa taxa de juro fosse ultrapassada, o BCE comprava a divida toda.
Isto é uma maluquice. Vejamos porquê.
1. Portugal emite 1000M€ e o mercado exige 12%/ano pelo que o BCE compra a 10%/ano.
Passado um ano, Portugal tem que pagar 1100M€ ao BCE.
2. Portugal emite 2000M€ de dívida (paga os 1100MM€ e fica com dinheiro 900M€ fresco) que o BCE  compra a 10%/ano.
3. Portugal emite 3000M€ para pagar a dívida e ter mais dinheiro.
4. Daqui a 100 anos, o BCE ainda não recebeu nenhum e tem que comer pentiuns, resmas, aviões com milhares de  milhões de € de divida pública portuguesa. Seria um google de euros.
5. Para o BCE nos emprestar esse dinheiro, alguém tinha que o por lá: os burros dos alemães.
Nunca a gente iria pagar nada.

O Sócrates ainda lá estaria.

Se o BCE comprasse sempre a nossa dívida, ia ser uma delícia para o Sócrates. E o Oliveira Costa, mesmo de cadeira de rodas, ia ficar no então prospero BPN até morrer. Tinham que o embalsar como fizeram ao Lenine.
Nem o Duarte Lima precisaria de matar, alegadamente, a D. Rosalina pois não lhe faltaria dinheiro.
O Sócrates ia ficar PM até morrer e depois de bater a bota, vinha o neto do Guterres seguido do bisneto do Santana.
Só se os nossos parceiros da Zona Euro fossem burros como o Cavaco é que pensávamos em pagar fosse o que fosse.

Fig. 5. Voltei de Paris rejuvenescido para poder aguentar como PM mais 48 anos.

Finalmente uma curiosidade: no Mundo existe mais ouro que notas e moedas.
Existem no Mundo 168 mil toneladas de Ouro o que dá 24g pessoa. A 55€/g dá 1320€/pessoa.
A quantidade de moeda andará nos 900€/pessoa.
Interessante haver mais valor em ouro que em notas e moedas.

Pedro Cosme Costa Vieira

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