sábado, 12 de novembro de 2011

O Governador do BCE veio-me consultar sobre como salvar a Italia - 1

O que pensam os 4.ªclasse, o Loução e demais esquerdistas que se acham economistas.

Primeiro passo.
Quando uma pessoa poupa, fica com uma notas na mão que vai depositar num banco.
Quando um pessoas gasta mais do que tem, vai ao banco pedir dinheiro emprestado.
Então, pensam, dinheiro e crédito são a mesma coisa.

Segundo passo.
Os PIIGS têm um desequilíbrio nas contas externas (balança corrente). Então, tem que continuamente entrar dinheiro fresco no país (pedido emprestado). No caso português têm que entrar 300 milhões € por semana.
As "importações" são menores que as "exportações" em 300 milhões € por semana.
Como há dificuldade em arranjar esse dinheiro, lentamente começa a haver falta de notas.
Como o dinheiro se denomina por "liquidez" então, a liquidez está a diminuir.

Terceiro passo.
A economia dos PIIGS, por terem o exterior como principal fonte de financiamento, estão com muita dificuldade em arranjar crédito.
Os bancos estão impossibilitados de conceder novos créditos porque os financiadores do exterior fecharam a torneira.

Conclusão.
Como pensam que crédito e liquidez é a mesma coisa e o Banco Central Europeu pode aumentar a liquidez pela emissão de novas notas sem limite então, concluem que o BCE quem pode resolver o problema da falta de crédito das economias em dificuldades da Zona Euro imprimindo notas sem limite.

Fig. 1 - Diploma de Licenciatura do Loução

Parece ter lógica mas não tem.
O problema das coisas que têm lógica é que, estando erradas, são difíceis de desmontar.
O dinheiro não tem nada a ver com o crédito mas até professores catedrático de economia fazem esta confusão.
As pessoas tem as notas tão entranhadas no seu pensamento que vai ser muito difícil eu explicar que o crédito não tem nada a ver com a liquidez.

1. Imaginemos Santo Aleixo dos Mendigos antes de ter moeda.
O António não tem filhos e produz 500kg de milho por dia.
O João tem 4 filhos e também produz 500kg de milho.
O António, sabendo que quando for velhinho só vai produzir 50kg/d, quer poupar 30% do seu rendimento actual. Mas não pode constituir um stock porque o milho apodrece.
O João, quando for velhinho, vai viver bem porque os filhos vão trabalhar mas, actualmente, em casa do João passa-se fome.
Então, O António fez um contrato com o João e os seus filhos neste sentido:
O António empresta 150kg/d de milho aos João e, quando for velhinho, os filhos do João devolvem-lhe o milho que ele lhes emprestou.
Neste mercado de crédito não é necessário haver moeda.


Fig.2 - Meninas, vamos tentar fazer 6 filhinhos para termos quem tome conta de nós na velhice.


2. Agora imaginemos que o João também não tem filhos
Então, no futuro a produção do João vai ser 50kg/d.
Se o António emprestar o milho ao João, no futuro o João não tem milho para lhe pagar o crédito.
Por mais que o João queira, não tem milho para pagar a dívida ao António. É a sua bancarrota.
O João diz que tem uns filhos em França que o vão ajudar na velhice mas o António, desconfiando disso, exige-lhe uma taxa de juro muito elevada para compensar o risco de não receber nada.
O António prefere comer tudo e ficar gordo (e trabalhar menos) sabendo que vai passar fome na velhice.
O mercado de crédito fica pequeno e com elevado risco (especulativo).
Será que a existência de moeda resolvia o colapso do mercado de crédito?

3. A moeda, a concha, chegou à aldeia e o João tem filhos
Cada dia, o João pede 150$ ao Banqueiro para comprar milho ao António.
O António vende o milho a 1$/kg ao João e fica com 150$.
Nesse mesmo dia, o António deposita os 150$ no Banqueiro.
Quando o António for velhinho vai levantar o dinheiro ao Banqueiro que o pede aos filhos do João que têm que vender milho ao António para poderem pagar o empréstimo.
É exactamente o mesmo resultado que quando não havia moeda.

4. A moeda chegou à aldeia e o João não tem filhos
Por mais notasas que o Banqueiro emita e dê ao Banqueiro, isso não vai fazer com que apareça milho.
Quando o António for velhinho vai levantar o dinheiro ao Banqueiro que o pede ao João que também está velhinho e não tem como pagar a sua dívida. É a bancarrota do João que leva o Banqueiro à bancarrota, o António fica sem o dinheiro e não pode comprar milho.
O António, sabendo que o Banqueiro empresta o dinheiro ao João sem garantias, antecipa que vai falir pelo que não deposita lá o seu dinheiro. Então o João não tem dinheiro para comprar o milho e o António não tem a quem o vender.
Não há crédito ou então a taxa de juro exigida pelo António é muito alta.
É exactamente o mesmo resultado que quando não havia moeda.

5. O Baqueiro emite mais notas

Agora vamos introduzir a estratégia que os esquerdistas precunizam: o Banqueiro emite notas à fartazana.
Quando o João (um PIIGS) não paga a sua dívida, o Banco Central imprime dinheiro e resgata o João.
O João, agora, pega nesse dinheiro e paga o que deve ao Banqueiro que já não vai à bancarrota.
O Banqueiro paga ao António.
Mas para que quer o António O dinheiro? Não há milho no mercado.
O preço do milho vai disparar porque a sua quantidade é fixa e a quantidade de dinheiro está a aumentar.
É a inflação galopante.
É a hiper-inflação
O António antecipando que, no futuro, o Banco Central vai emitir moeda e descontrolar a inflação, vai exigir uma taxa de juro muito alta.
É exactamente igual a quando o Banco Central não podia aumentar a quantidade de notas.
É exactamente igual a quando não havia moeda.

A moeda não resolve nenhum problema do mercado de crédito.
A moeda apenas facilita as trocas.
Como numa economia existem milhõess de bens e serviços diferentes, a contabilização dos créditos em termos de bens e serviços torna-se impossível.
A existência de moeda permite agregar a totalidade dos créditos (100kg de milho, 10kg de feijão, 3 pencas, duas massagens, um café, etc.) num número, 150€.
Daqui a 30 anos pode até já não haver café, mas o João recebe os 150€ e pode desagrega-los na compra de variadíssimas quantidades de dos bens e serviços que existirem na altura.
O que faz o BCE.
Controla a liquidez (a quantidade de moeda em circulação) de forma a que a taxa de inflação seja tendencialmente 2%/ano. A taxa de inflação é um problema cultural. O Japão quer a inflação em 1%/ano, os USA, a ZE e a China querem 2%/ano, o Brasil quer 5%/ano e a Venezuela quer 25%/ano.
A China, entre 1997 e 2003, teve um objectivo de inflação zero que trocou pelo objectivo de 2%/ano.
Naturalmente que, por diferenças culturais quanto à inflação óptima, a Venezuela e o Brasil não podem ter a mesma moeda.
Os PIIGS e os alemães têm diferente visão quanto à inflação. Logo, não cabem na mesma zona monetária.

O que faz o mercado de crédito.
Globalmente, Portugal gasta mais recursos (milho) do que produz. Então tem que pedir ao exterior recursos (milho) emprestados prometendo devolvê-los no futuro. No entanto, como os estrangeiros antecipam que no futuro a quantidade de recursos produzidos em Portugal será pequena, antecipam um risco elevado de não podermos pagar o que estamos a pedir emprestado pelo que não nos empreste recursos (milho).
Se o BCE emitir dinheiro (sem a correspondente poupança de alguém) e o enviar para Portugal, nós comprarmos recursos aos estrangeiros que nunca iremos devolver.
Pedir que o BCE injecte liquidez em Portugal é o mesmo que pedir que os estrangeiros nos dêem os recursos pois nunca mais vamos poder devolver a liquidez ao BCE.

O Cavaco tem dito que queremos sair do Euro
Actualmente as cedências de liquidez (empréstimos) que o BCE tem feito aos PIIGS são feitas à custa de dinheiro dos países do norte (o BCE compra divida pública dos PIIGS e vende divida pública alemã).
Mas os países do Norte não querem arcar com esse prejuízo.
Os PIIGS, onde se inclui o nosso Cavaco, estão a pressionar o BCE para subir a taxa de inflação.
Vê-se no mercado de crédito de longo prazo que, de certeza absoluta, a taxa de inflação na Alemanha vai ser menor que 2%/ano. Então, o que o Cavaco está a dizer é que Portugal não se vai manter na mesma zona monetária que a Alemanha.

Fig. 3 - Evolução da taxa de juro da dívida pública alemã a 30 anos, 2011 (fonte:bloomberg)

A evolução da taxa de juro alemã (sem risco de bancarrota) indica que, se a Zona Euro se mantivesse com a geometria actual, a  inflação de longo prazo estabilizaria nos 3%/ano.
Agora aceita-se que a nova "Zona Euro" com a Alemanha como núcleo terá a sua inflação estável nos 2%/ano.


Como há pessoas sábias na Alemanha, nunca o BCE se írá transformar no BCZ - Banco Central do Zimbabwe.
Os esquerdistas dizem que "não existem agora europeistas como havia" nem existe "solidariedade europeia".
Não há é lorpas.

Um dia
Uma jovem entrou num autocarro naquelas tardes que os velhotes aproveitam para rever a cidade porque o autocarro é de borla e a bengala já não permite ir longe. Está lutado com a brigada do reumático.
A jovem entrando diz:
-A minha avó diz que os homens do tempo dela eram cavalheiros mas eu vejo que aqui não há nenhum cavalheiro.
-Óoh minha boa meniiina, cavaalheeiros háá. Naaão haá é lugares.

Fig. 4 - Só se a menina se sentar no meu colinho. Já estou tão cansadinho que já só lá vou com a ajuda dos buracos da estrada.
Pedro Cosme Costa Vieira

7 comentários:

mgomes disse...

Sigo sempre,estarrecido,os seus comentários.Entre o crente e o duvidoso.Mas gostaria que indicasse um caminho para sair deste imbróglio.Se estivesse no lugar do Vítor Gaspar,o que faria? Não digo essa de sair do euro,porque não chegou o momento,mas agora mesmo.E as greves,como as trataria?

Anónimo disse...

Como se desvaloriza/ valoriza uma moeda? Através de emissão de moeda?

Económico-Financeiro disse...

Existem duas funcões independentes no BC: o control da inflação e a taxa de câmbio.
O aumento da inflação faz-se aumentando a quantidade de moeda em circulação e vice-versa.
A desvalorização faz-se em função das reservas em divisas (moeda estrangeira) do BC. Se as reservas diminuem, desvaloriza-se, se aumentam, valoriza-se.
A prazo, se o BC emitir muita moeda, as pessoas cambiarão muito dinheiro pelo que o cambista terá que desvalorizar para não ficar sem reservas. Mas não é uma ligação imediata.
PAra compreender melhor, o estimado Anónimo tem que rever como funciona o cambista de Santo Aleixo dos Mendigos.
Um abraço,
pc

Económico-Financeiro disse...

Estimado mgomes,
As empresas públicas justificam na lei a sua existencia (dando prejuizo) porque fornecem a população com serviços imprescindíveis que a iniciativa privada não consegue fazer com qualidade e segurança.
Já imaginou se fizessem uma greve de fornecimento de electricidade ou de água? Não pode ser.
Toda a parte da emrpesa que não fornece serviços imprescindiveis tem que passar para o privado.
Então, nas empresas públicas fica o imprescindivel pelo que não pode haver direito à greve.
Esse direito constitucional colide com o direito constitucional dos outros cidadãos de teremos acesso aos bens imprescindíveis.
É como ser soldado: não pode fazer greve a meio da batalha.
Quem para lá vai, já sabe disso.

O que os funcionários da CP estão a fazer é terrorismo social.

Quanto ao VG tem que permitir que os salários privados diminuam. Custa mas a alternativa é termos uma explosão na taxa de desemprego.

pc

Anónimo disse...

Então a taxa de câmbio é determinada por decreto? se as reservas aumentam uns senhores mandam o euro valorizar e se as reservas diminuem mandam desvalorizar.

Económico-Financeiro disse...

É um valor de mercado (como a taxa de juro).
O Cambista, vendo que as suas reservas de divisas estão a diminuir, decide desvalorizar.
pc

McMan disse...

"Quanto ao VG tem que permitir que os salários privados diminuam. Custa mas a alternativa é termos uma explosão na taxa de desemprego."

Não percebi esta passagem... será que poderia explicar melhor o porquê da Troika sugerir que se devam baixar os salários privados? É que não compreendo sob o ponto de vista económico qual a vantagem de diminuir os salários. Diminuindo os salários, os empregados vão ter menos para gastar, logo outras empresas vão vender menos. Se vendem menos, não necessitam produzir, logo vão despedir ainda mais. A diminuição do salário vai contribuir para que a economia regrida... a não ser que tendo pouco para gastar, as pessoas sejam forçadas a poupar mais, mas não me parece, porque não há nada para poupar... Uma abraço e parabéns pelo blog!

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