terça-feira, 22 de novembro de 2011

O paradoxo alemão: olhem mais para o que dizemos e menos para o que fazemos

Será que a Alemanha se pode gabar assim tanto em termos de disciplina das contas públicas e nacionais (equilíbrio da economia)? Será que está a dar lições sem licenciatura (licença para ensinar) credível para tal tarefa docente relativamente aos seus pares europeus? Sabia que se dividirmos a dívida externa bruta por habitante, relativizando assim os valores para cada país, a Alemanha está pior do que Portugal? Sabia que há três défices das administrações públicas melhores do que o alemão e três outros que não andam longe?

Nós não fazemos assim tão bem os deveres de casa, mas vocês
têm a obrigação de fazer tão bem quanto nós, diz Merkel à Europa

O prestigiado Der Spiegel lembrou, ontem, que nada é assim tão espectacular em terras germânicas:


Nos primeiros prognósticos, a Comissão Europeia conta com uma taxa de endividamento de 81,7% do Produto Interno Bruto (PIB) para a Alemanha, em 2011. É claramente mais que o limite de 60% prescrito no Pacto de Estabilidade Europeia – o mesmo que o governo federal repete consecutivamente aos países do sul da Europa e que tanto gostaria de reforçar. Quem quer prescrever um endurecimento das regras melhor faria que as cumprisse primeiro.
Jean-Claude Juncker, chefe do Governo luxemburguês, tem direito a sentir-se indignado com o paternalismo alemão. Apesar da crise que atravessa, a Espanha, por exemplo, está muito mais próxima de cumprir o pacto de estabilidade, com uma taxa de endividamento de 69,6%, que a Alemanha. Até mesmo os holandeses (64,2%), ou os finlandeses (49,1%) estão mais bem colocados que os alemães para se arvorarem guardiões europeus da disciplina orçamental.

Esta atitude de professor arrogante tem um impacto na imagem do país, tal como sublinha o Der Spiegel:
Ao fazer o elogio arrogante da disciplina do estado alemão, o atual Governo faz imensos estragos na Europa. Na Grécia, em Espanha ou na Itália, onde eram estimados pelas suas virtudes – pelo menos, antigamente – os alemães são agora considerados os pais arrogantes do rigor, que pretendem ensinar às pessoas do resto do continente como devem viver e trabalhar. E isto não pode funcionar indefinidamente.

Factos e números falam mais do que palavras. Comparemos a dívida externa alemã com a portuguesa nos próximos dois gráficos elaborados pela BBC News (atente-se na dívida externa per capita que é maior na Alemanha):
ALEMANHA

PORTUGAL


Já repararam a quem a Alemanha deve mais? EUA, França e Itália, Reino Unido e Espanha. Não será por isso de estranhar que Merkel ouça Obama e que se reúna com pompa e circunstância com David Cameron, o primeiro-ministro que foi mandado calar por Sarkozy numa cimeira recente. Não é de espantar que Merkel pareça ultimamente mais decidida quando os mercados da dívida se começaram a voltar para Itália e para Espanha. O novo primeiro-ministro espanhol já telefonou a Merkel e tudo estará sob controlo...


Quanto ao défice das contas públicas, o Pacto de Estabilidade tem o limite de 3% do PIB. E como está a Alemanha em comparação com os seus parceiros? Em primeiro lugar, está a furar o Pacto de Estabilidade e, em segundo lugar, não é exactamente o campeão incontestado.
Alemanha tem défice de 3,3% em 2010 (segundo da esquerda para a direita)
Fonte: Eurostat
Quando a visão alemã do Mundo se baseia no seu umbigo, falha por vezes na autocrítica. Portugal recebeu recentemente uma visita da troika e um senhor alemão chamado Jurgen Kroger veio aconselhar os portugueses a baixarem os salários no privado. O campeonato da economia de valor acrescentado e da  inovação não é para todos e não interessa que esse clube onde a Alemanha está se alargue demasiado. Seria como admitir todos os clubes da II Divisão de futebol na I Liga. Muito engraçado e democrático, mas se a disponibilidade financeira dos clientes (empresas a publicitar, compra de direitos televisivos e espectadores) é finita então todos perderiam, uns mais do que outros, é verdade. No campeonato das exportações, a lógica é igual. Portanto, a receita de Kroger é colocar Portugal a competir com os asiáticos.

Jurgen Kroger acha que os portugueses devem
é competir com os chineses e deixar a Alemanha em paz

Os patrões até poupariam algum dinheiro (3,2 mil milhões de euros se cortassem subsídio de Natal e de férias), mas a quebra na receita fiscal poderia ser brutal. Qualificar recursos humanos implica salários mais altos. Veja-se o que Peter Cohan, guru norte-americano da inovação, veio dizer a Portugal (ler entrevista). É óbvio, caso contrário teremos fuga de quadros qualificados, como aliás já está a acontecer e nem houve propriamente cortes tábua rasa nos salários dos privados. Houve simplesmente congelamento e menor oferta de postos de trabalho, em parte devido à rigidez da nossa legislação laboral que intimida os patrões a arriscar no investimento em capital humano.

Pedro Palha Araújo

1 comentários:

Francisco Nunes Pereira disse...

E como explicar esta?

http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO024431.html

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