domingo, 27 de novembro de 2011

Porque é que os salários equilibram a economia

O salário e o equilíbrio da economia.

O McMan pediu para eu explicar porque a descida dos salários (dos privados) é fundamental para o equilíbrio da nossa economia.
A nossa economia tem 4 grandes desequilíbrios.
A) O Défice Público - Estado tem um despesa muito maior (+20%) que a receita;
B) O Desemprego - No mercado de trabalho o número de pessoas que querem trabalhar é muito maior (+700mil) que o número de empregos que existem (ao ordenado vigente);
C) O Défice Corrente - O que importamos do exterior é muito maior (+40%) que aquilo que exportamos (mais outras verbas);
D) A Falência do Sistema Bancário - A taxa de juro a que os bancos se conseguem financiar é muito maior (+ 5 pontos percentuais) que a taxa de juro que os bancos recebe dos seus devedores (contratos indexados à EURIBOR).

O Passos Coelho está a tentar meter o Défice Público na trajectória acordada com a Troika.
Mas há os outros desequilíbrios que estão a destruir a nossa economia e que apenas a descida dos salários conseguem equilibrar de forma eficiente (o B, C e D).

Já expliquei porque os salários equilibram o mercado de trabalho.
Quando existe desemprego, o "pedido à fada madrinha" deveria ser que houvesse crescimento económico. Como eu não acredito em fadas madrinhas, a única solução é reduzir o salário.
  1 - O Stiglitz é Prémio Nobel mas está errado
  2 - O Stiglitz é Prémio Nobel mas está errado - 2
  3 - Os salários e o equilíbrios da economia

Havendo uma redução no salário, as empresas passam a querer contratar mais trabalhadores e menos pessoas querem trabalhar.
Com uma redução de 25% nos salários, prevejo que, dos 700 mil desempregados, 500 mil seriam absorvidos pelas empresas e 200 mil deixariam de querer procurar trabalho.

Mas a diminuição dos salários tem um efeito negativo nas contas públicas.
Tem como efeito directo uma redução nas contribuições da Segurança Social, SS, e do IRS.
Por exemplo, uma redução de 14.3% dos salários (os 2 subsídios) levará a uma redução de 14.3% nas contribuições para a SS (próximo dos 2 mil milhões€) e uma redução de 20% no IRS (próximo dos 3 mil milhões €). A quebra de receitas totais estará próximos dos 5 mil milhões €.
Estamos a falar numa redução na receita do "Orçamento do Estado" na ordem dos 3% do PIB.
Este número assusta o Passos Coelho.

Fig. 1 - Ai meu Deus, quando ele vir que as minhas mamas são apenas 3% do que parecia mata-se.

Mas resolvia-se facilmente
Dividia-se a descida do salário pago ao trabalhador de forma a manter a receita fiscal.
Um subsídio reduzia o salário pago pela entidade patronal e o outro subsídio ia para a SS e o IRS.
E aumentava-se o horário de trabalho para as 45h/s.
Um aluno meu que trabalha defende que o horário de trabalho deveria aumentar para 50h/s.

Mas temos que ver o efeito dos salários nos outros desequilíbrios da Economia.
Os desequilíbrios da economia portuguesa não são só as contas públicas.
O trabalho é responsável por 65% da riqueza criada nos países da OCDE. Então, para o PIB aumentar é preciso que mais pessoas trabalhem (e durante mais horas).
Uma redução do salário leva a que mais pessoas arranjem trabalho.

Fig. 2 - A beleza resulta do equilíbrio nas proporções


Uma redução dos salários levará a um aumento do PIB.
Parece estranho porque as pessoas raciocinam à moda, errada, keynesiana.
Caem no erro de ver o PIB do lado da despesa quando tem que ser visto do lado da produção.
Seria óptimo aumentar a produção pelo lado do investimento e da inovação mas não temos capacidade de aumentar o investimento porque não temos poupança interna (está em 10% que é abaixo da taxa de depreciação do capital, 15%) nem temos quem nos empreste dinheiro.
A quantidade de capital em Portugal "se está reduzindo rápido mesmo".
Para produzir mais é preciso que mais pessoas trabalhem e durante mais horas.

Uma redução dos salários levará a uma aumento do consumo.
Como importamos mais do que exportamos (consumimos mais do que produzimos), o consumo tem que diminuir relativamente ao nível actual.
Não há volta a dar a isto.
Mas essa redução será menor se os salários reduzirem

A) a diminuição dos salários aumenta o rendimento das famílias.
Nas famílias temos as pessoas empregadas (que recebem salário) e as desempregadas (que não recebem nada). Se os salários se mantiverem no nível actual quem está desempregado não conseguirá arranjar emprego e muitas das pessoas actualmente empregadas vão perder o emprego (+1000 por semana).
A evidência empírica diz que, enquanto a taxa de desemprego estiver elevada (acima dos 10%), uma redução do salário leva a um aumento do rendimento das famílias.
Isto acontece porque existe um aumento mais que proporcional no número das pessoas empregadas.
Claro que reduz o rendimento de quem está empregado (e que conseguiria manter o emprego) mas aumenta o rendimento das pessoas desempregadas (e que arranjam emprego) e das que não conseguiriam manter o emprego.

Fig. 3 - Descendo a bandeirada para metade triplico n.º de clientes pelo que o meu rendimento aumenta 50%.

B) Uma redução dos salários levará ao aumento das exportações.
Actualmente Portugal importa 5MM€ por mês e exporta 3.5MM€ por mês.
A diminuição dos custos do trabalho faz aumentar as exportações (em quantidade) pela redução do preço.
A evidência empírica diz que, para balanças corrente desequilibradas, o aumento da quantidade exportada é bastante maior que a diminuição dos preços (a elasticidade da procura é maior que 1) pelo que uma desvalorização dos salários em 14.3% ( os 2 subsídios) leva a (minha estimativa) 
     Diminuição dos preços em 9.3% (65% do custo total) que leva a um
     Aumento da quantidade exportada em 27.9% pelo que (elasticidade quantidade exportada / preço de 3) 
     Aumento do valor das exportações em 17%

C) Uma redução dos salários permitirá aumentar as importações.
Se mantivermos os salários actuais, as importações terão que se reduzir em 30% (de 5MM€ para 3.5MM€).
Se os salários diminuírem 14.3%, as importações "apenas" têm que diminuir 18% (para 4.1MM€).
Relativamente à situação em que os salários se mantêm, haverá um aumento das importações (+0.6 MM€).
Como nas importações existem bens essenciais (como petróleo e alimentos), este efeito é muito positivo para o bem estar dos portugueses.


Juntando o aumento do rendimento das famílias com o aumento relativo do nível das importações.
Uma redução dos salários levará a um aumento do bem-estar, em média, das famílias.
E ainda há o problema do subsídio de desemprego apra o qual não há dinheiro.

O grave problema das análises que se focam no impacto negativo da descida dos salários
     A. Pensar que o consumo e a receita fiscal se podem manter no nível de 2010.
     B. Pensar que Portugal apenas tem desequilíbrios nas contas públicas.
     C. Olhar apenas para aos problemas de curto prazo.

Mas existem outras variáveis que ajustam automaticamente os desequilíbrios da economia
Existe a taxa de juro.
A elevada taxa de juro a que estamos sujeitos também é uma "tentativa" por parte do mercado ajustar a Balança Corrente.
No entanto, esta variável é terrível pois vai levar à falência total do sistema bancário e da economia do país.
Se pensar que a seu crédito à habitação vai aumentar para 12%/ano, para um crédito de 100mil€ a 25 anos terá que pagar 1010€/mês.
A redução dos salários, equlibrando a balança corrente, leva à redução das taxas de juro.
A Irlanda estava a pagar 14%/ano e, assim que conseguiu equilibrar a Balança Corrente, a taxa de juro desceu imediatamente para 8%/ano.

Existe a emigração.
Já escrevi num post que a emigração não é um variável boa porque, a cada ano, 7% dos emigrantes perdem a ligação ao país. Se hoje emigrarem 100 portugueses, daqui a 13 anos só 13 deles mantém ligações a Portugal.
Emigrar é deitar os portugueses borda-fora.

Existe a falência dos bancos.
Os bancos falindo, os depositantes ficam sem o seu dinheiro. Claro que o Governo e o Cavaco dizem que o nosso sistema financeiro é sólido mas, sólido é o granito e também parte.
Os depósitos vão à vida e automaticamente o mercado de crédito equilibra (entra em colapso).

A probabilidade de perdermos metade dos nossos depósitos nos próximos 2 anos é de 50%.
O Geverno e o Cavaco também dizem que não há nenhuma razão para a taxa de juro da dívida pública estar (a 2 anos) nos 20%/ano e está.
Esta taxa de juro traduz que atiramos uma moeda ao ar e, se sair cara, fica tudo bem.
Se sair coroa só recebemos metade do dinheiro que temos depositado (como foi o acordado com a Grécia e ainda querem pagar menos).
O estimado leitor pode pensar que "a dívida pública não tem nada a ver com os nossos depósitos".
Pois não mas quando a República Portuguesa declarar bancarrota os bancos têm tanta dívida pública e de empresas públicas que declaram imediatamente a falência.
E quem vai garantir o Fundo de Garantia dos Depósitos? O Louçã? É que o FGD não tem dinheiro e a República não tem a quem o pedir emprestado.

Tratamento mais aprofundado.
Para quem estiver interessado em dar uma vista de olhos ao tratamento teórico da questão do salário como instrumento de equilíbrio da economia, escrevi este texto que aconselho que leiam:
Vieira, P.C.C. (2010), "O problema do crescente endividamento de Portugal à luz da New Macroeconomics", FEP-WP, 363.


Finalmente: McMan espero ter sido convinvente porque utilizei 4 horas do meu Domingo a escrever este post.

Pedro Cosme Costa Vieira

8 comentários:

Anónimo disse...

pensar que as nossas exportações vão aumentar se reduzirmos os salários não é realmente verdade. Como é que iremos ser competitivos por este caminho enquanto temos a China e os outros países asiáticos que pagam a arroz? Reduzir as importações, isso vai reduzir logo, calamidades sociais, claramente, manifestações e motins, sem dúvida, mas crescimento das exportações ou do produto, sinceramente duvido. Os modelos estão longe da realidade e os estudos empíricos centram-se em momentos da sociedade que já passaram e não são compatíveis com a actualidade. O único caminho para a exportação não é competir com os chineses pois seria uma batalha perdida, mas apostar em inovação e criatividade. Sei que é muito bonito dizer isto mas fazer é o que se tem visto, mas é para um pequeno grande país, temos de apostar nos recursos mais valiosos que temos, NÓS.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Anónimo,

Garanto que é verdade. Aumenta.
A morte é certa mas quando vamos ao médico acreditamos que o conhecimento nos vai curar.
Tenha confiança na ciência económica.

A sua argumentação é exagerada. A China não é a miséria que pensa.
Quem visita Shangai diz que está melhor que Nova York.
Tem salários equivalentes aos do Brasil e não nos sentimos ameaçados pelos brasileiros.

Em média, um Português produz 3x a riqueza que um chinês produz. Então, ficamos competitivos com a China desde que o nosso salário não seja maior que 3x o salário de um chinês.

Pensar que podemos ganhar como um luxemburguês é acredita na fada madrinha. E eu já tenho 46 anos!

Nenhum país é pobre por gostar.
Mas nenhum fica rico apenas por acreditar que tem direito a sê-lo.

pc

Sérgio Pedro disse...

Discordo da parte sobre aumento de horas de trabalho. Compreendo a como medida de aumento de competitividade, mas numa apenas perspectiva teórica, pois na realidade apenas promover mais desemprego!Ex: numa fabrica que tenha X trabalhadores a trabalhar 8\h dia irá precisar de apenas X-5% dos mesmos trabalhadores para atingir as mesmas metas de produção se os mesmos trabalharem 9\h dia(já para não falar na exploração laboral e que esse tipo de horário existe infelizmente em muitos lugares, até parece que o Pedro não conhece bem os nossos empresários).Não sei bem se mais 4 a 5% de desempregados seria muito benéfico, ou se seriam mais tarde absorvidos, mas assim de repente parece uma falha nessa parte da teoria. De qualquer forma nunca poderiamos competir com os mercados emergentes! Pelo menos com os modelos económicos correntes! Até rimou lindo... pensamento final sobre competividade no ver da minha observação sou da opinião que sim temos de ser melhores mas isso só se consegue com melhor apoio técnico, infraestucturas e liderança (o empresário português é regra geral muito tacanho e pouco inteligente, e as pessoas realmente inteligentes como o amigo Pedro que deveriam estar á frente raramente estão).Outra Observação (que pode ter algum erro de observador) Ainda outra nota é que os salários tem sido muito cortados de hà 10 anos para cá pelo menos no privado! Muitos pessoas que auferiam de vencimentos na casa dos 1000€ viram os seus postos de trabalho desaparecer e reaparecer noutro sitio mas a receber 600€ a 800€ e é esta a média de ordenado dessas mesmas pessoas HOJE!! Estamos agora 10 anos depois a receber menos sem contar com a infláção, que em 2000, ou seja esse corte já tem sido implemententado na classe média trabalhadora há algum tempo. Por outro lado aumentamos demasiado o SNM em 2001 era cerca de 320€ (eu recebia menos 60 contos) e agora está quase em 500€, mas algo perverso é que tambem aumentamos muito o numero trabalhadores que recebem apenas o SNM! Falo destes valores pois não era imcomum aqui à 5 ou 6 falar de rendimentos na casa dos 1000€ para a classe média trabalhadora e agora o que encontro são pessoas licenciadas em cargos que exigem alta formação e não atingem sequer esses 1000€! Desculpe Pedro desta vez deixei-me levar... O que eu devia dizer era que não podemos competir apenas pelo corte de custo da produção, temos é de a tornar mais efeciente e ainda colocar-nos numa posição mais justa em relação aos mercados emergentes. Senão ficamos como o amigo Anónimo a trabalhar por arroz para conseguir ser competitivos.

Sérgio Pedro disse...

Desculpem cometi uma gralha nas ultimas palavras o que devia ter di seria:

O que eu devia dizer era que não podemos competir apenas pelo corte de salários e aumento de de tempo de trabalho para ter menor custo da produção! Temos de a tornar mais efeciente e ainda colocar-nos numa posição mais justa em relação aos mercados emergentes. Senão ficamos como o amigo Anónimo a trabalhar por arroz para conseguir ser competitivos.

Anónimo disse...

um texto sobre os juros seriam bom. todos os dias ouvimos falar de juros. juros que nos pagamos. juros da divida publica. juros do bce. juros do mercado interbancario. nos seus textos ja falou que os juros que os bancos comerciais estao a suportar sao muito altos. quais juros e porque? e tambem disse que por isso os juros dos creditos a habitação teriam que aumentar.
no entanto nos não temos controlo sobre os juros. ou temos? o que podem os bancos comerciais ou o governo fazer para aumentar ou diminuir a taxa de juro.

o que esta ao alcance dos bancos comerciais e dos estado?

não seria importante que nesta altura os juros se mantivessem baixos? antes menos juro que mais rendimento. em portugal não ha autoridade nem meio de agravar os juros ao consumo e diminuir os juros ao investimento.

seria importante dar uma prespectiva geral sobre os juros. quais os juros mais relevantes para a economia. ate para o senhor professor seria um bom exercício

Anónimo disse...

e os spreads. esses tao falados spreads! fale nos sobre isso

iurikorolev disse...

Amigo Economico Financeiro
"China tem salários equivalentes aos do Brasil"
De onde você tirou isso ?

"..e não nos sentimos ameaçados pelos brasileiros."

Tens toda razão.
Brasil e Portugal atuam em campos diferentes : Brasil é uma potência industrial e agricola (tem cerca de DEZ vezes o PIB de Portugal), Portugal é produtor de vinhos e azeite.
Realmente não há razão para temer...

Económico-Financeiro disse...

Estimado iurikorolov,

Na "super cidade" de Pequim o Salário mínimo é 2USD/h o que corresponde a 635Reais/mês.

No Estado do Rio de Janeiro o Salário Mínimo são 520Reais/mês.

Como vês, os dados contrariam o seu senso comum.

Esta informação está on-line.

A China de hoje não é o país de 1960.

pc.

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