terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Agora vou imprimir as notas

Porque a humanidade precisa de dinheiro?
Recordando a criação do dinheiro pelo missionário, a necessidade de moeda (entendida como qualquer "meio de pagamento diferido no tempo" que implica que a moeda tem que ter capacidade de "reserva de valor") vem da obrigatoriedade de existir "dupla coincidência de vontades" quando se faz um troca directa.
Com dinheiro as transacções ficam independentes (batatas por dinheiro e, no dia seguinte, dinheiro por galinhas) o que melhora o comércio.
A possibilidade de comércio, e não o dinheiro, possibilita que cada individuo se especialize onde tem vantagens comparativas.
Isto melhora a produção e o nível de vida das pessoas.
O que os anarcas e comunas não antecipam é que este processo leva invariavelmente a que uns se especializem em empregadores e outros em empregados. Uns em capitalistas e outros em deserdados. Uns em ladrões e outros em polícias. Surgem os políticos, os exércitos, a sociedade vai-se complexar, estratificar e heterogeneizar.
A natureza especializou-nos em homens (brutos e caçadores) e mulheres (meigas e maternas).
Em 1917-20 o Lenine martelou a burguesia e expropriou todo o capital. O problema é que a produção caiu abruptamente e instalou-se a fome. Então, o Lenine permitiu que os pequenos produtores agrícolas vendessem os seus produtos no mercado. O problema é que o comércio livre destruiu rapidamente o comunismo. No anos da sua morte, 1924, já tinha reaparecido a burguesia que o Staline teve que martelar de novo.
Na China, comunista, hoje há mais capitalistas que em qualquer outro país do Mundo. 

Como moeda serve qualquer coisa.
Os manuais dizem que uma coisa para servir de Notas e Moedas tem que ter certas características.
Mas isso não é verdade.
Apesar de, historicamente, as Notas e Moedas terem a sua origem no Ouro, Prata e Cobre, qualquer coisa serve como moeda.
Houve sociedades, nas ilhas do Pacífico, que criaram Moeda a partir de coisas sem valor nenhum intrínseco.
Conchas, rodas de pedra, estátuas de pau ou de pedra, ovos de gaivota, qualquer coisa.
E não precisa ser raro pode ser uma coisa comum e fácil de fazer (como é o caso do papel moeda).
O valor de uma nota ou moeda resulta apenas de haver alguém disponível para vender os seus bens e serviços em troca dessa nota ou moeda. Mais nada.
O papel-moeda não presta, per se, para nada.
É tal e qual o Ouro que apenas serve como joalharia porque é uma exteriorização de riqueza.



Fig. 1 - As mamas tesas das mulheres exteriorizam um elevado nível de estrogéneos.

Vou agora emitir Notas e Moedas no Condado da Negralhada.

Fase 1. O povo pediu ao missionário para acabar com os saldos negativos.
Mas, no sistema monetário lançado pelo missionário não pode haver saldos positivos sem haver saldos negativos
Já estava resolvido o problema das pessoas que morriam sem pagar com a comissão que os banqueiros cobram em cada transacção mas, mesmo assim, psicologicamente o povo não quer saldos negativos.
Então o missionário decidiu passar os saldos a positivos.
A média dos saldos é Zero. O missionário calculou o desvio padrão de todas as contas e resulto 500X por pessoa.
Então, o missionário decretou o seguinte:
1 - Ao saldo de todas as contas serão somados 500X
2- Os clientes que fiquem com saldo negativo não poderão realizar transacções enquanto não o passarem a positivo.
3 - A contrapartida dos saldos será Moeda depositada no Banco Central.
O missionário poderia ter apropriado este dinheiro (era o direito de senhoriagem) mas achou por bem distribui-lo pelo povo.

Vejamos como ficou a contabilidade do sistema bancario.
Os movimentos que mostro para o Banco 1 é idêntico aos dos restantes bancos comerciais
Contabilidade no livro do Banco 1 (que continuará a somar zero)
"1/1 - João,  dadiva do BC = 500X, Saldo = +1250X"
....
"1/200 - Maria, dádiva do BC = 500X, Saldo = +15X"
"         Passivo Total (saldos dos clientes),     +127425X"
"         Activo Total (deposito no BC),             -127425X"

Contabilidade no Banco Central
"Banco 1, dádiva = 100000X,              Saldo  = +127425X"
....
"Banco 8, dádiva =  50000X,                  Saldo  = +47425X"
" Passivo Total (saldos dos bancos comerciais),   +500000X"

Mas agora o livro do BC não soma zero.
Soma sim mas faltam as  Notas e Moedas.
"         Activo Total (Notas e Moedas),                   -500000X"

Mas não existem notas.
Claro que não não existiam antes nem existem agora. Não é preciso dar-lhes existência física.
Então dentro do sistema, não estando exteriorizadas.
Isto é, ninguém pode levantar notas e moedas no seu banco. Para alguém as usar tem que fazer um pagamento.


Fase 2. Como vai o missionário controlar a liquidez?
Vamos supor que os preços diminuíram 1% pelo que o missionário tem que aumentar a quantidade de moeda "em circulação" em 1% (5000X). Então, tem várias hipóteses.
    a) Vai a todas as contas e aumenta 1% no saldo de cada uma.
    b) Vai a todas as contas e aumenta 5X a cada uma.
    c) Vai à conta do Conde e aumenta-lhe 5000X no saldo.

A opção c) é a adoptada pelos Bancos Centrais.
Como, havendo crescimento económico, é preciso mais vezes acrescentar  moeda que diminuir, a opção c) dá lucro ao soberano. É o direito de senhoriagem.
É cerca de 0.5% na Zona Euro e, no máximo e para 50% de inflação, pode atingir 1.5% do PIB.
Já nem o Zimbabwé usa a emissão de moeda para explorar os direitos de senhoriagem.
Um país como Portugal que gasta 50% da riqueza não deve destruir a estabilidade dos preços e a credibilidade da moeda para arrecada mais 1% de receitas em direitos de senhoriagem.

O período inflaccionário que se observou nos anos 1960-1980 devem-se mais a pensar-se erradamente que existia Curva de Phillips (que mais inflação levava a menos desemprego) que aos direitos de senhoriagem.
Como o Reagan não acreditava nessa balela, cortou logo o mal pela raiz.

Fig. 2 - Taxa de inflação nos USA antes e após Reagan (fonte: Banco Mundial)

Vejamos como ficou agora a contabilidade do sistema bancário com o Conde.

Contabilidade no Banco Central
"Banco 1,  ...                 Saldo  =  +127425X"
....
"Banco 8,  ...                  Saldo  =   +47425X"
" Conde,   ...                   Saldo  =  +50000X"
"                         Passivo Total =   +505000X"
"         Activo (Notas e moedas) =  -505000X"

Quando for preciso diminuir a quantidade de moeda "em circulação" a conta do Conde é subtraída.

Não existe dívida pública nem moeda materializada
Pessoas muito válidas defendem isto por causa de, normalmente, o BC fazer operações de "open market" para controlar a liquidez (vender dívida pública por notas para diminuir a liquidez e vice-versa).
Mas acabei de criar um sistema perfeitamente controlável sem divida pública.

Fase 3 - Vou imprimir as Notas
Vou fazer como os da Ilha de Páscoa que não tinham Ouro nem Prata nem nada que tivesse valor.
Então o missionário lembrou-se.
Vamos fazer 7 estátuas que vamos colocar no centro da capital, no Te Pito o Te Henua.
Assim que eu benzer essas estátuas viram Notas.
Cada Nota vai valer 100000X pelo que, no total, faremos 700000X.

Fig. 3 - Todas as notas da Negralhada estão na praça e à vista de toda a gente

Emiti propositadamente 7 notas de muito elevado valor facial, não divisíveis, não móveis, fáceis de produzir e sem nenhuma utilidade ou valor intrínseco, para verem o ridiculo dos autores que dizem que o Ouro porque era exigido que tivesse essas características.
Nunca ninguém, excepto eu, pensou que as estátuas da Ilha da Pascoa são notas impressas. Mas são.
Vejamos como ficou finalmente a contabilidade do sistema bancário com as 7 notas.
 Contabilidade no Banco Central 
"Banco 1,  ...                 Saldo  = +127425X"
....
"Banco 8,  ...                  Saldo  = +47425X"
" Conde,   ...                   Saldo  =  +50000X"
"                         Passivo Total =   +505000X"

"         Total de notas impressas ,  -700000X"
"         Notas a dormir,                 +195000X"
" Activo(Notas em circulação) = -505000X"

Se quiser aumentar a quantidade de moeda "em circulação" acordo algumas notas e passo-as para a conta do Conde. Aumentar a "moeda em circulação" em 1000X

" Conde,   mais moeda = 1000X,    Saldo  =  +60000X"
"                             Passivo Total =   +506000X"

"         Total de notas impressas ,         -700000X"
"         Notas a dormir, retira 1000X,   +194000X"
"         Activo(Notas em circulação) = -506000X"


As notas já estão todas impressas
E podem ser vistas por toda a gente mas parte delas estando como "reservas no Banco central" não contam como moeda em circulação.
Mas só são liquidez quando o missionário as coloca na contabilidade do sistema bancário.
Quando for precisa uma quantidade de moeda em circulação maior que 7000X, podem-se fazer mais estátuas ou o missionário benze as 7 outra vez e cada estátua passa a ser uma nota de 200000X.
É uma redenominação do valor facial das notas.

No sistema bancário da Negralhada quanto são as reservas compulsivas?
São 100%.
O BC ao não permite que haja contas com saldo negativo proíbe que os bancos emprestem o saldo das contas à ordem.
Então, as reservas compulsivas são 100% do saldo e estão depositadas no Banco Central que tem as notas no meio da praça, as 7 notas, à vista de todos, o tempo todo e que não vão a lado nenhum.
No entanto, criei um sistema contabilístico que transfere parte da sua posse como contrapartida de todas as transacções económicas que acontecem na Negralhada.
O seu "valor" viaja por todo o Condado e o povo pensa que o valor das 7 notas resulta da benzição mas resulta apenas de todos terem necessidade de usar dinheiro nas trocas, de haver estabilidade de preços e de (quase) todos aceitarem essas notas como contrapartida na venda dos bens e serviços que têm.
Podem fazer as estátuas que quiserem que não terão valor porque não estão contabilizadas no sistema contabilístico dos bancos.
Pensa a negralhada que é por não estarem benzidas pelo missionário.
Há o mito do comunas que não se pode controlar a liquidez sem haver divida pública.
Aqui ainda só há as notas como díida pública.

Pedro Cosme Costa Vieira

5 comentários:

Luís Ferreira disse...

Não percebi nada.
Gostei da foto da menina.
Na china comunista há mais capitalistas do que em qq outro sitio do mundo: então em que é que ficamos ? é melhor comunas ou banqueiros centrais? Ou é basicamente a mesma merda?
Posso emitir dinheiro na minha propria conta como a reserva "federal" americana sem ir preso? Ou esse previlégio só é concedido a "iluminados"?
Quanto ao dinheiro não ter qq correspondencia com um recurso fisico (ex. Ouro) quer dizer que o crescimento economico continuo é possivel pondo mais "zeros e uns" na base de dados no servidor do banco nas contas da minha familia, ou só nas contas de outras familias?
E se entretanto se esgotassem os recursos naturais? Podemos-nos alimentar dos digitos em computador correspondentes à nossa conta bancaria, ou apenas fazer o download dos mesmos para o deposito do carro para substituir o gasoleo entretanto esgotado?
Agradeço desde já a vossa preciosa ajuda a um pobre ignorante dessa ciencia maior que é a economia

Anónimo disse...

http://www.nobelprize.org/nobel_prizes/economics/laureates/1995/lucas-lecture.pdf

É bom o texto? Vale a pena?

Luís Ferreira disse...

http://www.youtube.com/watch?v=ArfPytAoeZ0&feature=related

Inglês percebe-se
Economês é como a Teologia: não é para perceber é para manipular e distorcer

HORIZONTE XXI disse...

Se bem precebi e posso resumir, o que quer dizer é que o sistema financeiro atingiu um estadio em que está completamente desligado da realidade economica/produtiva que lhe fornecia a sustentação, não precisa de uma base economica para existir nem a expressa.

É precisamente isso, o crescimento economico dos ultimos anos tem sido zeros e uns digitais a que se chama se não erro, especulação,não entendo como uma diarreia do Obama baixa o preço do crude e um peido do kadafi o aumenta, se a quantidade de material que é extraido se mantem.

É toda uma realidade virtual, um magnifico universo paralelo.

Económico-Financeiro disse...

Estimado XI,
Quero dizer que a questao monetária (e não o sistema financeiro como um todo) é completamente independente da realidade produtiva mas sempre assim o foi.
Por isso, a emissão de mais moeda (inflação) não consegue resolver nenhum problema económico.

Noutro post eu vou criar o mercado de crédito (bancário e bolsa).

O crescimento economico é ainda outra coisa.
pc.

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