sábado, 17 de dezembro de 2011

A criação da banca comercial

O Condado da Negralhada ainda é grandinho.

Tem a capital e depois tem 8 aldeias retiradas uns 15 kilómetros. A capital tem 200 habitantes e as aldeias variam entre 50 habitantes e 150 habitantes.
Como os caminhos são fracotes e o povo anda a pé, torna-se difícil os aldeões vir à capital para o missionário fazer os lançamentos no livro.
Então o missionário pensou transformar-se em Banco Central, BC, e permitiu o aparecimento de bancos comerciais privados.

Fig. 1 - Mapa do Condado da Negralhada

O negócio tem que dar lucro.
Uma das funções dos governantes é imaginar como as necessidade básicas do povo podem ser satisfeitas da forma mais eficiente (mais barata). Mais importante que fornecer bens e serviços é desenhar um quadro legislativo que permita aos privados produzir e fornecer esses bens e serviços à população de forma eficiente.
Sob pedido do Conde, o missionário desenhou o sistema bancário.

Banco Central: tem a função de controlar o sistema monetário. Como o melhor é que haja estabilidade de preços e foi isso que o povo pediu, o BC vai actuar neste sentido. 
Inflação: O BC tem que calcular a taxa de inflação.
Licenças: O BC é a entidade que licencia os bancos comerciais (não pode haver concorrência livre).

Bancos comerciais: têm por função ter as contas e fazer os lançamentos das transacções
Fontes de receita: em cada transacção, o banqueiro recebe uma taxa de 0.1% do valor.
Obrigações: o banqueiro tem que obedecer (quanto ao valor máximo de descoberto) às ordens do BC.

Como vai funcionar o sistema bancário.
Cada aldeia terá o seu banco com o livro das contas.
O banco de uma aldeia com 100 habitantes terá 100 contas e o banqueiro vai fazer os lançamentos entre os habitantes da sua aldeia. O BC vai impor uma limite ao saldo a descoberto de cada banco para, desta forma, fazer com que a liquidez total na economia ser limitada (o tal dinheiro). Desta forma, o BC controla a inflação (rever, A inflação é um fenómeno puramente monetário).
(Para rever o funcionamento de cada banco ver o descrito no outro poste).

Mas ainda há as transacções entre clientes de bancos diferentes.
Um banco de uma aldeia não pode fazer transacções entre um cliente seu e um cliente de outra aldeia.
Essas operações obrigam à intervenção do Banco Central.
Cada banco vai ter uma conta no BC que podem ter a descoberto até um determinado valor.
Como as necessidades dos bancos são dependentes do número de clientes que têm, o BC impõe um máximo de descoberto de 750X vezes a raiz quadrada do número de clientes.
Por exemplo, um banco com 50 clientes pode ter um descoberto de 5303X enquanto que um banco com 150 clientes pode ter um descoberto até 9188X. A razão da raiz quadrada prende-se com a diversificação com acontecimentos não correlaccionados.
Se não houvesse um limite a cada banco, uma aldeia poderia passar a viver à custa das outras aldeias (tipo o pretendido pelo da Madeira).
Por isso, o BC tem que haver limite ao poder de saque de cada banco junto do BC.

Fig. 2 - Pai, custe o que custar eu quero aquela negralhana para mim.

Vamos fazer a transacção.
Aqui vai um bocadinho de contabilidade
O cliente "25" da aldeia "3" (que tem saldo = 700X) quer pagar 250X ao cliente "12" da aldeia "7" (que tem saldo = -25) por uma sua filha muito jeitosa que o seu filho quer a todo o custo.

O banco 3 (que tem saldo -4000X no BC) escreve no seu livro
   "25.3, pagamento ao 12.7 = - 250X,                               Saldo = 450X"
   "BC, pagamento ao 12.7 por conta de 25.3 = + 250X,  Saldo = -3750X"
Envia a ordem de transferência ao BC
*O BC está devedor do banco 3

O Banco Central recebe a comunicação do banco 3 e escreve no banco 7 (que tem saldo = 350X)
   "3, pagamento ao 12.7 por conta de 25.3 = - 250X , Saldo = +3750X"
   "7, pagamento ao 12.7 por conta de 25.3 = + 250X,   Saldo = +600X"
* Eu inverti o sinal dos movimentos e dos saldo no BC para ficar sempre na "óptica da conta" (era uma falha de contabilidade que corrigi).
O banco 3 está credor do BC.

O banco 7 recebe a comunicação do Banco Central e escreve
   "BC, pagamento ao 12.7 por conta de 25.3 = - 250X, Saldo = -600X"
   "12.7, pagamento do 25.3 = + 250X ,                          Saldo = +225X"

Em todos os livros mantém-se  o saldo total igual a zero.
Omiti as comissões para não complicar a contabilidade.

Mas não há notas nem reservas fraccionadas.
Criei um sistema monetário sofisticado com banco central e bancos comerciais sem ter necessidade de imprimir notas ou de ter Reservas Compulsivas em notas.
No meu sistema bancário o limite quantitativo de poder saque das contas (o limite ao saldo negativo) funciona de forma equivalente às reservas compulsivas em notas.
Só assim é possível que a estabilização do nível geral de preços.
Sempre que o BC detecte que os preços estão a diminuir, aumenta o limite de saque (por exemplo, de 750X para 760X). Detectando que os preços estão a aumentar, reduz o limite de saque (por exemplo, de 750X para 740X).

Recordando porque os saldos dão sempre zero.
Porque, no Condado da Negralhada, os banqueiros não têm armazenamento de bens que, no cambista, permitia que o Livro tivesse saldo positivo.

O mercado de crédito
Quem quer poupar vai acumulando um saldo positivo o que obriga o BC a aumentar o limite de saque.
O problema é que alguns clientes vão ficando com o saldo cada vez mais negativo e podem morrer antes de anular o saldo (pagar o que consumiram a descoberto).*
* Este é o problema de o BCE ceder liquidez sem limite a Portugal.

Para resolver esta falha é preciso separar o mercado de crédito do sistema de liquidez.
No próximo poste vou criar este mercado, ainda sem necessidade de ter notas.
Pedro Cosme Costa Vieira

5 comentários:

Fernando Ferreira disse...

Ola Pedro,
Mais um artigo com muito interesse. Permita-me que faca alguns comentarios.
Tentei imaginar o Condado da Negralhada. Pela sua descricao da-me a ideia que, apesar de relativamente primitiva, ja existe uma economia entre os habitantes do Condado. Admintindo que essa economia esta' num estado mais avancado do que a simples economia de troca de produtos (barter), concluo que deva existir uma economia baseada numa comodidade, ouro ou prata ou ambos, por exemplo. Pelo menos estes foram os exemplos da historia. Ora, os bancos comerciais apareceram da necessidade das pessoas armazenarem o ouro (dinheiro), ja que usar ouro como meio de pagamento nao e' pratico. Os bancos guardam o ouro e entregam ao cliente um documento de propriedade desse ouro, que depois acabou por ser usado no mercado como meio de pagamento, tao bom quanto ouro. Portanto, OS BANCOS COMERCIAIS APARECERAM PRIMEIRO QUE OS BANCOS CENTRAIS. (1 de 4)

Fernando Ferreira disse...

Depois o Pedro diz que "uma das funções dos governantes é imaginar como as necessidade básicas do povo podem ser satisfeitas da forma mais eficiente (mais barata). Mais importante que fornecer bens e serviços é desenhar um quadro legislativo que permita aos privados produzir e fornecer esses bens e serviços à população de forma eficiente." A sociedade que descreve nao e', com certeza, uma sociedade livre de cidadaos livres (que e' como a sociedade deveria ser). NUMA SOCIEDADE LIVRE NAO EXISTE A NECESSIDADE DA EXISTENCIA DO CONDE. No maximo, o Conde so deveria existir como garante que os direitos naturais dos individuos (a sua vida, a sua liberdade e a sua propriedade privada) estao garantidos. Sera entao o mercado livre resultante das interacoes dos cidadaos livres, que garante que as necessidades de todos sao satisfeitas, da forma mais eficiente. Para mais, para que o Conde possa "satisfazer as necessidades basicas" dos cidadaos, precisa de um "exercito" de burocratas funcionarios publicos. Para isso precisa comecar a COBRAR IMPOSTOS aos cidadaos da Negralhada, consumindo assim recursos que poderiam ser usados para fazer crescer a economia. O Conde vai depois comecar a usar esse dinheiro para subsidiar e favorecer grupos que lhe sao proximos. O Conde precisa cada vez de mais e mais dinheiro para satisfazer todos os grupos que vao aparecendo (nao va o diabo tece-las e ainda se revoltam contra ele). (2 de 4)

Fernando Ferreira disse...

E' entao que o Conde percebe que, nao podendo exigir mais e mais dinheiro (ouro) aos Negralhadas e nao tendo onde ir buscar mais ouro, porque custa a encontrar e a minerar, o melhor sera ele CRIAR O PROPRIO DINHEIRO e decretar que aquele passa a ser o DINHEIRO OFICIAL do condado e ilegaliza qualquer outra forma de dinheiro. Cria assim o BANCO CENTRAL da Negralhada e da-lhe o monopolio da criacao do dinheiro oficial. Sempre que o Conde precisa de mais dinheiro para satisfazer a sua clientela ou para fazer obras megalomanas, a maioria das vezes nao necessarias a economia, emite pedacos de papel a que chama "Obrigacoes do Tesouro" e pede ao Banco Central que crie outros pedacos de papel impresso (notas) em troca destas obrigacoes. Este novo dinheiro entra assim em circulacao na economia, impulsionando o consumo. Ora como a oferta de bens e servicos mantem-se a mesma e dada a forte procura faz com que os precos destes bens e servicos subam. Os primeiros a usar este novo dinheiro (O Conde, o Banco Central, os bancos comerciais, os amigos do Conde) beneficiam porque os precos ainda sao os mais baixos. Quando o dinheiro chegar aos pobres Negralhadas, ja os precos subiram. E' entao que o presidente do Banco Central vem justificar a sua existencia: "viram, os precos estao a subir e nos existimos para garantir que os precos sao estabilizados", que e' como quem diz, os precos nao sobem em demasia, mas sobem sempre. (3 de 4)

Fernando Ferreira disse...

Portanto, o Banco Central vai "estabilizar os precos" que subiram em resultado da sua propria accao de estabilizar os precos. Ao aumentarem a quantidade de dinheiro no mercado, o que estao a provocar e' a DESVALORIZACAO do dinheiro. Nao sao as coisas que ficam mais caras, e' o DINHEIRO QUE FICA DESVALORIZADO. Podemos ver o dolar, por exemplo, que desde que Nixon desligou o dolar completamente do padrao ouro, em 1971, ja desvalorizou 86%!!!!! Alguem que na altura tinha $1,000,000, que valiam $1,000,000 e que podia comprar bens e servicos que valiam $1,000,000, pode, hoje em comprar bens e servicos no valor de $140,000. Vemos assim os efeitos da inflaccao. Nao deixa de ser um imposto disfarcado, dos mais implacaveis impostos que pode haver ja que atinge quem consome e tambem quem poupa.
Eu nao queria viver no Condado da Negralhada, ja que esse condado assemelha-se em tudo a todos os paises do mundo. Eu nao quero um conde que passe o tempo a "imaginar como e' que as minhas necessidades podem ser satisfeitas da forma mais eficiente". Eu sei que tudo o que Conde imaginar sera sempre NADA eficiente, porque o Conde nao esta a gerir dinheiro que e' seu, esta a gerir dinheiro da negralhada (e dinheiro criado do nada pelo Banco Central). Eu queria viver num condado onde os Negralhadas pudessem ser livres e ter liberdade de escolha de como fazer comercio uns com os outros e de como gastar o seu dinheiro. Neste mundo livre nao haveria a necessidade de have um BANCO CENTRAL. Cumprimentos. (4 de 4)

GBT disse...

Bom post e melhores comentários de F. Ferreira, comos quais concordo.
pergunto-me porque a escola austríaca não é mais propagada nas escolas de economia.
Talvez pela mesma razão porque os fiscalistas não gostam da "flat rate". Simplifica tanto que muitos experts ficariam sem trabalho. Veja-se a quantidade de experts em política monetária, etc.
E, sobretudo, porque os governos e a classe política perdiam o seu maná.

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