quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Deve o Estado meter capital nos bancos ou pagar as dívidas?

O problema dos nossos bancos é de solvabilidade e não de liquidez.
Os bancos portugueses estão insolventes porque os activos estão muito desvalorizados.
Actualmente o total de activos não é suficiente para fazer face aos depósitos e demais obrigações.
Há duas alternativas para ultrapassar este problema.
A1. os bancos abrem falência e o depositantes perdem parte das suas poupanças;
A2. o Estado reforça o Capital dos bancos passando a ser accionista pela emissão de dívida pública.
A entrada do Estado no capital dos bancos não é equiparável ao pagamento das suas dívidas por três razões.
Primeiro, a entrada de capital é apenas contabilística (não há entrega de qualquer activo). 
Segunda, o pagamento das dívidas obrigava o Estado a meter um activo (dinheiro) que não tem.
Terceira, o Estado pagando as dívidas diminuía o activo dos bancos.
A Troika aceitou que esses 12MM€ não fossem, para já, ao orçamento (não seria possível ter em 2012 um défice inferior a 12% do PIB). Esse reporte aconteceu no caso da Irlanda (que fez o défice ultrapassar, em 2010, os 30% o PIB)

Fig.1 - Sou Madalina. Preciso vender brincadeiras a 50€ porque o meu banco faliu.

Os Bancos são apenas intermediários na afectação de recursos escassos.
A ideia que "os bancos criam crédito" é uma mentira dos comuna e demais ignorantes.
Por um lado, captam recursos de uns agentes económicos (os credores) na forma de depósitos das famílias, empréstimos de outros banco, obrigações que vendem a investidores e o capital próprio dos accionistas.
Depois, aplicam (emprestam) esses recursos noutros agentes económicos (os devedores) que são famílias, empresas públicas e privadas, outros bancos e no Estado.
Se um banco não tiver quem aplique lá recursos (por exemplo, depositantes), não pode emprestar.
Se recordarmos o Cantineiro, ele apenas pôde emprestar recursos à Viúva do Muzuel porque tinha saldo positivo no livro que se traduzia por mercadorias no armazém que tinham sido ganhas pelos seus clientes nas contratas.
Assim, o Cavaco, o Seguro e todos os outros comunas não podem "exigir que os bancos aumentem o crédito à economia" quando estes não têm onde ir buscar recursos.

A falta de liquidez.
O Banco é um negócio que "medeia" prazos.
Quem faz um depósito bancário quer, quando lhe apetecer, levantar o dinheiro. As pessoas poupam principalmente para fazer face a imprevistos e, se as aplicações financeiras não forem rapidamente mobilizáveis então, não consegue responder aos imprevistos deixando de fazer sentido.
Pelo contrário, os empréstimos dos bancos são a médio e longo prazo. Por exemplo, financiam a aquisição de casas a 50 anos.

Em termos agregados, a liquidez é uma questão contabilística.
Os levantamentos pode ser por transferência para outro banco ou em dinheiro.
Vamo supor que o Banco Português BP tem um passivo
      Depósito de João no valor de 100M€
E tem um activo
     Contrato de crédito à empresa pública EP a 25 anos, 5%/ano, no valor de 100M€.

Levantamento por transferência.
O João quer transferir o seu saldo de 100M€ do BP para o Banco Alemão DB.
Então, o BP vai transferir o contrato da EP para o DB.
O João fica com o seu saldo no DB e a EP fica com a sua dívida para com o DB.

Levantamento em dinheiro.
O João quer levantar o saldo do BP em notas.
Então, o BP vai transferir  o contrato da EP para DB (que tem liquidez).
O DB envia as notas para o BP.
O João fica com as notas e a EP fica com a sua dívida para com o DB.

Obrigações subordinadas com ou sem garantia do Estado
Como a transferência jurídica do contrato da EP do BP para o DB tem custos, o BP emite "obrigações subordinadas ao contrato da EP") e entrega-as ao DB.
... e o BP receberá as prestações do Alberto e entrega-a ao DB.
Em qualquer dos casos, se a EP não pagar, o DB fica com o prejuízo.

Em situações de urgência, o BCE aceitas as obrigações subordinadas.
Se o levantamento de notas for generalizado em todos os bancos, o sistema bancário da Zona Euro fica sem dinheiro (e não apenas os portugueses) pelo que o BCE empresta notas e moedas com garantia das obrigações subordinadas.

O BCE é o "financiador e último recurso" a Zona Monetária
Este movimento do BCE traduz que, quando não houver mais nenhum banco com liquidez, o BCE emite notas e moedas.
Mas apenas em situações de escassez generalizada de notas e moedas.
O Banco Central não empresta dinheiro a bancos falidos porque estes não têm garantias para lhe dar.
Por isso, o BCE não pode funcionar como "financiador de último recurso" dos bancos portugueses,  gregos ou italianos porque o seu problema é de insolvabilidade.

Na prática, nunca um banco tem problemas de liquidez.
Se, por exemplo, o sistema de transportes públicos deve 20mil milhões € aos bancos portugueses com um prazo de 25 anos e taxa de juro e 5%/ano.
Isso não é um problema porque este activo pode ser transferido para outro banco, alemão ou luxemburguês, que tenha liquidez.
O problema é que esses "20 mil milhões€" valem actualmente 7 mil milhões€.
Contrariamente ao que diz o Cavaco, o problema dos bancos nunca é um problema de liquidez.

A liquidez é como a paragem do coração.
 Muito pouca gente morre por o coração parar assim-sem-mais-nem-quê.
Há uma doença qualquer e, com o agravar da situação, o coração acaba por parar.
Mas é apenas um sintoma de uma doença fatal.

O problema da desvalorização dos activos.
Como o Banco tem que pagar aos depositantes (e demais credores) mas não tem garantias que os seu devedores reembolsem os empréstimos, o regulador do sistema obriga a que 10% do passivo sejam capitais próprios. É o famoso Core Tier 1.
Quando os devedores não pagam é o capital próprio do banqueiro que responde começando a diminuir.
No caso português, os devedores ainda não anunciaram a falência (as empresas públicas, o Estado e as famílias que comprara casa) mas os agentes económicos estrangeiros antecipam que é grande a probabilidade de isso vir a acontecer.
Desta forma, os activos dos bancos portugueses estão muito desvalorizados. Podemos dizer que não há razão para isso mas os DB não aceita os contratos ao valor que os bancos portugueses os contabilizam.
Assim, os outros bancos da Zona Euro descontam os activos dos bancos português à taxa de 15%/ano.

O BP está insolvente.
A transferência do João já não pode ser contrabalançada pelo contrato da EP porque, para uma taxa de 15%/ano, o DB o avalia em apenas 35M€.
O problema de liquidez resulta de o BP estar insolvente.
O total de activos avaliados a preço de mercado (quanto dariam se fossem vendidos agora) é menor que o total da suas obrigações.

Isso é uma injustiça dos especuladores sanguinários.
Suponha que a CGD lhe queria passar o activo de 1000 milhões € que o Berardo lhe deve.
Ele diz que vai pagar tudo com juros.
Quanto é que o estimado leitor estaria disposto a dar por isso?
Já fica com uma pequena ideia dos problema dos activos dos nossos bancos.

Onde vai o BP buscar o resto o dinheiro?
Se o Estado não fizer anda, o BP tem que declarar falência e o João só recebe 35M€ que ficam à sua ordem no DB.
Não querendo o Estado que o BP abra falência, o Estado Português tem que emitir 65M€ de Obrigações do Tesouro a uma taxa de juro de 15%/ano e mete-las no BP passando desta forma a ser dono do BP.
Essas obrigações do tesouro mais o contrato da EP já serão suficientes para realizar a transferência (ou o envio de notas) para executar o pretendido pelo João.
A EP fica a dever 100M$ a 5%/ano e o Estado 65M€ a 15%/ano ao DB para contrabalançar os 100M€ do Alberto.

Mas porque quer o DB títulos da dívida pública de um país falido?
Quando Portugal declarar a bancarrota vai pagar uma percentagem de toda a dívida que tem.
Antecipa-se que pague 50% da dívida.
Este pagamento será obrigatoriamente igual para todos.
Então, para o DB emprestar 65M€ garantido pelo Estado vai querer que a garantia seja de 130M€.
Supondo uma taxa de juro de mercado de 5%/ano, para um contrato a 10 anos, a taxa de juro terá que ser de 12%/ano.
O DB antecipa que só vai receber metade pelo que "carrega" nos juros de forma a que a metade que recebe corresponda aos 65M€.
O DB antecipa ainda a falência da EP e que só vai receber 35% do valor nominal da dívida.

Os 12 MMe serão suficientes?
Este valor corresponde a 7% do PIB português.
No caso da Irlanda, foram precisos 30% do PIB.
Há pessoas do meio que falam à boca pequena que Portugal vai precisar de injectar 80 Mil Milhões€ no sistema bancário. É uma desvalorização de "apenas" 20% do total de activos do sistema bancário.
São 50% do PIB.
No final, a dívida pública virá acrescentada em 50% do PIB, passando de 100% para 150%.
No Japão o resgate dos bancos elevou a Dívida Pública até aos 250% do PIB!
Não é por loucura de alguém que a acções do BCP estão nos 0.10€.
O Tio Gaspar sabe destes números e pensa que toda a gente os conhece.
Mas era preciso dizer no Telejornal que estamos num verdadeiro buraco.

Concluindo.
O Estado pagar o que deve obrigava a que tivesse dinheiro que não tem.
E isto não melhorava a solvabilidade dos bancos pois também diminuiria o seu activo.
A solução é emitir papeis (títulos de dívida pública) que funcionam no sistema como garantias para o sistema não entrar em falência e consequente rotura de liquidez.
A Troika aceitou que esses 12MM€ não fossem ao orçamento.
No entanto, daqui a uns anos, quando essas garantias forem accionadas e o capital dos bancos reavaliado, Portugal terá que reconhecer essas perdas no Défice.
Este post é uma resposta a um pedido do Sérgio.

Mas ainda subsistiram algumas dúvidas que tenho que clarificar

1. Realmente era bom (para os bancos) que o Estado pagasse o que lhes deve porque, a preços de mercado, essas dividas valem hoje muito menos.
Mas o Estado somos todos nós.
Para o Estado pagar o que deve era preciso que nós portugueses "poupássemos" esse dinheiro, 20000€ por cabeça.
Actualmente o Estado ainda tem um défice de 110€/mês por cada português (um défice de 8% do PIB "camuflado" com o fundo de Pensões dos bancos).
Para o Estado pagar o que deve em 10 anos precisava ter um superávite de 110€/mês (taxa de juro de 5%/ano).

IVA passar para 32%
Então, cada Português teria que pagar mais 220€/mês de impostos.
Isso corresponderia, mantendo a despesa pública actual, a aumenta ros impostos 40%:
IVA passar para 32%; TSU do empregado para 15% e do patrão para 32%; Taxas dos escalões do IRS aumentar 8 pontos percetuais; Combustiveis aumentar 22%.
Pagar de um momento para o outro só expropriando os nossos depósitos (que são 270MM€) e dando-os em pagamento.
Mas os bancos não veriam cheta, apenas deixavam de dever dinheiro aos actuais depositantes.

2. O negócio do Banco é aceitar depósitos e emprestar esse dinheiro cobrando uma margem. Por isso, pagarmos o que devemos seria mau para o banco porque diminuia o seu volume de negócios.
Na contabilidade dos bancos o que lhes devemos é um activo, o dinheiro que têm nos depósitos é um passivo. Na nossa óptica é ao contrário. Por isso, o nosso dinheiro é um activo para nós mas um passivo para o banco (tem que o pagar).
Apenas é bom para o banco pagarmos se o nosso contrato estiver indexado à taxa EURIBOR porque os bancos portugueses não se conseguem financiar a essa taxa. Esses activos estão desvalorizados.

Em condições normais, emprestar dinheiro ao Estado era um negócio razoável porque não tinha risco.
Por isso é que as pessoas tinham certificados de aforro. Dava pouco mas era certo.
Mas, entretanto, a divida pública ficou com muito risco.

3. A Troika não traz um camiões de dinheiro para Portugal. Não entra cá nem 1€.
O dinheiro serve para pagar contas no exteriores.
Paga a estrangeiros que têm divida que entretanto se vencem e juros;
Paga importações para as quais as exportações são insuficientes;
Dá cobertura às saídas de activos de portugueses para o exterior (permitindo que o Estado dê garantias que vão ser usadas junto do BCE e de outro banco do exterior).


4. Sobre os vídeos da propaganda anti-sistema fractional das reservas vou ter que escrever mais um post.

Pedro Cosme Costa Vieira

7 comentários:

sergio disse...

Obrigado por ser tão solicito a responder, e já agora boa posta ! Como sempre tenho algumas duvidas na mesma, eu gosto de esmiuçar o que não compreendo para ver se aprendo algo.

1- eu sei que o estado não tem dinheiro, tem dividas estava a falar de usar o dinheiro do empréstimo da troika, quero dizer foi para isso que o pedimos? para pagar dividas(sim e estabilizar o mercado através de garantias)?

2- então se eu pagar as minhas dividas ao banco ele perde activos, mas e o dinheiro que lhes paguei afinal não é um activo?

3-e se os própio activos estão desvalorizados não faz sentido de se os transformar em guito (pagar integra 20M€) antes que se transformem em toxicos e não valham mesmo nada!?!

4- Que nos aconteceria se o governo pagasse todas as suas dividas afinal? (na me diga que o tio Xocas é que está certo!!!)

Eu sei que o Pedro deve estar a pensar neste momento 2 coisas: Este ou é amigo do Louçã ou na presta atenção ao que escrevo! Mas custa me a acreditar que afinal os videos da propaganda anti-sistema fractional e anti-FIAT MONEY afinal tem alguma razão. Quero dizer então que se eu pagar a divida desaparece o dinheiro pois este apenas existiu enquanto existiu divida?! Eu percebo como se compra e vende os vários tipos de activos e como estes perdem valor, comos os própios activos podem ser garantias de outros e o que acontece quando perdem valor e por que o perdem etc. Basicamente a teoria de que todos estamos ligados uns aos outros! Especular e fazer rating tem a sua função mais que certo, mas problema é que neste sistema coloca os mercados mais expostos numa expiral de doentia de desvalorização só porque fazem o seu trabalho (bem ou não)! claro que não posso dizer que é culpa deles nem pedir que deixem de fazer o seu trabalho... Se culpo alguem (para alem dos culpados do costume) so este posso culpar este sistema, que obriga a crescimento significativo(+3%\ano) a tempo infinito,e que se não se cresce estagna é a desgraça e depois recessão... quando isso não é possivél, nada cresce de forma infinita(e a ritmo exponencial) num espaço finito! Já me deixei levar de novo!! Mais uma vez agradeço pois o Prof. Pedro gasta algum do seu tempo a educar e esclarecer com os seus bem ilustrados posts!

Económico-Financeiro disse...

Estimado Sérgio,
Mesmo que fosse o Ministro das Finanças do Inferno, teria todo gosto em responder às suas dúvidas que demonstram que falhei em algum lado.
Eu achei tão pertinentes as questões que as inclui no post.
pc

Fernando Ferreira disse...

Eu nao sou comuna nem ignorante mas considero que na realidade os bancos "criam dinheiro" atraves da reserva fraccionaria. Nao e' dizer que criam dinheiro do nada (se nao tiverem depositos, nao criam nada), mas do pouco criam muito. Se eu depositar 100 euros no banco, o banco guarda 10 e empresta 90 a Maria. A Maria compra a credito e o comerciante deposita os 90 euros. O banco reserva 9 e empresta 81 ao Carlos. o Carlos paga ao empregado e este deposita os 81 euros. O banco reserva 8.10 euros e empresta 72.9... Se esta operacao repetir-se 50 vezes, os 100 euros originais transformam-se em 995.25 (100 euros originais e 885.25 de "dinheiro" feito a partir do ar). Cumprimentos.

Económico-Financeiro disse...

Estimado Fernando,
Não fazia mal se fosse comuna.
É uma alegria quando alguém diz que estou errado porque vou aprender coisas.
O livro do Cantineiro cria dinheiro no sentido de liquidez mas não cria notas e moedas. Não é preciso haver notas e moedas para haver meios de pagamento, dinheiro.
A confusão no raciocínio é que reservas em notas não são reservas em bens no armazém que é o que interessa.
Imagine que as reservas em moeda são zero e o seu raciocínio falha.
P.f., ver "A moeda escritural (sobre o vídeo)"
Cada vez é mais claro que tenho que escrever outro post a ligar estas duas coisas (tem nesse post os paragrafos 13 e 14).
pc

Anónimo disse...

quero agradecer a resposta dada no ultimo post ás minhas perguntas.
Aproveitando o facto de o Pedro se prestar a explicar o funcionamento da economia e esperando não começar a ser saturante gostava que o Pedro comentasse outro artigo.
http://www.jornaldenegocios.pt/home.php?template=SHOWNEWS_V2&id=524935&gratis=1&pn=1

Não sei se consegues ver este artigo, eu tive de me registar para poder ve-lo mas de forma gratuita. Resumindo é um artigo sobre um Paper de um dirigente do FMI sobre o facto de as desigualdades tornarem o sistema financeiro e a economia mais vulneraveis ao aparecimento de uma crise. Aponta também a globalização e as reformas de Reagan e Thatcher como possiveis causadores da desigualdade, e era sobretudo sobre as possiveis causas da desigualdade que eu gostaria que o Pedro comentasse, se não for pedir de mais.

Cumprimentos Jorge

sergio disse...

AAAHHHH (diz o Tonecas) ! A Troika apenas trata das dividas do estado ao exterior e exportações! Pensava mesmo que a troika era tipo um banco enorme que nos iria consolidar as dividas todas, fazendo nos pagar de forma mais homogenea e com uma prestação que no final do mes era + em conta! Se tivesse posto a questão dessa maneira nem teria pensado muito no assunto. Foi falha minha de não me informar melhor. mas de qualquer forma não iliba os problemas do sistema factionario!!

Anónimo disse...

doutor pedro
conte lhes a brincadeira do multiplicar do dinheiro pelos bancos. Mostra lhe que isso é uma treta e que não é bem assim

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