quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

A dívida pública monetarizada e a taxa de juro

No Condado da Negralhada o missionário criou o sistema financeiro de raíz.
Agora, como o Conde quer direitos de senhoriagem constantes, o missionário vai introduzir a taxa de juro como instrumento de controle da inflação de curto prazo.

Os direitos de senhoriagem e os impostos.
A emissão de moeda dá lucro a que se chama "direito de senhoriagem". Como a economia precisa de mais dinheiro quando cresce, se, por exemplo, a quantidade de dinheiro na economia for de 30% do PIB e o crescimento económico (em termos nominais) for de 10%/ano então, será preciso aumentar o dinheiro na economia em 0.30x0.10 = 3% do PIB por ano.
No Condado apenas se pode poupar em dinheiro (as reservas compulsivas são 100%). No entanto, nos países concretos, como existem instrumentos de poupança alternativos ao dinheiro, em média os direitos de senhoriagem são menores que 0.5% do PIB. Mesmo que a taxa de inflação seja elevada (50%/ano), os direitos de senhoriagem ficam abaixo de 1.5% do PIB.
Para uma despesa pública (na UE) na média dos 45% do PIB, estamos a falar de valores irrelevantes.
Se aceitarmos que o Estado referido no Antigo Testamento é religioso, a despesa pública (e os impostos) na antiguidade era 10% do PIB (o dízimo).

Fig. 1 - O aumento do IRS só me deixou esta roupinha. E vêm ai mais aumentos!


Os subsídios e os impostos.
Normalmente, uma empresa paga os custos de produção aos seus fornecedores e trabalhadores pelas  receitas que obtem da venda dos bens e serviços que produz.
Há casos em que isso é difícil quer pelo lada da "interiorização" dos custos quer pelo lado da cobrança do preço.
Nestes casos é necessário alguma intervenção do Estado, cobrando um imposto (por exemplo, pagamos o imposto sobre os combustíveis para compensar a poluição dos automóveis) ou atribuindo um subsídio (por exemplo, as empresas de transportes recebem um subsídio para compensar o Passe Social).

A qualidade de vida e a eficiência económica.
Obriga a termos disponíveis bens e serviços. Como os recursos naturais são limitados, para aumentarmos o nosso bem estar as empresas têm que procurar a minimização dos custos de produção e a maximização do valor dos bens e serviços produzidos.
Se não houver eficiência na produção, o nosso nível de vida diminui.
Suponha que vai almoçar a um tasco onde o patrão é muito boa pessoa. Como o empregado demora 15 minutos a tirar o nosso café, teremos que pagar esse tempo, 5€ pelo café e ficamos sem almoço.
Havendo outro tasco próximo em que o patrão é muito mau e obriga a tirar o café em 15s então, podemos pagar 0.70€ por café e usar o restantes 4.30€ para comer um prego e uma cerveja.
Em concorrência, ou o patrão bom muda de estratégia ou muda de ramo porque ninguém irá lá.

No caso das empresas pública, os decisores têm por objectivo aumentar o número de votos que vão ter nas próximas eleições. Então, a governação das empresas pública é intrinsecamente deficiente porque os  incentivos são errados.

Fig.2 - Qualidade de vida é brisa de mar, mulher boa tapada com o mínimo possível e que vem para aqui!

O papel do Estado.
Quanto maior o papel do Estado, mais poder têm os governantes. Então, existe uma força para que o Estado aumente. Se algum pensador diz que o estado deve aumentar, automaticamente tem todas as mordomias. E depois é a lavagem a cérebro do povinho.
Lembram-se quando o Krugman dizia que Portugal deveria aumentar as obras públicas? Todos os dias havia um membro qualquer do governo do Sócrates, o caloteiro, que falava nele.
O Guterres conseguiu convencer o povinho que havia SCUTs. Que era possível fazer obras e ninguém pagar. Mas isto não é um problema dos esquerdistas. Também temos na Madeira o Alberto João exactamente igual.
Em termos internacionais temos despesistas de esquerda (o Obama e a Dilma) mas também de direita (o Berlusconi e o Sarkozy).

O financiamento do Estado
O Estado vai-se financiar pela cobrança de impostos e taxas; pelos direitos de senhoriagem e pelo endividamento;
Já tratei a cobrança de um imposto de transacções e o direito de senhoriagem sobre a emissão de moeda.
O Estado deve-se financiar pelo impostos já que o endividamento é empurrar o problema para a frente com a barriga. Se o Estado se endividar hoje, terá que cobrar mais impostos no futuro.
Apenas existe endividamento porque o povinho se deixa enganar.
Entre cobrar 1€ de impostos agora ou captar esse 1€ como dívida pública, o povinho tem a ilusão que o 1€ emprestado ao Estado é um activo.
Mas onde vai o Estado buscar esse dinheiro?  às pessoas que vão pagar esse 1€ mais os juros.

O endividamento monetarisado do Estado.
O sistema monetário já está lançado pelo missionário.
As pessoas têm saldos bancários positivos que se traduzem em saldos positivos no Banco Central que corresponde a despesa feita pelo Conde. Como as reservas compulsivas são 100%, cada euro que um cliente tem na sua conta foi um euro que o Conde gastou.
Vejamos a contabilidade "económica" do sistema bancário (omitindo o registo das 7 notas)

Banco 1
    "Conta 1.1,                       Saldo +1500X"
     ...
    "Conta 1.100,                   Saldo +2350X"
    "        Total do passivo                              +150000X"
    "        Total do activo, depósito no BC     -150000X"

Banco Central
    "Banco 1, Saldo +150000X"
    ....
    "Banco 8, saldo +250000X"
    "        Total do passivo                                           +500000X"
    "        Activo (Conde -> notas em circulação)       -500000X"


O controle da inflação com a divida monetarisada.
Na Negralhada, a despesa pública é financiada com o Imposto de Transacções mais os Direitos de Senhoriagem.
Quando o Banco Central detecta que os preços estão a diminuir, dá autorização ao Conde para gastar mais dinheiro e a despesa pública aumenta.
O problema é quando o BC detecta que os preços estão a aumentar, pede ao Conde para gastar menos dinheiro.
Mas o Conde alega que tem o Orçamento de Estado para dar cumprimento.
Alega ainda que  que foi democraticamente eleito não aceitando ordens do BC que é um funcionário seu.

A solução é aumentar os impostos.
Se o conde tem que gastar menos 1000X e não quer reduzir a despesa então, tem que aumentar os impostos em 1000X.
Mas o Conde alega que prometeu na campanha eleitora que não aumentava os impostos.

A taxa de juro.
As famílias produzem e poupam mais se a taxa de juro aumentar. Então, se o missionário remunerar o saldo das contas com uma taxa de juro, vai poder controlar a taxa de inflação mesmo sem o Conde repor o dinheiro que gastou nem aumentar os impostos.
Se a taxa de juro aumentar, haverá tendência para as pessoas consumirem menos aumentando o saldo das suas contas e vice-versa. Então, sendo fixa a quantidade de moeda, a taxa de juro consegue controlar a inflação.
Mas, por cada euro de aumento dos direitos de senhoriagem é menos um euro de despesa das famílias.
É o Crowding Out.

Modelo de controle da inflação com emissão de moeda e taxa de juro.
A única forma de controlar a inflação no longo prazo é pelo controle da quantidade de dinheiro na economia. O missionário, prevendo a taxa de crescimento da economia nos próximos anos, anuncia que vai emitir uma determinada quantidade de dinheiro todos os meses, fixa.
Depois, vai usar a taxa de juro para controlar os preços no dia a dia.
Se a taxa de juro for positiva, o saldo das contas será aumentado. Se a taxa de juro for negativa, o saldo das contas será diminuído.
Se a económica crescer 3%/ano então, a quantidade de dinheiro aumenta 3%/ano. Se os saldos bancários totalizam 33% do PIB, o missionário vai autorizar um aumento da massa monetária de 33%x3% = 0.99% do PIB. Esse dinheiro fica à disposição do Conde.
Em média, o missionário tem o mandato de manter a inflação e a taxa de juro em zero.
Exemplo de lançamento dos juros (0.1%) nos pessoas e na dívida pública
Banco 1
    "Conta 1.1,       Juros = 1500*0.1%,        Saldo +1501.5X"
     ...
 Banco Central
    ....
   "Activo (Conde - notas em circulação), Juros = -500000*0.1%,        Saldo = -500500X"

Notar que se houver tendência para o aumento de preços.
A quantidade de dinheiro deveria diminuir o que obrigava à diminuição da despesa pública ou ao aumento dos impostos.
Agora, ao subir a taxa de juro, a despesa pública pode-se manter sem aumentar os impostos mas vai aumentar as necessidade de financiamento do Estado no futuro (os juros). Por isso, no futuro será preciso uma acção mais restritiva para controlar a inflação (maior cortes na despesa pública ou maior aumento de impostos).

Como vai o missionário agora controlar a inflação.
Vamos supor que o missionário anunciou direitos de senhoriagem de 1% do PIB.
O missionário vai observar a taxa de juro e o nível de preços médios do mês anterior.
Controle de longo prazo:
Se a taxa de juro e a inflação forem maiores que 0% (que são o seu objectivo), o missionário anuncia que daqui a 12 meses a emissão de dinheiro vai ser reduzida (por exemplo, para 0.95% do PIB)
Controle de curto prazo:
Se a inflação for maior que 0% (que é o seu objectivo), anuncia que a taxa de juro do mês vai aumentar (por exemplo, +0.1 pontos percentuais).
E vice-versa.

E se não actuar o ajustamento de longo prazo?
Se o Conde se quiser continuar a financiar com emissão de dinheiro (em vez de aumentar os impostos), a taxa de juro vai ter que aumentar de ano para ano até se tornar insustentável e o sistema rebentar.
É a técnica da "D. Branca" e que levar à hiper-inflação.

Fig. 3 - Evolução da taxa de juro 10Y na "crise de dívida soberana" europeia
(fonte: bloomberg)

Nessa altura, as pessoas perdem as suas poupanças.
Se o saldo eram 50000X e a inflação for de 3500%/ano, ao fim do ano o poder de compra do dinheiro poupado fica reduz a 1430X.
É uma expropriação de 97% das poupanças das famílias.
Aparentemente o Estado cobrou menos impostos mas, de repente, expropria a poupança toda de uma vez só. Quem não poupou, não vai pagar.

O risco de inflação é um grande desincentivo à poupança.
Se os agentes económicos anteciparem que o Estado não quer diminuir o seu endividamento (monetarisado), o que pode ser observado na evolução da taxa de juro, sabem que as suas poupanças vão ser expropriadas pela desvalorização. Então, de repente, a taxa de juro dispara e o Estado deixa imediatamente de poder endividar-se mais.
É a bancarrota ou, se a dívida estiver monetarizada, a hiper-inflação.

Tenho ainda que falar da compra da EDP mas vai ter que ficar para outro post.

Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

Anónimo disse...

eu tenho uma duvido sobre o sistema moneterio que vi num documentario e fiquei a pensar nisso.
a questao que foi levantada é que as dividas seriam por definiçao impossiveis de serem pagas visto que se o banco central é a unica entidade que faz dinheiro e que em seguida empresta esse dinheiro a bancos comerciais com uma taxa de juro, vamos imaginar que esse banco central criou 100 euros e emprestou a uma taxa de 10porcento.
podemos concluir que os bancos ficariam a dever 110 euros mas so existe no mercado 100 euros , onde é que podemos buscar os outros 10 euros só se fossem criados pelo bc, mas continuariamos a dever dinheiro.........

outra duvida é sobre as dividas externas dos paises que ao que julgo saber sao a soma da publica mais a privada, no ranking da divida externa o mundo deve 52 mil mil milhoes a minha pergunta é a quem se até a china está neste ranking e também tem divida externa

Gonçalo disse...

Caro Anónimo,
Como leigo que sou, corro o risco de estar enganado, mas o BC NÃO faz dinheiro! O que faz é notas e moedas. O dinheiro é feito pelo agricultor que produz 1 kg de cenouras por dia. É esse kg de cenouras que é dinheiro. As moedas e as notas apenas facilitam a troca desse kg de cenouras por outra coisa, umas meias, por exemplo, nada mais.

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