sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A EDP e os chinocas

A valores de mercado, os 21.35% da EDP que os chinocas nos compraram valem 1930M€ (2.39€/acção) e os chinocas pagaram 2690M€ (3.40€/acção). Com este diferencial de preço (+40%), o Passos não podia fazer nada mais que não fosse vender a EDP aos chinocas.
Além do mais este negócio já tinha sido assinado em Dezembro de 2010 na viagem que o Ministro das Finanças Teixeira dos Santos fez à China (fonte: anónima).

Vou agora identificar as oportunidades e ameaças deste negócio.

O Comércio Internacional.
Actualmente nenhum país pode viver isolado. Portugal precisa obrigatoriamente de importar energia (petróleo, gás natural e carvão), alimentos (cereais e rações para animais), matérias-primas (peles, algodão, tecidos, aços especiais, fosfato e minerais diversos) e máquinas & ferramentas sofisticadas.
Depois, temos que produzir alguma coisa para exportar de forma a poder pagar estas importações.
Nos últimos anos uma fatia muito grande das nossas importações (cerca de 20%, 17MM€/ano) fica para calote.
O dinheirinho da EDP vai dar para 2 mesinhos pelo que, pelo lado financeiro, não dá para grande coisa.

Fig. 1 - From China with love

A divisão internacional do trabalho
Ninguém nos empresta mais dinheiro.
Apesar de haver quem pense que a limitação das importações (voltar à agricultura e a andar de burro) pela imposição de  barreiras alfandegarias é a solução, no final isso levaria a uma quebra muito grande no nosso nível de vida.
O Comércio Internacional é um factor de progresso porque permite que cada pessoa (ou país) se especialize naquilo que é mais capazes de fazer.
Por exemplo, seria um erro tremendo Portugal produzir bananas ou ananazes em estufa quando nos países tropicais estes produtos se cultivam em campo aberto.
E não existem alternativas para substituir a energia e os alimentos que importamos.
É o comércio internacional que permite a viabilidade dos países pequenos, logo, permite vivermos em paz.


PaísPerc.PaísPerc.
 Espanha26,6% Brasil1,2%
 Alemanha13,0% EFTA1,1%
 França11,8% México1,1%
 Reino Unido5,5% Cabo Verde0,7%
 Angola5,2% China0,6%
 Países Baixos3,8% Moçambique0,4%
 Itália3,8% Rússia0,3%
 EUA3,6% Hong-Kong0,3%
 Bélgica2,9% Índia0,2%
Quadro 1 - Exportações portuguesas por destino, % do total, 2011 (fonte: INE)


Desde Janeiro de 2010 que ninguém nos quer emprestar dinheiro. 
Como, no curto prazo, não conseguimos equilibrar as nossas contas com o exterior e o Sócrates, o caloteiro diz que pagar as dívidas é uma brincadeira de crianças, mais ninguém nos empresta dinheiro.
Então, temos que vender os nossos activos. A brincar a brincar temos que vender tudo aos estrangeiros.
Os países governados exactamente da forma contrária ao que defende e praticou o Sócrates (que, no fim, classifica Portugal como "um país pequeno"), os que têm uma Balança Corrente positiva, são os que têm dinheiro para nos comprar os activos. Vejamos quem são:

 País BC(med)BC(2010) País BC(med)BC(2010)
 Japan9,6810,69 Sweden1,141,19
 China6,229,96 Iran0,960,96
 Germany4,677,06 Korea, Rep.0,921,32
 Saudi Arabia2,192,36 Malaysia0,901,01
 Russia1,841,17 Kuwait0,870,87
 Switzerland1,792,56 Venezuela0,780,35
 Norway1,591,45 Algeria0,710,71
 Singapore1,412,33 Libya0,550,55
 Netherlands1,321,74 Nigeria0,490,07
 Hong Kong1,140,93 Argentina0,480,22
Quadro 2 - Balança Corrente média (2000-2010) e de 2010 dos 20 países e regiões mais superavitários(fonte: Banco Mundial, mil milhões de euros por mês)

E a EDP não se iria conseguir financiar.
A EDP está estrangulada pela dívida. A prazo as empresas vão pagar a taxa de juro da República que é de 13%/ano (fonte: bloomberg)
Apesar da EDP tem em 2011 um lucro de 1200 milhões de euros sendo os custos financeiros de 1140milhões€.
Mas tem um de passivo consolidado de 29 mil milhões de Euros (Fonte: EDP).
Em 2011 os custos financeiros têm implícita uma taxa de juro de 3.93%/ano mas, se em média a taxa de juro subir para 6%/ano, a rentabilidade da EDP diminui para metade. Agora imaginemos que tinha que pagar 13%/ano: passava a ter um prejuízo de 1400M€/ano.
Já sei que muita gente diz que à EDP nunca seria exigida uma taxa de juro de 13%/ano. Mas também ouvi muita gente dizer, há um ano, que taxa de juro da dívida pública português nunca passaria os 7%/ano e já vai nos 13.5%/ano e sempre a subir.


Fig. 2 - A EDP está estrangulada pela dívida

A China mais o Japão e a Alemanha geram metade do superávite da corrente mundial.
 A China (juntamente com Macau e Hong Kong) é quem tem mais dinheiro no Mundo para investir no exterior tendo gerado em 2010 um superávite corrente de 150 mil milhões de euros.
O Japão também tem muito dinheiro mas não quer nada connosco. Tem investimentos directos muito importantes em Portugal (por exemplo, a Toyota) mas actualmente os destinos do investimento japonês são o tradicional EUA e a China.
A Alemanha tem dinheiro e mostrou vontade em adquirir a EDP. É o segundo destino mais importante das nossas exportações.
Dos restantes países com dinheiro (mas que têm bastante menos dinheiro que estes 3), mais nenhum mostra qualquer interesse por Portugal.

O objectivo da China e da Alemanha são antagónicos.
A China é tecnologicamente bastante mais atrasada que Portugal e precisa de tecnologia.
Em termos de electricidade o seu consumo total é 75 vezes o consumo português e aumenta 12%/ano o correspondente a instalar 8 redes eléctrica portuguesa cada ano. (Fonte: Banco Mundial).
A China pretende vir buscar tecnologia à Europa, via EDP. Na construção de centrais termoeléctricas, na gestão da rede, na construção de transformadores, etc.
A Alemanha é tecnologicamente mais avançada que Portugal e  pretendia exportar tecnologia. Faz aerogeradores que pretendia fornecer aos clientes da EDP por esse mundo fora.
O dinheiro vem do saldo comercial da China que tem um superávite (para a China) de 100 milhões€ por mês (fonte: INE). A minha fonte anónima referiu que no acordo (secreto) assinado em Dezembro 2010, a China comprometeu-se a investir o seu saldo comercial em Portugal. Assim, os 2700M€ resultam do défice comercial acumulado entre Janeiro de 2010 e Dezembro de 2011 e não de dinheiro que a China tenha ido buscar a algum lado para investir em Portugal.
Como Portugal não tem dinheiro para pagar as importações, entrega os activos.

E o Brasil?
Era uma proposta sem interesse nenhum para Portugal.
O Brasil Está a caminho da falência. Tem um défice corrente médio no período 2000-2010 de 388 milhões€ por mês e, em 2010, um défice de 1250 milhões€ por mês (fonte: Banco Mundial).
A proposta de compra da EDP pelo Brasil era uma vaidade pois, para realizar a operação, teriam que pedir o dinheiro emprestado à China.
Isso não fazia qualquer sentido.
Amigo, amigos, negócios à parte.

E
Seriam sempre os chinocas a ganhar porque o negócio já tinha sido fechado em Dezembro 2010. Era só uma questão de preço.


As ameaças - A EDP servir objectivos políticos
Olhando para a estrutura accionista da EDP (ver quadro 3), se os chinocas entrassem no mercado com "empresas de fachada" atingiriam rapidamente os 40% do capital da EDP abaixo do preço que pagaram.
Atendendo a que o acordo está assinado há bastante tempo, como os chinocas pagaram 3.40€/acção, se estivessem a comprar no mercado veríamos a cotação subido até aos 3.40€/acção (ver, fig. 3) e os volumes de negócios a aumentar (ver fig. 4).

Fig. 3 -Evolução da cotação da EDP, Jun2010-Dez2011 (fonte: Bolsa PT) 

Fig. 4 -Evolução da liquidez da EDP relativamente à média, Jun2010-Dez2011 (fonte: Bolsa PT) 

De facto a cotação da EDP não ter subido traduz que o chinocas estão a respeitar o acordado o que indica que, muito provavelmente, estão no negócio com um objectivo estritamente económico e com um comportamento totalmente ético. Só vão comprar quando forem autorizados a fazê-lo.
Acredito, temos que acreditar, que procuram uma parceria justa.


 Detentor
Percentagem
 Chinocas21,35%
 Iberdrola Energia S.A.U.6,79%
 Caja de Ahorros de Asturias5,01%
 José de Mello - SGPS4,82%
 Senfora SARL4,06%
 Parpública3,70%
 BCP + FUNDO DE PENSÕES3,37%
 Norges Bank2,76%
 Sonatrach2,23%
 Bancao Espírito Santo, S.A.2,12%
 Qatar Holding LLC2,02%
 Caixa Geral de Depósitos0,61%
 EDP (Acções próprias)0,87%
 Restantes Accionistas40,28%

Quadro 3 - Estrutura accionista da EDP (fonte: EDP)


Quais as oportunidades - O mercado asiático.
Comparando as exportações portuguesas com as importações totais dos países, a China é o 3.º país do Mundo que mais importa (6.0% do total) e com uma taxa média de crescimento das importações, 2000-2010, acima dos 15% por ano.

PaísExport. PortuguesasImport. TotalCrescimento
 USA3,6%16,5%2,4%
 Alemanha13,0%7,4%4,1%
 China0,6%6,0%15,8%
 Reino Unido5,5%5,1%2,8%
 Japão0,30%4,9%1,8%
 França11,8%4,1%2,4%
 Itália3,8%3,0%1,0%
 Países Baixos3,8%2,8%3,4%
 Coreia0,1%2,7%7,3%
 Taiwan0,1%2,5%*17,5%*
 Espanha26,6%2,3%2,9%
 México1,1%2,2%4,2%
 Bélgica2,9%1,9%2,3%
 Rússia0,3%1,4%13,4%
 Índia0,2%1,3%13,7%
 Brasil1,2%0,9%7,9%
Quadro 4 - Exportações portuguesas e mercados potenciais (fonte: Banco Mundial, INE e * tradingeconomics)

Além da sua importância individual, a China está-se a tornar o centro do comércio entre os países asiáticos que são o destino de 1.3% das nossas exportações mas que representam 14.3% das importações mundiais.
Mas para aproveitarmos essa oportunidade temos que alterar a forma de ver as relações comerciais.

É preciso fazer uma ZEE - Zona Económica Especial
Tal como a Europa criou Singapura, Macau ou Hong-Kong, Portugal tem a oportunidade de criar uma Zona Económica Especial.
A Zona Franca da Madeira - Caniçal é um descampado onde não há nada. Tanto quanto se vê do satélite,  tem duas dúzias pavilhões com meia dúzia de carros à porta.

Fig. 5 - Zona Franca da Madeira - Caniçal (fonte: Google Earth)

Se nos orgulhamos de termos criado Macau como um pedaço da Europa na China, agora está na hora de criarmos Sines como um pedaço da China na Europa.
O Porto de Sines é um recurso natural  que está muito desaproveitado e que não se vê que destino dar àquilo.
Com o piscar do olho da China, toda a zona pode ser rentabilizada criando-se uma Zona Económica Especial sob administração conjunta sino-portuguesa.


Fig. 6 - Zona Económica Especial de Sines

Começa-se por uma Carta Constitucional.
No qual, à semelhança de Hong Kong, é dado o primado à liberdade económica.
Em termos de governação, a ZEE fica com uma assembleia legislativa formada por 10 pessoas nomeadas pelo governo português, 10 pelo governo chinês e 10 eleitas por voto universal dos indivíduos com autorização de residência na ZEE.
Depois, o governador é eleito pela assembleia legislativa.
As leis ordinárias são da responsabilidade da ZEE sob respeito da Carta Constitucional.
Uma das grandes condições para o sucesso é a ZEE ter autonomia para dar residência a quem quiser.
Comparando com Macau, a ZEE de Sines pode atingir rapidamente os 500 mil residentes e transformar-se no motor da economia portuguesa.

Assim podemos aproveitar a enorme oportunidade que representa a China ter olhado para nós.
É a oportunidade de provarmos ao Mundo que Macau não foi um acidente mesquinho da História. Que os portugueses são mesmo universalistas.
E tirarmos bons lucros disso.

Pedro Cosme Costa Vieira

5 comentários:

andreibarça disse...

Nossa o Brasil está mesmo a caminho da falência,mas a mídia aqui acha que o Brasil vai poder competir com Eua e Japão futuramente.
Pedro como você acha que vai ser o futuro da economia mundial?A China vai passar a ser a maior economia em quantos anos?A Russia vai ser uma potência ou o fato de depender do petróleo pode prejudicar sua economia?e dos países da zona do euro qual tem mais chance de sair da crise primeiro?
Quando você puder gostaria de ver um post sobre a economia da Russia!

Económico-Financeiro disse...

Estimado Andrei,
Dizerem-nos que estamos obesos é bom porque podemos mudar de vida.
Já estou há uns dias a trabalhar na Rússia.
Bom ano,
pc

Anónimo disse...

Chinoca é um termo depreciativo, pelo que se esperava que docentes universitários tivessem mais respeito e educação por terceiros.

Quem trata os outros dessa forma, não tem moral para exprimir nenhuma opinião. Bastaria referirem-se aos mesmos pelo nome da respectiva empresa ou "chineses".

Económico-Financeiro disse...

Estimado Anónimo, o que usa é uma técnica de retórica. Tem que ler o poste que escrevi sobre isso.
"Teorias inconsistentes; concentração nos pormenores; Ataque às intenções"

As minhas opiniões baseiam-se na minha mente e não na moral de ninguém.

Viva a liberdade de expressão.

pc

McMan disse...

Não tem nada a haver com o tema em análise (EDP e a China), mas é um assunto que talvez lhe interesse: a bolha imobiliária na China. Veja o vídeo em http://www.youtube.com/embed/2yL7t0j_4tQ

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