sexta-feira, 23 de dezembro de 2011

Porque é que a taxa de juro equilibra a economia

Existem 4 grandes variáveis macroeconómicas que equilibram a economia de um país.

Os salários, a taxa de juro, a taxa de câmbio e a emigração. 
Estas variáveis são determinadas pelas forças de mercado não sendo intrumentos de política.
No entanto, os governos podem prejudicar (ou favorecer) a forma como estas variáveis ajustam a economia, por exemplo, proibindo a descida dos salários nominais.

Dos Salários já falei. Ao baixar os salários, por um lado, é mais rentável para o empregador contratar mais pessoas e, por outro lado, menos pessoas querem trabalhar. Então, havendo desemprego, o salário tem que diminuir e, havendo falta de trabalhadores, o salário tem que aumentar.

Fig. 1 - A flexibilidade do mercado de trabalho é muito importante

Hoje vou falar da taxa de juro.

O Robim.
O Robim é um araucano que tem um pouco de terra onde cultiva milho, batata, feijão e hortaliças diversas. Tem ainda umas lamas que pastoreia no monte. A terra mais as lamas são o seu capital produtivo, K.
O Robim trabalha N horas por semana, parte do tempo na terra e parte no pastoreio das lamas.
Leva uma vida simples que vai permitir explicar como a taxa de juro equilibra a economia face ao exterior.

A produção
Com o seu trabalho e o capital, o Robim atinge um determinado nível de produção, Y.
Se o Robin tivesse mais terreno ou mais lamas, com o mesmo trabalho produziria mais.
Se o Robin trabalhasse mais horas, com o mesmo capital também produziria mais.
    Y = a.K + (1 - a).N,  com 0 < a < 1

A poupança
A produção vai ter como destino o consumo, C, mais a poupança, S.
    Y = C + S
Agora vou explicar as variáveis que afectam a Poupança e, simetricamente, o Consumo.


O risco.
Se vier frio, muita chuva ou seca, com o mesmo capital e o mesmo trabalho, a produção do Robim será menor. Para fazer face a este risco, o Robim poupa para consumir quando acontecer uma "crise económica".
Se o risco aumentar, o Robim poupa mais e consume menos.

A taxa de crescimento da economia.
O Robim sabe que daqui a uns anos vai perder capacidade de trabalho, produzindo menos. Então, o Robim tem um incentivo a poupar no presente para ter o que consumir no futuro.
Se o Robim antecipar que vai produzir mais no futuro então, poupa menos no presente.
Se a taxa de crescimento for maior, o Robim irá poupar menos e consumir mais.

A taxa de juro.
A taxa de juro traduz quanto o Robim vai receber a mais no futuro pelo que poupa no presente.
Se o Robim poupar S, para uma taxa de juro R, no futuro vai consumir S.(1 + R).
Se a taxa de juro aumentar, o Robim irá poupar mais e consumir menos.

O desequilíbrio da economia face ao exterior.
A economia está sempre em equilíbrio. A questão está apenas na definição de equilíbrio.
No caso do Robim, a produção, Y, é sempre igual ao consumo, C, mais a poupança, S.
     Y = C + S
A poupança vai ser usada em Investimento, I, Variação de stocks, vS e Empréstimos Correntes ao exterior, a Balança Corrente, BC.
      S = I + vS  + BC
O investimento diminui com a taxa de juro.

A economia está desequilibrada quando a Balança Corrente, BC, está desequilibrada
Quando existe défice na Balança corrente, a economia endivida-se face ao exterior o que implica, no futuro, pagar juros e amortizar a dívida.

A procura interna.
É dada pelo Consumo mais o Investimento mais a variação dos stocks.
      PI = C + I + vS
Como, já referi, o Consumo, o Investimento e os Stocks diminuem com o aumento da taxa de juro, pelo que a Procura Interna, PI, é decrescente com a taxa de juro.
Podemos agora representar num gráfico em que sentido vai evoluir a taxa de juro para equilibrar um défice na Balança Corrente.

1. O "mercado de trabalho" é flexível.
Como a taxa de juro traduz quanto o Robim vai receber a mais no futuro pelo que poupa no presente.
Se o Robim trabalhar hoje N, para uma taxa de juro R, é equivalente a trabalhar no Futuro N.(1 + R).
Então, se o Robim trabalhar mais no presente poderá trabalhar menos no futuro.
Se a taxa de juro aumentar, o Robim vai trabalha mais e a produção vai aumentar.
Como a quantidade de capital é fixa então, a produção por cada hora diminui o que traduz o salário do Robim.
Se a taxa de juro aumentar, o salário por hora diminui mas o salário total aumenta.

A taxa de juro sobe, a produção sobe e a procura interna diminui.
 
Fig. 2 - A Balança Corrente e a taxa de juro com salários flexiveis.

Esta é a razão porque as economias da Zona Euro que têm Défice Corrente elevado pagam taxas de juro elevadas e os países que têm Superávite Corrente pagam taxas de juro baixas.
É  Taxa de Juro a corrigir a BC.

2. O "mercado de trabalho" é inflexível.
O Robim vai querer trabalhar mais mas, como é menos produtivo na horas que quer trabalhar e o salário é fixo então, não vai poder trabalhar mais.
Desta forma, a produção não vai aumentar quando a taxa de juro aumenta.

A taxa de juro sobe muito mais, a produção mantém-se e a procura interna diminui muito mais.

Fig. 3 - A Balança Corrente e a taxa de juro com salários inflexiveis.

Se o salário não poder diminuir, a produção mantém-se constante pelo que a taxa de juro tem que subir muito mais e a procura interna diminuir muito mais para a economia conseguir corriger o défice na Balança Corrente.
Esta é a razão porque a troika pede que Portugal flexibilize o mercado de trabalho.
Parace ser negativo que os salários possam diminuir em termos nominais, que os horaríos possam mudar sem acordo do trabalhador, que se obriguem os trabalhadores a mudar de ocupação. Mas essa flexibilidade permitirá que não se use apenas a taxa de juro para equilibrar a economia face ao exterior.
Permitindo o governo a descida dos salários nominais, a crise será muito menos profunda e as taxas de juro diminuirão.

Fig. 4 - Obrigado

Agradeço em meu nome e do meu amigo Pedro Araujo a todas as pessoas que contribuiram para atingirmos 150000 visitas. Dá muito trabalho manter o blog semrpe vivo que apenas faz sentido se os amigos continuarem a ler e a passar o endereço aos vossos amigos.
Prometemos trabalhar para, na medida da nossa capacidade, enriquecer o vosso conhecimento.
Peço desculpa pelas gralhas.

Pedro Cosme Costa Vieira

6 comentários:

Anónimo disse...

Mesmo antes de ler o artigo todo, em relação á fig.1, se não houver formação e gosto em fazer o trabalho bem feito nem mesmo toda aquela flexibilidade nos trará o reconhecimento de especialista na matéria.

McMan disse...

Bolas... já alguém se antecipou a mim a fazer um comentário acerca da fig. 1 antes de ler o post... bem, mas aqui vai: era só para dizer que de facto, a flexibilidade, além de ser importante, é também uma coisa MUITO BOA e certamente são poucos os que têm a sorte de se entranharem nela... eu pelo menos nunca tive essa sorte... admito talvez que seja por falta de arte, ou então devido ao local onde resido a oferta ser muito escassa... (obs.: é claro q me refiro à flexibilidade do mercado de trabalho...)

andreibarça disse...

Pedro,gostaria de saber de você,o que acha da notícia de que o Brasil ja vai ser a sexta maior economia?e você acha que o Brasil chega a ser a quinta maior economia em pouco tempo?
leio sempre seus posts,continue postando gosto muito deles!

Económico-Financeiro disse...

Estimado Andrei,

Obrigado por ser meu leitor.

No meu post sobre o Brasil, já considero o Brasil como a 5.a potência economica mundial.
Mas tem, a longo prazo, alguns problemas:
1. A poupança é muito pequena.
2. As contas externas estão-se a desequilibrar.
3. O governo brasileiro já está a viver do pré-sal. A subida do SM em 14% é um sintoma.

E isso é como dizer, sendo manco, que jogo bem futebol porque sou sócio do Corinthias.

Para o cidadão comum, o importante é o rendimento per capita, ppp.
Há muitos países onde é pior viver, mas a situação brasileira não é boa. Está apenas na média mundial e com crescimento menor que a média.

O Brasil tem um PIBpc, ppp, de 9438USD/ano ficando com 76 países acima dele. Vive-se pior no Brasil que, por exemplo, na Venezuela, Irão, Roménia, Guiné Equatorial, Rússia, Gabão, Uruguai ou Bielorussia.

Para que o nível de vida no Brasil se equipare ao da UE, será preciso crescer mais 2.5%/ano que a UE até 2055. Mas nos últimos 10 anos cresceu apenas + 1.5%.

Pertencermos a um colectivo forte é importante para a nossa autoestima mas não é suficiente.

Podemos ter fé na Nossa Senhora da Aparecida, mas, a meio do mês, o dinheiro já acabou.

pc

Anónimo disse...

vou fazer queixa ao sapoia :/

andreibarça disse...

Pedro,estou com mais uma curiosidade na cabeça,gostaria de saber se você acha que a Russia será uma potência nos próximos anos?ou a dependência do petroléo pode afetar a economia da Russia?

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code