sábado, 17 de dezembro de 2011

Que ciência têm estes ministros? Cortar, cortar, cortar

Passamos do corta-fitas das inaugurações para o corta-tudo da austeridade+austeridade=austeridade


“Que ciência têm estes ministros, alguns deles doutorados, que assumem a pasta e limitam-se a cortar na ‘pasta’ dos portugueses para resolver todos os problemas?”, questionava-me noutro dia um primo. Isso fez-me nascer na mente um diálogo imaginário. -“Sabes, mulher, eu era administrador até ontem, mas agora só me querem lá para porteiro”. –“Bom, marido, o melhor é mudar para uma casa mais pequena e vender os carros”, responde a esposa austera. –“Mas, mas… eu tinha pensado em manter-me no activo naquele tipo de emprego, procurar alternativas, eu afinal já dei provas que sou bom. Já estive como administrador de outras empresas, sei criar riqueza. Lá porque um administrador da banca como o Horta Osório quebrou, como vês ele não desistiu. Lá por que o Armando Vara foi corrido da administração do BCP, ele não foi logo para porteiro de discoteca”.

Portugal está nesta encruzilhada de hesitações, de conformismos, de falta de coragem. Os mais rígidos  conservadores dirão que tudo é muito simples: quem não tem não gasta, corta a direito. Se os cortes não são suficientes, corta-se ainda mais. Até onde? Isso não interessa: cortar, cortar e cortar. Trabalho, trabalho e trabalho. O meu primo tem razão sobre os ministros. Qualquer ignorante corta a direito, nem que precise de um técnico de contas para não fazer disparates grosseiros e deixar de haver dinheiro para colocar em funcionamento urgências hospitalares ou pagar aos polícias para manter o povo em sentido. Mas, de facto, não é nada de transcendente.

O que falta então? Falta ciência para fazer ajustamentos sem matar a economia, isto é, evitar uma escalada desenfreada do desemprego, da emigração (sobretudo de gente mais qualificada), da fuga de investimento (Nissan cancelou fábrica de baterias eléctricas em Aveiro por que motivo?), entre outros sintomas. O conselho de ministros deste domingo vai fazer uma viragem no discurso e na actuação? Temos de esperar para ver, mas o governo sabe que tem pelo menos uma pequena ferramenta interessante na mão: os 3300 milhões de euros do pacote que totaliza 6000 milhões do fundo de pensões da banca. Aqueles 3300 milhões ajudarão a pagar dívidas do Estado à banca e a fornecedores. Quando a troika achou engraçado aplicar uma descida colossal da taxa social única, o que disseram banqueiros e empresários? Mais valia o Estado pagar o que deve e, desse modo, injectar dinheiro na economia. Alguns dos que assim falaram nem doutoramentos possuem, mas lá chegaram a este raciocínio linear.

E este aspecto dos fundos de pensões da banca é importante: são inúteis os argumentos ou raciocínios que apontam no sentido de “afinal a austeridade não era necessária porque o défice de 2011 até vai ficar em 4,5% e não em 5,9%”. Era necessária, sim, esta austeridade nesta altura porque esse dinheiro vai ser útil à economia se a troika nos autorizar a fazê-lo, quando nos vier visitar em Fevereiro. O que algumas pessoas, vistas actualmente como irrealistas, argumentam é que austeridade pura não nos valerá de muito. É como propor a alguém casamento sem ter meios de sustento. Falar não custa e cortar é fácil. Ir além do simples corte exige algo mais. Um administrador que perca o emprego pode optar pela via mais fácil: vai para porteiro e conforma-se para todo o sempre. É desta atitude conformista que precisamos?  Ou será que  teríamos mais admiração por ele se, até mesmo aceitando ser porteiro, nunca deixasse de lutar por algo melhor?

António José Seguro diz que Passos Coelho
está apaixonado pela austeridade

Se bem que o líder da oposição, António José Seguro, vá longe demais nos seus devaneios sobre a possibilidade de Portugal ser o motor diplomático na Europa de uma nova política económica, que vá além da “austeride+austeridade=austeridade”, o que o secretário-geral do PS está a fazer é explorar um filão argumentativo que lhe poderá trazer frutos políticos no futuro. O que o actual governo se arrisca a fazer, por seu lado, é alcançar todas as metas do défice estabelecidas com os nossos credores (a troika), mas com um efeito perverso para o país. O resultado pode ser considerado artificial (artifícios contabilísticos como os fundos de pensões e aumentos brutais dos impostos correntes e extraordinários) e sem sustentabilidade no médio e longo prazos. Pode ser desastroso chegarmos a 2015 com um défice estrutural (expurgado de medidas conjunturais) de 0,5%, mas sem uma economia (privada) dinâmica, sem os melhores quadros a trabalhar no país e com um Estado ainda demasiado obeso. Esse risco é bem real.

Ouvia, ontem, na SIC Notícias, José Ferreira Machado, reputado economista e director da Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Nova de Lisboa, relativizar a própria Autoeuropa. Dizia ele que ainda está por estudar o verdadeiro impacto deste tipo de investimentos, até tendo em conta os múltiplos e sucessivos benefícios fiscais dados a estas multinacionais. O que preocupa mais Ferreira Machado é o tecido empresarial português no seu conjunto. Ele prefere que este seja sólido, que produza riqueza de forma perene. E a nossa incapacidade de gerar riqueza está provada. Preferimos esperar que o dinheiro chegue do exterior, fundamentalmente por três vias: 1. Investimento directo estrangeiro; 2. Fundos comunitários (a festa do final dos anos 80 e anos 90 acabou-se); 3. Empréstimos externos (a troco de políticas austeras q.b.). Será a partir deste conselho de ministros dominical que vamos ser abençoados com ministros que já não se contentam só com o corte, por muito necessário que poupar e racionalizar seja para o bem comum?

Pedro Palha Araújo

2 comentários:

jama disse...

O Pedro Palha refere que "Alguns dos que assim falaram nem doutoramentos possuem, mas lá chegaram a este raciocínio linear." Através do teor desta frase fico com a dúvida se o Pedro está a falar de "doutoramentos", quando pretenderia referir-se a "licenciaturas", e com a certeza de que está a confundir capacidades com títulos académicos. Sabe que a esmagadora maioria dos nossos gestores de sucesso nem sequer tiveram sequer frequência universitária? Eu compreendo que isso o choque, tal como eu fiquei chocado quando, faz agora 24 anos, a pessoa responsável pelo meu estágio profissional, ao ver a reverência que eu tinha para com os profesores universitários, me disse: "os professores universitários só são alguém perante quem não é ninguém: os alunos". Tudo isto para lhe dizer que os empresários não licenciados não enfermam de qualquer capitis diminutio para o exercício da gestão, e muito menos para emitirem opiniões sobre temas como os que refere.

Económico-Financeiro disse...

Caro Jama,

1)Como eu estou no meio entre a licenciatura e o doutoramento (mestrado), conheço o que fica acima e abaixo em termos académicos. Três exemplos no governo: o ministro das Finanças e da Economia/Trabalho/Transportes e etc é doutorado. O Ministro da Educação e Ciência é doutorado. Se pesquisar bem no site do governo, há secretários de Estado doutorados.

2) Não há qualquer confusão entre títulos académicos e competências. Por vezes, coincidem, mas muitas vezes não. Nem eu nem o meu primo temos dúvidas sobre isso.

3) Como já fui professor numa Faculdade de Economia, mas desenvolvi mais a minha carreira no mundo real das empresas, não tenho dúvidas sobre a matéria em apreço. Tenho inclusive vários familiares que são catedráticos (não não estou a confundir catedrático com doutorado nem com outro qualquer conceito.

4) Em suma, estamos de acordo no essencial.

PPA

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