sábado, 17 de dezembro de 2011

Vou rebentar com os caluniadores do sistema das reservas fraccionadas

As contas à ordem e a multiplicação das notas em dinheiro.

Quando depositamos 100€ em notas numa conta à ordem num banco comercial fazemo-lo como se de um cofre se tratasse mas, de facto, o banco vai emprestar parte das nossas notas a outra pessoa.
Imaginando que o Banco Central obriga a que o banco comercial fique com um mínimo de 20% das Notas (denominadas Reservas Fraccionárias Compulsivas) então, os bancos comerciais podem conceder como crédito 80% das notas que depositamos na nossa conta à ordem.
A conta à ordem é um meio de pagamento via cheques, internet ou cartões de débito. Por isso, as contas à ordem são consideradas dinheiro.
Supondo que todo o crédito vai para novos depósitos à ordem então, se depositarmos 100€ em notas passará a haver 500€ de dinheiro na economia (meios de pagamento).

Se o Banco Central diminuir as reservas compulsivas para 10% então, o total dos saldos dos depósitos à ordem crescem para 1000€.

No entanto, continuam a existir apenas 100€ em notas.
Assim, na nossa mente temos que separar o dinheiro genérico (qualquer meio de pagamento) de notas e moedas (que é dinheiro materializado).
O dinheiro total será formado pelo dinheiro escritural (as contas à ordem) mais as Notas e Moedas.
O total de notas e moedas em circulação (a maior parte em reservas dos bancos comerciais) denomina-se por M0 e, somando-lhe os saldos das contas à ordem, temos o M1.

A maior parte de M0 são notas de 500€.
A maior parte das notas está nos bancos para fazerem os 20% de reservas das nossas contas à ordem. Aos bancos, pelo volume, não interessa ter lá notas de 5€. Desta forma, a maior parte do M0 são notas de 500€ que não traduz corrupção mas principalmente que as reservas dos bancos comerciais estão em notas grandes.

Fig 1. A minha quinhenta está no cofre do banco

Os meus colegas
Tenho pregado há muito que os bancos não criam moeda mas que apenas aumentam a velocidade de circulação das notas. A generalidade das pessoas diz logo que eu estou errado até porque eu não percebo nada do assunto.
Tendo eu como colega o mais brilhante aluno que alguma vez existiu na FEP, o RHA, e que ensina essa treta, eu quis experimentar a minha argumentação e ataquei:
- Os bancos comerciais não criam moeda ...
- Criam sim
- Não, apenas aumentam a velocidade de circulação da moeda.
Decorrido meio segundo disse:
  - OK, correcto, realmente é outra maneira de ver a questão.
Realmente é inteligente. Em meio segundo conseguiu abandonar toda a treta que lhe lavou o cérebro durante anos e viu a outra face do problema.

O problema que os esquerdistas identificam no sistema de reservas fraccionarias.
Pensam que, se não houver crédito, a quantidade de dinheiro na economia diminui e que isso implica uma diminuição da quantidade de riqueza criada pela economia. Isto é um duplo erro.

Primeiro. A quantidade de dinheiro na economia não diminui.
O Banco Central está continuamente a medir a quantidade de liquidez na economia. Mede continuamente o total de depósitos à ordem mais notas e moedas, o M1.
Sabendo que mais liquidez leva ao aumento dos preços (e vice-versa) o BC também mede continuamente a evolução da taxa de inflação.
Então, assim que o Banco Central detecta uma diminuição da liquidez na economia (via diminuição do M1 e inflação abaixo dos 2%), emite mais notas (e vice-versa).
O limite mínimo de reservas em notas apenas serve para tornar o sistema de preços estável. 

Segundo. Não existe qualquer ligação entre liquidez (dinheiro) e riqueza (PIB).
A liquidez serve para facilitar as trocas comerciais e ser reserva de valor. Por isso, a sua escassez prejudica a actividade económica. No entanto não tem qualquer papel no funcionamento do mercado de crédito ou na decisão de produção das empresas.
Vamos agora a uma simulação de um sistema financeiro para ver que o sistema de pagamentos não depende das reservas fraccionadas.

Fig 2. O único problema das reservas fraccionadas é que não tenho a minha quinhenta à mão

O Condado da Negralhada.
É uma pequena aldeia sem moeda no meio da Papua na qual vivem 1000 pessoas. Os negralhanos são governados pelo "Conde Sup i Papwa XII".
Certo dia foi lá parar um missionário meu conhecido.
Sabendo o Conde que o missionário me conhecia (tido na Negralhada como santo milagreiro) foi-lhe pedir um milagre.
- Sr. Missionário, temos um problema muito grave no nosso condado.
- Eu tenho batatas e quero comprar galinhas. Pego nas batatas e vou ao meu vizinho que tem galinhas e ele não mas vende porque quer milho que eu não tenho.
- O meu vizinho pega nas galinhas e vai ao nosso vizinho que tem milho e este não lho vende porque quer bananas que ele não tem.
- Isto acontece a toda a hora e impossibilita que a nossa economia funcione.
- Queremos que reze ao Santo Bloguista para que ele nos faça um milagre para resolver o problema.

Fig 3. O Conde e o filho põem uma bandeirinha na ponta do pau

O milagre dos preços
O missionário reuniu as pessoas e disse-lhes.
   - Vão-me dizer a relação de troca que usaram no último mês em todas as trocas que fizeram.
Disseram os negralhanos:
   - Troquei uma cabra por 10 galinhas,
   - Troquei 20 kilos de batatas por 11 kilos de milho
   ...
O missionário foi escrevendo no Excel e, usando a matriz das trocas, calculou os termos de troca médios relativamente às cabras. Depois atribuiu o preço de 100X à cabra média.
Imprimiu a lista com os preços médios e disse:

   - O primeiro milagre já aconteceu, são os preços em X.
  - A moeda está criada e chama-se X e esta lista são os preços médios de cada bem e serviço produzido no nosso condado. Estudem-nos e comecem-nos a praticar.
   - Podem cobrar qualquer preços mas estes são os que se costumam praticar. O preço de uma cabra média serão 100X podendo uma cabra gorda atingir 140X e o de uma cabra magra ficar nos 70X.

O milagre do Livro
O missionario pegou num livro e abriu uma conta em nome de cada um dos negralhanos com saldo zero.
    " 1,       Eu o missionario,               Saldo 0X"
    " 2,       Conde Sup i Papwa XII,    Saldo 0X"
    " 3,       Justino Lopes,                    Saldo 0X"
     ...         ...                                        ...
    " 1000, Maria da Morte,                Saldo 0X"
                             "Saldo Total          0X"

    - O segundo milagre já aconteceu, são as contas à ordem.
    - Quando o "34" quizer comprar uma galinha, vai ao seu vizinho "76" e paga-lhe 2X pela galinha.
    - Vem aqui e eu escrevo no livro:
   " 34,   pagamento ao 76 =  -2X,  Saldo -2X"
   " 76,   pagamento do 34 =  +2X, Saldo +2X"

Depois de realizar um movimento, o saldo total do livro mantém-se sempre zero.

Qual a quantidade de dinheiro que o missionário criou?
O saldo de todas as contas é zero e o missionário não tem qualquer nota. No entanto, o livro acabou de criar uma quantidade infinita de dinheiro (moeda escritural).
Confundido?
Como poderá ser?
É.
Como o saldo pode ficar negativo sem limite, existe capacidade de um negralhano comprar tudo o que se produz na Negralhada durante milhares de anos.

O milagre do limite da quantidade de dinheiro
É preciso limitar a liquidez na economia, a quantidade de dinheiro.
O missionario perguntou.
    - Quanto se produz em média durante um ano na Negralhada?
Lá disseram quantas cabras, batatas, milho, por ai fora e o missionário somou tudo e dividiu pela população da Negralhada e deu 3000X per capita por ano.
Então o missionário, sabendo que nos países de baixa inflação o M1 está entre 20% e 30% do PIB, limitou a quantidade de dinheiro a 25% do PIB anual, 750€/pessoa.
Como fazer isso?
    - O terceiro milagre já aconteceu, é o limite de liquidez.
    - O saldo de nenhuma conta pode ficar abaixo de -750X.
    - Se isso acontecer, esse negralhano deixa de poder realizar pagamentos.

O milagre da estabilidade dos preços
Os negralhanos pediram que houvesse estabilidade de preços.
    - Não queremos inflação. Será isso possível?
O missionário sabe que A inflação é um fenómeno puramente monetário. Que aumentando a liquidez, os preços aumentam e vice versa. Então disse:
    - O quarto milagre já aconteceu, é o controle da liquidez.
    - Mas têm que aceitar a seguinte regra: quando os preços tiverem tendência a aumentar, o saldo a descoberto tem que diminuir e vice versa.
    -Além disso, sempre que fizerem uma transacção têm que me dizer o preço e a quantidade transaccionada.
Como não existe INE na Negralhada para medir a inflação e o missionário tem mais que fazer, o preço e as quantidades permitem calcular a evolução da inflação. Se, por exemplo, os preços aumentarem 1%, o missionário corta o limite de descoberto em 1%.

As  reservas compulsivas são apenas um intrumento de controle da inflação
É equivalente ao limite do "saldo a descoberto" que o missionário usa na Negralhada.
Certo é que não é preciso o missionário ter reservas desde que mantenha um controle da liquidez.

Fig. 4 - Ainda está confuso?

Num próximo poste vou introduzir notas e moedas na economia.
Também vou introduzir no mercado vários bancos e veremos que um banco individual deixa de conseguir controlar a liquidez (a inflação). As reservas compulsivas vão funcionam como um mecanismo de coordenação entre os diversos bancos liderado pelo Banco Central. 

Pedro Cosme Costa Vieira

6 comentários:

Fernando Ferreira disse...

Ola Pedro,
li o seu artigo com muito interesse. Sei que o Pedro e' um academico, o que nao e' o meu caso, mas no entanto gostaria de partilhar algumas ideias sobre a reserva fraccionaria. O Pedro afirma que neste sistema os bancos comerciais nao criam moeda, apenas "aumentam a velocidade de circulacao das notas". E' evidente que os bancos comerciais nao conseguem criar notas e moedas (esse e' um monopolio do banco central), mas criam depositos a ordem o que tambem e' dinheiro, como o proprio Pedro o diz. Ha uma EXPANSAO da quantidade de dinheiro disponivel. Alias, no "manual de intrucoes" do FED sobre a reserva fraccionaria, Modern Money Mechanics, diz assim na introducao: "The purpose of this booklet is to describe the basic process of MONEY CREATION in a fractional reserve banking system". Eles proprios AFIRMAM que existem criacao de dinheiro, no sentido geral da definicao de dinheiro, nao necessariamente dinheiro fisico. De facto, apenas 3% do dinheiro em uso nos EUA existe na forma de papel, os restantes 97% sao apenas bits nos computadores. 1 de 3

Fernando Ferreira disse...

O Pedro diz no seu artigo: "Imaginando que o Banco Central obriga a que o banco comercial fique com um mínimo de 20% das Notas (denominadas Reservas Fraccionárias Compulsivas) então, os bancos comerciais podem conceder como crédito 80% das notas que depositamos na nossa conta à ordem." Para facilitar as contas vamos considerar que a reserva minima sao os 10% .Isto pode levar a concluir erradamente que, dos 100€ que foram depositados, os bancos emprestam 90€ (reservando 10€). O que eles fazem e' criar 90€ EM CIMA dos 100€, ficando assim com 190€ para emprestar. E' assim que a quantidade de dinheiro e' expandida. No Modern Money Mechanics diz mesmo: "Of course, they (os bancos) do not really pay out loans from the money they receive in deposits. If they did this, NO ADDITIONAL MONEY WOULD BE CREATED"...
Agora, se pensarmos em termos "multiplicadores" (alguem pede emprestado estes 190€, deposita-os no seu banco, este reserva 10% e assim sucessivamente), podemos concluir que dos 100€ inicialmente depositados, serao criados 9 vezes esse montante, ou seja 900€. So' posso concluir que existe, assim, CRIACAO DE DINHEIRO. Quem benificia com este sistema? No meu ponto de vista so' os governos e os proprios bancos comerciais, ja que podem cobrar mais juros por emprestarem dinheiros que nao lhes custou virtualmente nada a conseguir? Quem sera os mais prejudicados? O cidadao comum, ja que quando o "novo dinheiro" lhes chegar as maos, ja a inflaccao tera tomado conta dos precos. 2 de 3

Fernando Ferreira disse...

Agora quanto a "legitimidade" da existencia deste sistema. Alguns economistas no passado consideraram este sistema como fraudulento ja que os banqueiros garantiram (e ainda garantem) o accesso a totalidade do dinheiro depositado na conta do cliente. Mesmo hoje em dia, as pessoas continuam a pensar que se tem, digamos, 10.000€ depositados, podem, a qualquer altura, levantar o "seu" dinheiro. Sabemos que isto nao e' verdade. O banco so tem uma fraccao do dinheiro e os clientes "pensam" que o banco tem o dinheiro todo, pelo menos o seu. Outro argumento e' que este sistema e' piramidal, como um Ponzi Scheme. Outros argumentam que, na realidade, quando depositamos dinheiro num banco, o que estamos na realidade a fazer e' transferir a propriedade do dinheiro para o banco em troca uma IOU. Dai o facto que o banco paga juros aos clientes e nao o contrario, ja que teriam de ser os clientes a pagar ao banco pelos seus servicos de "cofre". Assim, a reserva fraccionaria ja nao seria fraudulenta, ja que o banco esta a usar o seu dinheiro para emprestar a juros e nao o dinheiro dos clientes. Existem muitas controversias acerca da legitimidade do sistema. De qualquer maneira, na minha visao de leigo no assunto, ja que nao tenho qualquer formacao na area economica, concluo que os bancos realmente criam dinheiro, ja que expandem a quantidade unitaria existente no mercado, numa determinada altura.
Cumprimentos. 3 de 3

Económico-Financeiro disse...

Estimado Fernando,

O que eu pretendo mostrar é que as mercearias criam dinheiro (liquidez) sem necessidade de haver notas na economia.

A questão não está nas reservas fraccionadas nem no crédito porque, se não houvesse "multiplicação da liquidez pelo credito", o BCE colocava mais notas em circulação. É essa a sua função.

Por isso, ninguém deve criar um romance policial com maus e bons à volta duma coisa sem qualquer importância. Um nado morto.

Os neo-comunas querem fazer crer que sem crédito a economia entrava em colapso. Isso é completamente falso.
É atacar as mentes fracas com uma argumentação falsa. É o bicho papão.
É o patronato, o grande capital, a exploração do trabalhor, os neo-liberais e as reservas fraccionadas que causaram a crise.

O Hitler dizia que eram os judeus.
O Salazar que eram os comunas.

Isso é para não aceitarmos que o problema somos nós. Começa em nós próprios que somos maus trabalhadores, maus pais, maus maridos, maus vizinhos, maus professores, maus alunos, maus bloguistas, maus e não nesses bichos papões.

Eu apresento, em alternativa, o livro da mercearia com saldo zero e restrição quantitativa ao saque que é exactamente igual às reservas fraccionadas mas ninguém vê mal no livro da mercearia.

A discussão não é se cria ou não cria dinheiro é onde está o bicho papão que os comunas dizem ser o responsáveis pela crise.

pc

Yoseph disse...

"É o patronato, o grande capital, a exploração do trabalhor, os neo-liberais e as reservas fraccionadas que causaram a crise." Correcto!!
Nunca poderiam ser os trabalhadores que apenas recebem pela venda do seu trabalho(apenas uma pequenina parte), e que se vão pedir dinheiro emprestado levam uma nega.
Não sei é porque é que usa o termo neo-comunas, visto que isto é marxismo. A respeito da parte onde cita esses dois fascistas, para se tentar justificar, é no mínimo uma enorme falácia lógica

Gonçalo disse...

Caro Yoseph,
Eu sou trabalhador, fui ao banco e obtive empréstimo para comprar uma casa e acredito que não fui o único!
As causas das crises não agrícolas, são fruto da ganância. Não interessa de quem for, porque todos o somos. Se tivermos possibilidade de ganhar $, não deixamos de o fazer. Por alguma razão as apostas no euro milhões aumentam na proporção do valor do prémio.

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code