sábado, 28 de janeiro de 2012

Porque será que as taxas de juro sobem?

A taxa de juro implícita na dívida pública portuguesa não pára de subir.
E não parece ser o fim do mundo. Continua tudo a funcionar mais ou menos de forma normal.
Mas para compreender o impacto das taxas de juro vou traduzi-las em euros.

A taxa a 30 anos atingiu esta semana 11.288%/ano.

Esta taxa é aplicada a contratos sobre imóveis. Imaginemos uma pessoa que pediu 100 000€ para comprar uma casinha que amortiza em 30 anos. Se a taxa de juro for a EURIBOR mais um spread de 0.5 pontos percentuais (equivalente a uma taxa fixa de 3.8%/ano), a prestação mensal será de 462€/mês. Se pagar os 11.288%/ano, a prestação vem aumentada para 929€/mês (o dobro).

A taxa a 10 anos atingiu esta semana 15.220%/ano.
Esta taxa será aplicada a investimentos em tecnologias maduras (de baixo risco tecnológico) em empresas sólidas, por exemplo, os investimentos da EDP.
Um viravento de 1.5MW de potência que custe 1.5Milhões€ e se amortize em 10 anos, para uma taxa de juros de 4%/ano (a rentabilidade global do activo da EDP é de 6%/ano), implica um custo de 20.73€/hora. Para uma utilização de 25%, implica um custo financeiro de 0.0553€/kwh de energia eléctrica produzida.
Para uma taxa de juros de 15.22%/ano, implica um custo de 32.22€/hora que implica um custo financeiro de 0.0859€/kwh (mais 55%).
Como os contratos especiais pagam na ordem de 0.072€/kwh, as eólicas estão no vermelho (nos primeiros 9 meses de 2011 a Martinfer anunciou um prejuízo de 34.7M€ que a faz entrar em falência técnica).

Fig. 1 - O valor da Martinfer, estrela do choque tecnológico do Sócrates, está a perder-se à razão de 40%/ano (fonte: bolsa PT). Coitados que um foi meu colega de residência e o outro foi aluno da FEP.

A taxa a 5 anos atingiu esta semana 19.822%/ano.
Esta taxa será aplicada nos investimentos normais das pequenas e médias empresas com boa situação financeira, por exemplo,um investimento de ampliação da capacidade produtiva de uma empresa têxtil.
Um investimento de 1M€ a 6%/ano, amortizado em 5 anos, implica o pagamento de 19260€/mês.
A taxa de juro de 19.822%/ano implica o empresário ter que arranjar 25500€/mês (mais 33%).
Como as empresas não podem repercutir os aumentos nos custos financeiros nos preços, vão acumulando prejuízos e, hora a hora, vão derretendo o capital próprio até que entram em falência.
Um ano ou dois ainda aguentam, agora que se está a antecipar que a situação não vai melhorar tão cedo, vão ser falências em catadupa.
E mais desemprego.
É incrível como as pessoas que eu conheço estão a cair todas na situação de desemprego.
Falo com alguém e ou tem a filha desempregada ou o marido ou está ela própria desempregada.
E o que faz o nosso governo?


Fig. 2 - Evolução da taxa de juro portuguesa implícita a 30 anos (fonte: bloomberg)

No tempo do Sócrates a situação degradava-se à cadência de +0.18 pontos percentuais por mês. Era governar sobre brasas.
Depois veio a campanha eleitoral onde a situação se degradou ainda mais rapidamente (+ 0.58 pp/mês). Foi o colapso total do guterrismo-socratismo.
O ppc ganhou e, no início, não lhe foi dado muito crédito mas, depois, a coisa estabilizou a coisa nos números do Sócrates (+ 0.18pp/mês). O interessante é que nestes tempos anunciava-se que está tudo no bom caminho e o povo estava com esperança. Não havia aquele nervosismo do Sócrates a ver Roma a arder.
Agora, entramos nas fase do pânico.
É interessante como rapidamente o Pedro Passos Coelho se transformou num novo Sócrates: anuncia mas não faz nada.
Auela do "acordo ca concertação social" é mais um choque de competitividade para inglês ver.

A causa da subida das taxas de juro são os erros do governo.

Erro 1 - Subida dos impostos sobre os juros e dividendos
Portugal tem uma taxa de poupança muito baixa e precisa de constante financiamento exterior. Então, quem poupa e investe deveria receber uma medalha. Mas o Passos Coelho deve-se ter lembrado daquele iluminado que desceu as taxas de juros dos Certificados de Aforro: poupar diminui o consumo, logo é mau.
Faz-me lembrar o famoso pensamento alentejano:
Penso, ................... Logo, ......................................................... Cansado,
hurrrr bczzzzzz, hurrrr bczzzzzz, ........

Erro 2 - Dizer que em 2011 Portugal teve um saldo primário positivo de 200M€.
Isto é tentar enganar o povinho como fez repetidamente o Sócrates.
Mas houve uma "receita" de 6000M€ que deveria ser contabilizada como um empréstimo que os pensionistas da banca fizeram ao Estado.
Será que os nossos governantes se esqueceram disto?
Pelos vistos sim porque nem está previsto no OE2012 dinheiro para pagar aos pensionistas da banca. O Gaspar pensava que o dinheiro era dado. Coitadinhos de nós que ao leme está um homem ché-ché.
Se tirarmos os 6000M€, o défice fica acima do 7.5% do PIB quando o Sócrates nos tinha comprometido com a Troika a um máximo de 5.9% do PIB.
Já dizem que, se tudo correr bem, vamos atingir essa meta este ano.

Erro 3 - O Gaspar ter dito que "não haverá mais austeridade".
Então como é que se vai controlar o défice público? Por milagre da Nossa Senhora de Fátima?
Vamos todos a pé a Fátima?
Alguém emprestava dinheiro a um falido que dissesse "aconteça o que acontecer, não vou fazer mais austeridade"?

Erro 4 - Deixar cair a meia hora de trabalho.
Assim sem mais nem quê. O povo já estava preparado. As empresas já estavam a aceitar encomendas com desconto a contar com esta meia hora. E pronto, acabou.
Gastam horas e horas a discutir o assunto, a fazer estudos e a convencer o povo e, num minuto, acabou.
Mas que palhaçada é esta?

Diz o Pepe Rápido
Vai ser tão bom a próxima meia hora não foi?

Erro 5 - dizer que a TSU não diminui em nenhuma circunstância.
Isto é uma brincadeira de crianças.
Acordam com a Troika a redução substancial dos custos do trabalho.
Depois elegem a TSU como instrumento de política.
Arrependem-se e avançam com o aumento do horário de trabalho.
Arrependem-se e veem com quê?
Como um prato cheio de nada.
Cortar o Dia de Carnaval?

Como é que vamos controlar os custos do trabalho?
Relativamente aos custos do trabalho dos nossos parceiros da Europa, os nossos custos aumentaram 25% desde o fim do cavaquismo. Se não caminharmos no sentido de corrigir este diferencial, não há forma como evitar a bancarrota total. Catastrófica.
Medida 1     - Recordemos que no cavaquismo o horário de trabalho era de 45h/s. Repor as 9h/dia.
     Será uma redução de 11% nos custos do trabalho.
Medida 2  - Cortar 8 pontos percentuais na TSU dos empregadores.
     Será uma redução de 6.5% nos custos do trabalho.
Medida 2.1  - Cortar os subsídios de Natal e de férias no privado transformando-os em TSU extraordinária.
Medida 2.2 - Cortar os salários milionários com uma TSU de solidariedade (33% entre 15SMN e 30SMN e 66% acima de 30SMN).
Medida 2.3 - Pegar nestas verbas e financiar o corte de 8 pp de TSU de todos os salários privados.
     Será um corte de quase 17% nos custos do trabalho.
Mais o acordado com a UGT e consegue-se estancar a subida das taxas de juro e o caminhar a passo largo para a bancarrota.

Mas não será constitucional aumentar o horario de trabalho sem aumentar o salário?
Resolve-se isso fácil. Aumenta-se o salário do trabalhador proporcionalmente.
Por exemplo, um trabalhador ganha 1000€/mês para trabalhar 40h/s e passa a ganhar 1125€/mês para trabalhar 45h/semana. Assim já é de certeza constitucional, por unanimidade.
Depois, carrega-se o trabalhador com mais 125€/mês de imposto. Vai para a TSU.
Finalmente, pega-se nos 125€ e dão-se ao empregador como "estimula à manutenção do posto de trabalho".
Como o Governo pode cobrar os impostos que lhe apetecer e dar dinheiro a quem quiser, já está.
Isto, em termos económicos, é completamente igual a aumentar o horário de trabalho mantendo o salário.
Mas em termos jurídicos não o é.
Então faz-se assim.
Cumpra-se a lei.

Nota Final. Hoje não apresento nenhuma imagem ilustrativa dos conceitos que apresento (i.e., mulher boas desnudas) por respeito a uma colega minha. É que a senhora fez uma queixa disso ao Ministério Público (e os tais comentários chatos que apaguei). Que estarei a explorar a condição de mulher, o que é um crime à luz da tal constituição.
Nem a dita cuja ter nome de santa nos salva.

Fig. 2 - Esta jovem é professora de uma cadeira muito chata.

A minha colega de gabinete é uma pessoa extraordinária
- No teu ano ias às aulas daquela cadeira muito chata, de não sei quê, do Madureira Pinto?
- Fui a todas e depois ia tirar dúvidas ao gabinete mas nem me lembro do quê.
- Eu não percebia nada daquilo, nem niguém percebia, ninguém fazia ideia do que o homem falava.
- Só me lembro que era muito boa pessoa. Era uma excelente pessoa, mesmo boa. Uma joia de pessoa.

Pedro Cosme Costa Vieira

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