sábado, 25 de fevereiro de 2012

O desemprego em Portugal está numa dinâmica explosiva

A taxa de desemprego em Portugal
atingiu em Dezembro de 2011  os 14% de taxa de desemprego a que corresponde 770 mil pessoas (fonte: Sol). A  OCDE apresenta números semelhantes (741 mil, 13.6%) mas os esquerdistas avançam com 5 milhões de desempregados, 50% de taxa de desemprego.
Estes números parecem ter colhido os nossos políticos de surpresa. Isto acontece porque os políticos têm esperança que tudo se vai resolver sozinho.
Os políticos são como os dirigentes (e treinadores) das equipas de futebol em crise: têm sempre a esperança de que é exactamente no jogo de hoje que vai acontecer a viragem. Que depois de 10 derrotas consecutivas, têm esperança que esta série negra vai ser interrompida exactamente hoje.
Isso aconteceu repetidamente com o Sócrates (a famosa frase "a crise já acabou") e está a começar a acontecer com o Passos e com o Cavaco.
Mas, infelizmente, estão completamente enganados (ver Fig. 1).

A causa da derrota é haver esperança na vitória.
Este pensamento é oriental e é ensinado na arte da guerra.
A ideia é que temos que fazer o máximo que está ao nosso alcance mesmo sem ter esperança no sucesso.
Apesar de a esperança parecer ser um incentivo a esforçarmo-nos na resolução das situações adversas que nos vão aparecendo na vida, como a sua quebra em face dos problemas verdadeiramente difíceis nos congela, acaba por, no longo prazo, ser um factor de derrota porque é exactamente em face dos problemas verdadeiramente difíceis que temos que aplicar todo o nosso esforço.
Imaginem um aluno que estuda porque tem esperança em ter aprovação. Então, numa disciplina muito difícil, fica desanimado e não consegue estudar. Já o aluno que estuda à força toda sem esperança, pode até ter  2 valores no exame mas não desanima e vai, no ano seguinte, continuar a estudar à força toda até que acaba por ter aprovação.
Como a morte é certa, aquele que precisa da esperança para se esforçar, acabará sempre por desanimar.
Quando  o urso ataca a colmeia, a abelha não tem esperança de derrotar o seu adversário. No entanto dá a sua vida na tentativa de o fazer.

Fig. 1 - Evolução da taxa de desemprego em Portugal 1983-2012 (fonte: PorBase e INE)

O erro do Sócrates (e do Teixeira dos Santos)
Olhando para a evolução da taxa de desemprego, observamos os ciclos económicos a funcionar. A crise de 1982 termina em 1985; a crise de 1992 termina em 1996 e o Sócrates tinha esperança que a crise de 2000  terminasse exactamente em 2003, 2004, 2006,  2007, 2009 e nada  (ver Fig. 1).
O Estado endividou-se à força toda em 2008 e 2009, o Sócrates ganhou as eleições à custa de injectar dinheiro nos bolsos do povo (tipo "os frigoríficos" do Valentim), com essa esperança e isso é que nos levou mais rapidamente à situação de bancarrota que vivemos.
O Sócrates pensa que isso se deveu a um erro do Teixeira dos Santos. Sentiu-se enganado e por isso é que cortou relações com o seu ministro das finanças.
O TS tinha esperança que a crise estava mesmo a acabar e, por isso, não fez nada que ferisse o seu eleitorado. Quando perdeu a esperança, entrou em depressão, congelou tipo múmia paralítica.

Fig. 2 - Sinto-me literalmente de pés e mãos amarradas.

O Passos (do Gaspar e do Álvaro) vive o mesmo erro
A série da taxa de desemprego, inexplicavelmente, teve um ruptura em 2010 mas, como já está em máximos históricos, o Passo tem esperança que já tenha começado a diminuir. Pensa que quando vierem as estatísticas deste mês já se vai ver uma redução na taxa de desemprego.
O Portas não tem aparecido porque foi enviado à Terra Santa para rezar ininterruptamente a pedir que o emprego diminua. A semana passada a Cristas mandou-lhe um e-mail a pedir que também reze para que comece a chover.
Então, não é preciso fazer mais nada.
    Não é preciso diminuir a TSU,
    Não é preciso aumentar o horário de trabalho,
    Não é preciso flexibilizar o mercado de trabalho.

Esta é a filosofia da "guerra nuclear".
Também conhecida por filosofia da avestruz - enterrar a cabeça na areia.
Vamos supor que hoje rebentava uma guerra nuclear em larga escala.
A melhor estratégia seria metermo-nos no fundo de um poço durante um mês tendo esperança que, entretanto, tudo se resolveria por si.
Como tínhamos esperança que a coisa ficaria resolvida, nem precisávamos de levar comida.
O Passos precisava actuar hoje com a força toda no mercado de trabalho mas não faz nada porque isso iria alienar a sua base de apoio e, como tem esperança que este mês as coisas já estejam a caminho da resolução, vai esperar.

E ainda tem o consolo da Grécia.
Pois lá (e na nossa vizinha Espanha) as coisas estão ainda piores, com a taxa de desemprego já acima dos 20% da população activa.
Mas este consolo serve de pouco se pensarmos que a Alemanha tem o desemprego nos 5.3% da população activa o que já não se observava desde meados da década de 1980 (anterior à unificação RFA+RDA) e está a diminuir 0.08 pp por mês.

Os números do desemprego (fonte: INE, 4ºT 2011).
Existe a população geral, no caso português 10 560 000 pessoas.
Então, a taxa de desemprego é 7.3% da população.
Mas nem todas as pessoas têm condições para trabalhar porque umas têm menos que 16 anos e outras têm mais de 75 anos. Ficam 9 694 000 pessoas com aptidão etária para trabalhar.
Mas 4 500 000 portugueses em idade activa não trabalham.
Além disso, 630 mil trabalham a meio tempo.
Se pegássemos nos desocupados e somarmos metade dos que trabalham a meio tempo e dividirmos pela população em idade de trabalhar termos uma taxa de desemprego de 50% da população em idade activa.

Mas os 14% são a taxa de desemprego involuntário.
E aqui é que está a grande diferença entre os "novos clássicos" e os "novos keynesianos".
Hoje os clássicos chamam aos keynesianos "neo-comunas" enquanto que os keynesianos chamam aos clásicos "neo-liberais".
Para os keynesianos a taxa de desemprego é 50% porque todos querem trabalhar mas o salário é que é muito baixo.
Quando ouvir falar nos 5 milhões de desempregados, já não vai estranhar.

Para os clássicos a taxa de desemprego é 0%, zero, porque as pessoas apenas dizem que querem trabalhar porque têm esperança em arranjar um emprego a ganhar um salário muito mais elevado que o valor que são capazes de produzir.
Por exemplo, em 1991, na Ukrânia o subsídio de desemprego era de 5 USD e os salários nas empresas públicas era praticamente zero. Então, apesar de 50% da população referir em inquéritos de rua que "estava desempregada", a taxa de desemprego medida da forma usada na OCDE estava abaixo dos 5% (fonte: Baker, 2002).

Vou avançar mais uns números.
Do total de pessoas activas, 20% trabalham por conta própria ficando 3745 mil pessoas empregadas, 35.4% da população, por conta de outrem.
Aproximadamente, em cada 3 portugueses apenas 1 tem emprego.
Então, se dissermos que quem trabalha por sua conta trocava por um emprego bem pago, poderemos mesmo exagerar e dizer que a taxa de desemprego é de 65%.
Como em Portugal qualquer pessoa pode trabalhar por sua conta, também é aceitável assumir que as pessoas que se declaram desempregadas pretendem passar a ser empregados por conta de outrem.
Então, a taxa de desemprego aumenta para 17% da população activa que trabalha ou pretende trabalhar por conta de outrem.

No que ficamos?
Não interessa se a taxa é 4%, 10% ou 20% pois o que interessa é comparar a evolução dos números obtidos noutros períodos e noutros países em que foi usada a mesma metodologia de cálculo.
O muito preocupante ver que nos outros ciclos económicos a taxa de desemprego em Portugal oscilou entre um mínimo de 4% (no tempo das vacas gordas) e um máximo de 9% (no auge da crise) e que nesta crise já vai em 14% e sem sinais abrandamento.
Mas também é importante ver que a Alemanha, com uma política de redução dos custos do trabalho e baixa inflação, consegue ter taxas de desemprego na ordem dos 5%.
Por isso Passos, Cavaco e todos nós, temos que perder a esperança de que as coisas vão melhorar com uns paninhos quentes e implementar medidas o mais duras possível para resolver este problema.
Deixar de lado a lengalenga dos direitos adquiridos, arregaçar as mangas e actuar mesmo sabendo que pode não dar resultado.

Agora estão a tocar à campainha da porta.
Vim aqui rapidamente apenas para dizer que tenho que dar este poste por terminado.
Eu ia agora racionalizar o porquê de a actual crise ser diferente de todas as que já tivemos mas não posso.
É que espreitei pelo visor da porta e até fiquei a tremer.

Fig. 3 - Ai o que eu vi pelo visor. Só tenho esperança que não seja engano.

Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

Joao Silva disse...

Caro Professor,

se o que resulta da produção nacional é canalizada para pagar dívidas, limpar os balanços dos bancos (leia-se dar dinheiro aos accionistas dos bancos que na última década tiveram lucros excepcionais), PPP's que são negociados secretamente e financiados pelos impostos sobre quem trabalha, pensões e subsídios, qual o incentivo que um cidadão comum tem para produzir (por conta própria ou para outrem)? Se os mais prejudicados são os que trabalham e os mais beneficiados são os caloteiros, corruptos, e os que não trabalham (reformados, RSi, etc)...há qualquer coisa de errado neste país quando os incentivos são dados para não se trabalhar e para usufruir de rendas monopolísticas já contratualizadas...assim até eu era um empresário ou investidor...se me garantirem a totalidade das receitas ou que não perco dinheiro.
Você diz sempre que os salários têm de baixar...pois eu lhe digo que diminuam todas as outras rendas, subsídios, reformas, BPN's, PPP's, funcionários públicos, empresas públicas, municipais e por ai fora e incentivem e deem condições a quem quer realmente investir ou produzir em Portugal.
Incentivar o trabalho e a produção em Portugal passa também por reduzir todos os incentivos a não trabalhar e todas as dívidas que ainda não estão registadas!

Anónimo disse...

O desemprego é resultado de duas regras no mundo Laboral ! ... que tem como interveniente o Empregador que pode despedir e o empregado como consequência vai para o desemprego! portanto a lógica natural desta situação só acontece porque foi adquirido o direito de despedir , assim como o direito a ficar desempregado , no dia em que acabarem com o direito adquirido , como faremos para acabar com o desemprego ?

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