segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O erro de Ricardo Reis

O Ricardo Reis escreve semanalmente no Dinheiro Vivo.

 Estimado Ricardo,
 há umas semanas escreveste uma coluna no DV em que falaste da actual crise europeia ("A lição do Japão para a Europa"). Leio sempre o que escreves mas, felizmente, neste caso a tua análise está completamente errada.
 Digo felizmente porque, apesar de ficar triste por ser  teu amigo, dá-me uma enorme alegria poder dar uma marretada na cabeça de uma pessoa com tamanho valor.
 Põe a cabecinha no cepo e prepara-te que ai vem a marretada.

 Sendo o RR neo-keynesiano
(também conhecidos por neo-comunas), pensa que a Europa, seja lá isso o que for, apenas pode sair da actual crise aumentando a inflação (e lançar mais obras públicas).
Então, para fazer valer esta sua ideia sem pés nem cabeça, foi buscar o exemplo do Japão.
 Afirma que, em resposta à crise financeira de 1991, o Japão iniciou um caminho para a irrelevancia no qual a economia estagnou e a inflação se manteve nula.
 O RR acredita, tal qual a Assunção das Cristas tem fé que a Nossa Senhora de Fátima vá fazer chover, que aumentando a inflação, o PIB cresce. Só não compreendo porque isso não funciona nem no Zimbabwe nem na Venezuela e há-de funcionar em Portugal.
 O erro do Ricardo Reis é querer basear uma teoria que se sabe ser totalmente errada e sem pés para andar (haver um trade-off entre a inflação e o crescimento) na repetição de chavões da comunicação social (que é maioritariamente ocupada por neo-comunas) sem o cuidado de os verificar.

Fig. 1 - RR, futuro secretário geral do PNCP - Partido Neo-Comunista Português

Primeiro Erro: O Japão não tem a economia estagnada há 20 anos.
Isto não é minimamente verdade. Nada mesmo.
A questão é que a população do Japão está em regressão. Por isso, o "problema" não é da falta de dinamismo da economia mas apenas da forte redução da natalidade (ver Fig. 2).

Fig. 2 - Taxa de fertilidade no Japão e nos USA (fonte: Banco Mundial)

 Mas o importante é vermos como se comporta a economia relativamente a cada um dos potenciais trabalhadores que existem no país separando assim o efeito do aumento do número de trabalhadores do dinamismo do processo de criação de riqueza.
 Se dividirmos o PIB pelas pessoas com idade entre os 15 anos e os 65 anos (o PIB por pessoa em idade activa, PIBpcia) e compararmos o Japão com os USA, o UK e a Alemanha vemos que o Japão é o país mais produtivo do mundo e que, nos últimos 30 anos, tem crescido de forma semelhante às outras potências económicas (ver Fig. 3).

Fig. 3 - PIBpcia 1980-2010, USD internacionais (fonte: Banco Mundial)

Na década de 2000 (entre 2000 e 2010)  o PIBpcia do Japão cresceu a uma taxa de 1.31%/ano que foi o dobro da taxa verificada nos USA (que cresceu 0.58%/ano) e no UK (que cresceu 0.72%/ano) e foi idêntica à verificada na Alemanha (que cresceu 1.28%/ano), assumida como uma economia muito dinâmica.
Mesmo na década de 1990 (entre 1990 e 2000) em que foi preciso resolver a crise financeira de 1991, o PIBpcia do Japão cresceu 1.1%/ano.
No últimos 20 anos (entre 1990 e 2010), o PIBpcia do Japão cresceu 1.2%/ano e o dos USA cresceu 1.3%/ano.
Não penso que uma décima possa justificar a afirmação de que tenha havido qualquer falha na condução da politica económica do Japão.

Afirmar que "Problemas que começaram no sistema financeiro espalharam-se a toda a economia que deixou de crescer. Os governos falharam na limpeza dos bancos, sem coragem para fechar ou recapitalizar instituições falidas. O banco central falhou por excesso de prudência não deixando que a inflação subisse em troca de algum estímulo à atividade económica. Os políticos falharam em controlar a despesa pública galopante, incapazes de dizer não a qualquer grupo de interesse. Como resultado, o Japão perdeu a década de 1990 e ainda hoje está muito abaixo do ritmo de crescimento económico a que estava habituado" é manifestamente exagerado para não dizer errado.

Bem, houve, como afirma RR, uma quebra da tendência em 1991 mas isso também aconteceu nos USA (em 1999). Mesmo assim, nos últimos 40 anos, 1970-2010, em média o PIBpcia do Japão cresceu 2.2%/ano que foi superior ao verificado nos USA, que cresceu 1.9%/ano, em 0.3pp (ver Fig. 4).

Fig. 4 - PIBpcia 1970-2010, USD internacionais (fonte: Banco Mundial)

Comparemos com o Brasil
Na década de 1990 o PIBpcia do Japão cresceu 1.1%/ano e o do Brasil 0.25%/ano.
Na década de 2000 o PIBpcia do Japão cresceu 1.3%/ano e o do Brasil 2.0%/ano.
Nas duas décadas de 1990-2010 o PIBpcia do Japão cresceu 1.2%/ano e o Brasil 1.1%/ano.
É impressionante como uma economia repetidamente anunciada como estagnada (o Japão) tem idêntico desempenho económico a uma economia repetidamente anunciada como pujante (o Brasil).
E o PIBpcia do Japão é 61.5 mil USD enquanto que o do Brasil é 7mil por pessoa em idade activa (fonte: Banco Mundial, 2010).
Como este diferencial de PIBpcia e a crescer mais 0.7pp, o Brasil atingirá o nível de desenvolvimento do Japão daqui a 275 anos.
É no Natau de 2287!

O Japão é um país "irrelevante".
O Japão tem apenas 127 milhões de habitantes num mundo com 6840 milhões (2010, banco mundial).
Com 1.85% da população mundial, sem forças armadas, localizado a 20000 km de nossa casa e com uma cultura pós-WWII discreta, naturalmente que nós não ouvimos falar do Japão.
Naturalmente.
Nem nos lembramos que a Toyota, Honda, Sony, Canon, Nintendo, Panasonic, Lexus, Nissan, Toshiba, Sharp, Shiseido, Komatsu, Suzuki, Yamaha, Mitsubishi, Bridgstone, Casio, Fujitsu, Mazda, Olympus e Epson são marcas de produtos que encontramos todos os dias e que são japonesas.
O estimado leitor é capaz de se lembrar de uma marca brasileira, chinesa ou indiana?
E dos países com taxas de inflação elevadas como o Zimbabwe e a Venezuela?
Ah. Não se lembra?
Vou-me sentar a ver se se lembra de alguma coisa.

E o Japão quer uma inflação de 0%/ano.
Como a inflação é um fenómeno puramente monetário, o Japão tem desde Janeiro de 1995 uma inflação média de 0%/ano porque não quer ter mais. E não vem qualquer mal ao mundo por a taxa de inflação ser zero.
A China também já teve essa ideia (entre Janeiro de 1998 e Junho 2003) e não teve qualquer impacto negativo na taxa de crescimento da sua economia.

Fig. 5 - Taxa de inflação no Japão, 1989-2010 (fonte: tradingeconomics)

Segundo Erro: a Zona Euro não está em crise.
Há alguns países da Zona Euro que estão em crise.
Concerteza que a Grécia, Portugal e a Irlanda estão em crise e depois ainda temos a Itália e a Espanha em crise mas num patamar mais ténue.
Mas a maioria dos países não está em crise. A Alemanha, o Luxemburgo, a Holanda, a Finlândia e a Áustria definitivamente que não estão em crise.
E a França está no meio, equiparada aos USA (o PIBpcia contraiu entre 2006 e 2010, 2.50% na França e 2.52% nos USA).

Fig. 6 - Evolução relativa aos EUA do PIBpcia 2000-2010, pp (fonte: Banco Mundial)

Se somarmos a economia dos 5 países zona-eureus em crise (os PIIGS), a sua dimensão economica, 3170MM€, é equiparável à dimensão dos 5 países zona-eureus sem crise nenhuma, 3000MM€, anulando-se (fonte: Banco Mundial, 2010).

Que exemplos positivos se devem ir buscar para encontrar soluções para a nossa crise?
 O Japão resolveu a sua crise financeira de 1991 mantendo um crescimento económico idêntico ao das outras potências desenvolvidas pelo que é uma lição mas pelo lado positivo.
 Devemos seguir exactamente o exemplo do Japão e o da Alemanha e adoptar as politicas que estes países adoptaram e que são contrárias ao que defendem os neo-keynesianos (e o Ricardo Reis).
Temos que implementar:
    Balanças corrente equilibradas (nos dois casos até são bastante superavitárias) e
    Finanças públicas equilibradas.
    Taxas de inflação baixas.
    Mercado de trabalho flexível.
    Diminuição do peso dos impostos (do Estado) na economia.
    Liberalização dos mercados.
    Acabar com as empresas públicas e com as PPPs.
E aquelas coisas todas que custa muito ouvir falar.

O Ricardo Reis respondeu a este poste no dia 1 de Março.
RR, além de ter uma inteligência e conhecimento extraordinários, é uma pessoa educadíssima e que  tem um elevado fairplay.

"Olá Pedro,
 ... O teu poste parece-me um bom contributo para a discussão, e nesta crise que enfrentamos mal seria se concordássemos em tudo ... Permite-me só dois comentários...:
(i) nesta coluna não falo em lado nenhum em mais inflação como a cura. (De qualquer forma, sim acho que a zona euro estaria em melhor estado se o BCE deixasse a inflação subir 1 ou 2% acima do seu alvo.)
(ii) no teu "Temos que implementar" acho que concordo com a maioria das medidas e tenho escrito rios sobre isso nas minhas colunas na imprensa já há muitos anos.

Ricardo"
Muito obrigado amigo Ricardo.


Sobre a menina de ontem
Eu sou humano logo, engano-me.
Afinal eu vi mal. Aquilo foi uma alucinação.
Era uma matrafona que vinha pedir um patrocínio para o Carnaval.
Como o Passos não deu tolerância de ponto, a coisa deu prejuízo e os coitados precisam de uma ajudazinha.

Fig. 7 - Dê-nos uma contribuiçãozinha para cobrir os prejuízos da "intolerância" de ponto.

Quase me esquecia de agradecer
Ter o nosso blog, meu e vosso, ultrapassado as 200 mil visitas.
Em menos de um ano atingir 200 mil visitas (e ter escrito 200 postes) é obra.
Estamos todos de parabéns.

fig. 8 - Muito obrigado.

Pedro Cosme Costa Vieira

3 comentários:

Gonçalo disse...

Caro Pedro, eu é que agradeço o excelente Blog! Fico à espera do 2º livro.

jose disse...

Caro Pedro,
O seu blog é do melhor que tenho visto.
Espero que continue por muito tempo...

Fernando Ferreira disse...

Caro Pedro,
Sigo o seu blog com interesse. Concordo com algumas das suas opinioes e discordo de outras. Uma das coisas que gosto nos seus artigos e' que chama "os bois pelos nomes". Neste artigo o RR e' um neo-keynesiano (tambem conhecido por neo-comunas). O que eu gostaria de perceber e' o que e' que o Pedro e': Keynesiano? Neo-keynesiano? Xuxalista?
Com base nos seus artigos e, na minha modesta analise, o Pedro e' um bocadinho "ceu geralmente muito nublado mas com boas abertas"...
Cumprimentos!

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