quinta-feira, 15 de março de 2012

As operações de LTRO não são emissão de moeda

O que é o LTRO - Long Term Refinancing Operation?

O Banco Central Europeu controla o nível geral de preços (a inflação) usando empréstimos de curto prazo (MRO - Main Refinancing Operation) e de longo prazo (LTRO).
Normalmente os contratos de curto prazo duram 1 semana e os de longo prazo entre 3 e 6 meses.
Nos tempos mais recentes o BCE lançou dois LTRO com um prazo anormalmente elevado, 3 anos.

Fig. 1 - Não te preocupes que o Banco Central Alemão vai-te ajudar.

De facto o BCE não existe.
O BcE define uma política mas são os bancos centrais dos países que lhe dão cumprimento.
No caso, o BCE decidiu lançar 1000 milhares de milhões de euros mas quem cedeu os crédito foram os Bancos Centrais Locais.
Por exemplo, foi o Banco de Portugal que cedeu os créditos aos bancos portugueses e que "recolheu" os colaterais (as garantias pois os movimentos do BCE são contra garantias) e compensou esses empréstimos com dívida ao BC alemão.

Fig. 2 - O Euro Sistema materializa-se com os Bancos Centrais Nacionais
(Setas: fluxos de crédito, Verde: bancos superavitários; Vermelho: bancos deficitários)

Esta operação do BCE não foi uma emissão de moeda.
O sistema de refinanciamento não emite moeda. As estatísticas do BCE indicam que a quantidade de euros em circulação (valor das notas e moedas nas carteiras das pessoas e nos bancos) até diminuiu de 883,7 MM€ em 17 Jan 2012 para 868,8 MM€ em 13 de Março de 2012, -1,69%.

A quantidade de notas e moedas de euros em circulação é muito pequena.
Se, como esses analista ignorantes que aparecem na TV anunciam, o BCE tivesse feito entrar 1000 MM€  de novas notas em circulação (emitisse moeda), aumentaria em 115% as notas em circulação o que faria a taxa de inflação da Zona Euro explodir para mais de 100%/ano.
É engraçado como os comentadores especialistas em questões de economia, além de perceberem tão pouco, não se dão ao trabalho de ir consultar as estatísticas do BCE.
Bem, nem os professores se dão a esse trabalho e, em teoria, falam para alunos informados, quanto mais quem fala para a massa ignorante que apenas gosta de ouvir falar no "grande capital", "os bancos", a "bandalheira das rendas excessivas" e outras palavras sem conteúdo.

Fig 3 - Valor das moedas e notas de euros em circulação, MM€ (fonte: BCE)

Os LTRO são apenas uma intermediação entre os bancos que têm excesso de recursos (do Norte) e os bancos que têm défice de recursos (do Sul).
Normalmente esta compensação é feita no Euro Mercado Interbancário (de que resulta a EURIBOR). Como este mercado está inoperante porque os bancos com défice de recursos têm um nível de risco inaceitável (estão falidos), quem tem recursos deposita-os no Banco Central Local.
O BCE apenas deu ordem para que os Bancos Centrais com excesso de recursos enviassem esses valores para o bancos centrais deficitários.
No final, os recursos são emprestado pelos bancos sólidos aos bancos falidos (é o "refinanciamento") com a intermediação dos Bancos Centrais (do euro sistema).
Mas é um movimento contabilístico que permite o rollover da dívida dos bancos do SUL aos residentes no Norte e permite manter os défices das contas externas dos países do Sul.

O presidente do Banco Central Alemão veio refilar.
Porque, feitas as contas finais da operação, o BC Alemão ficou a arder em 500 mil milhões de euros, tendo este dinheiro ido principalmente para o Banco Central da Grécia, Itália, Espanha e Portugal.
E 500 mil milhões é muito dinheiro correspondendo a 20% do PIB alemão.
É a poupança do povo alemão face ao exterior dos últimos 3.5 anos.


Fig. 4 - Balança Corrente Alemã anual, MM€ (fonte: Banco Mundial)

E o BC Alemão não recebeu qualquer garantia para esse empréstimo. Nem está claro que lei se aplica a esses empréstimos.

E o que acontece se um banco for à falência?
Os bancos depositam garantias quando recebem os créditos do Banco Central mas quem avalia as garantias é o BC de cada país e fica com elas. Assim, o Banco Central Alemão não sabe se as garantias são de facto garantias ou se são puro lixo tóxico.
Se imaginarmos que os bancos portugueses usam dívida pública portuguesa como garantia e que esta  (a 10 anos) já só vale metade do par então, o Banco de Portugal apenas garantias para metade dos 50 mil milhões de euros canalizados da Alemanha.

O desvalor da dívida pública portuguesa.
Apesar de a dívida pública ter um determinado cupão (juro) e valor nominal (o valor que se vai receber no futuro, o par), a alteração das condições de mercado fazem com que o valor de mercado da obrigação seja diferente do valor facial.
Se a taxa de juro diminuir, o valor de mercado da obrigação aumenta (e vice-versa).
Imaginemos que a dívida pública foi emitida à taxa de juro de 5%/ano e que faltam 10 anos para a maturidade. Como a taxa de mercado está nos 4%/ano, os título de dívida pública desvalorizaram de 100€ para 53.00€.
Então, o as suas garantias estão diminuídas de 50MM€ para 26.5MM€.
Se o BCE fosse rigoroso, o Bando de Portugal teria que obrigar os bancos portugueses a arranjarem um reforço das garantias en 23.5MM€ de novos colaterais.
Onde é que os nossos bancos têm tais activos sem risco?
Agora imaginem as garantias que os bancos gregos têm depositadas no BC da Grécia.
Fig. 5 - Isto é um satélite grego (de fazer torradas espaciais) dado ao BE como garantia de 10MM€.

E que acontece se um banco central grego, português, espanhol ou italiano bancarrotar?
Aí é que não se sabe e por isso é que os alemães estão preocupados.
As garantias não excluem o banco das suas obrigações pelo que, se um banco for à falência e as garantias não chegarem, o Banco Central vai buscar o que puder à massa falida.
Mas se os bancos de um país falirem em massa, como é muito provável que aconteça na Grécia (e em Portugal) porque grande parte da sua carteira de créditos está muito desvalorizada (dívida pública a não valer nada, as empresas públicas em incumprimento, contratos públicos a serem "rasgados", famílias a falir, empresas na bancarrota), o banco central não vai ter como cumprir com as suas obrigações face ao euro sistema.
E os Estados desses países não podem assumir a dívida do banco central porque também estão falidos.
Alemão perde.

O problema da lei que se aplica.
Quando a Grécia sair da Zona euro, a dívida ao BC Alemão ficará em Euros ou passam para Dracmas ao câmbio da hora da saída e depois sofre desvalorização?
É que não houve nenhum acordo quanto a isto.
O BC Alemão emprestou mais recursos que o previsto no Fundo de Resgate, e ninguém pediu ao Parlamento Alemão autorização para isto nem houve comprometimentos dos países falidos quanto ao pagamento destas somas.

Isto já aconteceu, na União Soviética.
No final da União Soviética, o Banco Central Ucraniano começou a "criar moeda" mediante movimentos contabilístico a descoberto.
Por exemplo, a empresa Uc (ucraniana) comprava 1000R de gás à empresa Rs (russa).
A Uc ia a um banco ucraniano que lhe colocava 1000R na conta que tinha obtido no BC ucraniano.
A Uc transferia os 1000R para a Rs que usava para pagar salários na Rússia.
Então, como o BC russo não tinha compensado os 1000R do BC ucraniano, havia um aumento da massa monetária o que causava inflação em toda a URSS.
Então,  a Rússia vendia o gás e não recebia nada em troca, era dado, porque a Ucrânia se apropriava de todos os "direitos de senhoriagem" da Zona Rublo (apenas ela emitia moeda).
Quando os bancos centrais das outras repúblicas descobriram este descontrolo, tentaram fazer o mesmo pelo que o Banco Central da Rússia deixou de aceitar ordens de pagamento em Rublos e o Rublo acabou.

Será assim que vai acabar a Zona Euro?
Irá acabar quando o Banco Central Alemão se a recusar a ceder mais crédito aos bancos centrais dos países bancarrotados.
Se as garantias que os bancos centrais estão a aceitar são "falsas", o risco de bancarrota dos bancos centrais vai crescer, os cidadãos alemães vão começar a ter consciência disso e vão fazer pressão para que o BC alemão se recuse a dar cumprimento às ordens do BCE, abandonando o euro sistema.

Será que há o risco de isto acontecer?
A Espanha ter relaxado a consolidação orçamental depois da operação do BCE indicia que, havendo dinheiro, faz-se fiesta.
Em vez de descer os custos do trabalho e fazer funcionar o mercado de trabalho, o mais fácil em termos políticos é aumentar a despesa pública.
O Banco Central Espanhol (e Português), enquanto os alemães estiverem a dormir, irá sacar crédito ao BC alemão para financiar os défices.
Não vale mais a pena ter austeridade.
Até o Alberto João já recomeçou a falar.

Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

Anónimo disse...

se a alemanha nao entregar os seus lucros a custa de portugal e grecia que mantem o euro baixo, a zona euro acaba e entra em falencia , o marco sobe 50 ou 100% e entram numa profunda crise sem conseguir exportar e alem da fome vao ter de aguentar com o frio.

andreibarça disse...

Pedro gostaria da sua opinião sobre o que disse o professor de economia da ufrj que a europa vai se recuperar graças a Alemanha e França que são locomotivas europeias,e que os americanos também vão se recuperar,a europa e estados unidos em 2 anos começam a recuperação,ele afirmou também que o brasil será o maior prejudicado com isso,a Argentina é a única da américa do sul que vai se recuperar você concorda?
fonte-http://redeglobo.globo.com/globociencia/noticia/2012/01/economia-mundial-volta-crescer-em-breve-afirma-professor-da-ufrj.html

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