domingo, 4 de março de 2012

O porquê da explosão do desemprego

Ao longo do tempo a economia sobe e desce.

Durante uns anos a economia expande (período das vacas gordas) e depois entra em contracção (período das vacas magras). Durante a expansão o PIB aumenta  e a taxa de desemprego diminui (podendo atingir 4% da população activa) e durante a contracção o PIB diminui e o desemprego aumenta (podendo atingir 10% da população activa).
Estas oscilações denominam-se por Ciclo Económico e têm um período de cerca de 10 anos.
  O Ciclo Económico não acontece em todo o Mundo ao mesmo tempo.  No entanto, quanto mais integrados forem os países (tiverem maiores relações comerciais) mais correlacionado no tempo está o ciclo económico. Por exemplo, no período 1980-2010, a correlação temporal do PIBpc entre Portugal e Espanha é de 0.81, entre Portugal e a Alemanha é 0.54 e entre Portugal e Grécia é de 0.24.

Fig. 1 - Evolução do PIBpc relativamente à média 1980/2010 (Fonte: Banco Mundial) 

Observando a evolução do PIBpc, identificam-se os ciclos de 1983/1993; de 1993/2003 e de 2003/2009. Em termos da "maioria dos países" agora estamos na parte da expansão do ciclo económico.
Naturalmente, os analistas do Sócrates indicaram-lhe que se iria safar porque a nossa economia iria começar a crescer em 2010, como as outras . Mas enganaram-se e o Sócrates foi-se.
E o Passos pensa que é em finais de 2012 que vamos retomar o crescimento. Mas também está enganado.

Uma das razões para o colapso das Zonas Monetária é o ciclo económico desfasado.
Até hoje ainda nenhuma zona monetária com vários países (de idêntica dimensão) resistiu à prova do tempo.
Como a fase do ciclo económico não é idêntico em todos os países (por exemplo, enquanto que actualmente os PIIGS têm taxas de desemprego muito altas, a Alemanha tem taxas muito baixas), não é possível conduzir uma políticas monetária adequada à situação de cada país.
Por exemplo, agora deveria ser conduzida um política de austeridade na Alemanha.
Quanto menor for a correlação de um país com o "centro" da Zona Monetária, mais difícil é manter-se na Zona Monetária.

Mas há zonas monetárias estáveis muito maiores que a Zona Euro.
Sim e que também têm o "problema do desfasamento do ciclo económico".
Por exemplo, a ZM do Dólar Americano tem 50 Estados e é geograficamente muito maior que a Zona Euro.
E, pelo contrário, a Zona Monetária da Jugoslávia era muito pequenina e integrada (tinham 10 milhões de habitantes) e entrou em colapso.
Então, a estabilidade não terá só a ver com a dimensão.

Eu penso que o problema está na democracia.
Num país o governo é eleito pelo "eleitor médio" pelo que, quando implementa uma politica que tem um efeito pernicioso sobre uma parte da população, esse grupo sente-se contido pela legitimidade democrática do governo.
Por exemplo, se 8 milhões de alemães quiserem uma inflação maior (10% da população), contentam-se com uma menor porque não têm nenhum representante eleito que lute pelos seus gostos.

Numa ZM em que o governo de cada país é eleito localmente, se, por exemplo, 8 milhões de portugueses quiserem uma taxa de inflação maior que a média dos alemães, vão eleger um governante que defenda esta política junto da governação da Zona Monetária.
Como agora os 8 milhões de portugueses estão representados por um governo com forte legitimidade democrática, desenvolvem-se na Zona Monetária tensões inultrapassáveis.

A competitividade das empresas
Uma empresa produz bens e serviços utilizando capital (máquinas, instalações, camiões, patentes, marcas, etc.), trabalho e matérias-primas & produtos-intermédios. Multiplicando as quantidades utilizadas pelo preço de aquisição resulta o custo de produção.
Depois, a empresa vende a sua produção no mercado.
Uma empresa é competitiva quando o preço de venda dos bens e serviços que produz é maior que os seus custos de produção.
A competitividade da empresa diminui quando aumenta a taxa de juro (que é o preço do capital) e o salário (que é o preço do trabalho).
Uma empresa monopolista (num mercado protegido) pode aumentar a sua competitividade aumentando o preço de venda dos seus bens e serviços. É o que acontece, por exemplo, com a EDP.
Uma empresa monopolista é sempre competitiva.
Uma empresa num mercado concorrencial não tem controle sobre o preço de venda.

Porque a nossa crise actual é diferente de todas as outras
Numa crise normal, já estaríamos a começar a crescer e o desemprego a diminuir (como a Alemanha).
Mas esta crise é especial porque nos últimos 15 anos foi conduzida uma politica suicida de endividamento externo.
Como o governo não tem coragem de mexer nos custos do trabalho, esse endividamento despoletou um "ciclo de perdição" que nos vai conduzir à bancarrota e ao abandono da Zona Euro.
Vamos ver como.

1- A entrada no euro e as baixas taxas de juro.
Ao aderirmos ao Euro o governo (e as empresas e as famílias) passou a ter acesso a uma fonte inesgotável externa de crédito a taxas de juro muito baixas. Depois, governantes populistas (primeiro o Guterres e depois o Sócrates), conseguiram convencer os eleitores de que o endividamento externo nos permitiria viver para sempre como se fossemos ricos.
Quanto ao pagar as dividas no futuro seria uma brincadeira de crianças.
Isso induziu um aumento no nível dos salários e nos preços o que fez com que as empresas exportadoras perdessem competitividade (a "doença holandesa") em favor das empresas que produzem coisas não exportáveis (obras públicas, casas, cafés e distribuição).

2 - O aumento do risco de falência do Estado e o aumento da taxa de juro.
Portugal conseguia-se financiar a longo prazo a taxas de juro idênticas às alemãs até que veio o normal período de crise de 2008/9 no qual a Islândia faliu. Então, a elevada dívida dos países periféricos da Zona Euro passou a ser visto como um risco de bancarrota o implicou a subida da taxa de juro exigida a Portugal.

E a Grécia bancarrotou.
Se compararmos com as condições alemãs (1.80%/ano em contratos de 10 anos), as pessoas que emprestaram dinheiro a 10 anos à Grécia estão a trocar 100€ por 5.10€. É a bancarrota total.
Interessante é o facto de os comunas parecerem bezerras no desmame quando as agências de rating disseram que havia o risco da Grécia calotear e, agora que bancarrotou, não vêm dizer que afinal as ditas sanguinárias acertaram e eles erraram.

O caso português não é tão grave.
Mas é como um médico olhar para uma pessoa que não respira há um ano e dizer que nós estamos bem de  saúde porque só não respiramos há 48 horas.
Há pessoas que emprestaram dinheiro a Portugal a 10 anos e que, por cada 100€, contentam-se em receber 32.81€.
Alguma coisa vai mal no reino de Portugal para as pessoas assumirem a perda de 67% do dinheiro que pouparam e emprestaram a Portugal. E poupar custa muito.
Será que quem está a assumir tamanhas perdas nas suas poupanças é maluco ou o nosso governo ao dizer na televisão que está tudo bem, que os 14.8% de desemprego foi uma surpresa e que vamos no bom caminho é que está maluco?
Se foi surpresa logo, são uns incompetentes.

3 - Efeito da taxa de juro na competitividade das empresas
O Estado transmite risco às empresas porque é um cliente importante e tem poder de império (por exemplo, aumenta os impostos, rasga contratos e não paga o que deve às empresas). Então, o aumento da taxa de juro da dívida pública vai-se transmitindo às empresas.
Aumentando a taxa de juro, aumentam os custos financeiros das empresas.
O aumento dos custos financeiros implica que as empresas se tornem menos competitivas.
Têm mais custos e o preço é o mesmo porque depende do mercado concorrêncial.

4 - Efeito da diminuição da competitividade no emprego.
O único sítio onde as empresas em mercado concorrenciais poderiam refletir os incrementos dos custos financeiros seria na redução dos custos do trabalho (mais horas de trabalho e menos salário).
Como a nossa lei o proíbe, o Seguro fica todo contente com o discurso dos "direitos adquiridos" e o nosso governo tem a cabeça oca e enfiada no buraco pensando que com o tempo tudo se resolve, os custos do trabalho têm-se mantido.
Então, as empresas pequenas vão à falência e as maiores encerram as actividades menos competitivas.
As falência e a redução de capacidade fazem aumentar o desemprego.

5 - O desemprego aumenta o risco de bancarrota do país.
Fecha-se agora o ciclo negativo.
Aumentando a taxa de desemprego, aumenta a despesa pública (em subsídio de desemprego e políticas de combate à pobreza) e diminui a receita fiscal (diminuição da actividade económica).
Então, o aumento do desemprego faz aumentar ainda mais o risco de que o Estado vá à bancarrota alimentando assim o ciclo negativo.


Fig. 2 - A explosão do desemprego 

Quando é que isto pára?
Para parar o ciclo negativo os custos do trabalho têm que reduzir o que apenas se consegue pelo aumento do horário de trabalho e pela redução do salário nominal.

Eu proponho uma medida de choque.
   1- O horário de trabalho aumenta de 40h/s para 45h/s.
   2 - Os salários aumentam proporcionalmente, 12.5% (para ser declaradamente constitucional).
   3 - Aumenta-se a TSU do trabalhador de 11% para
        20% para os salários menores que 675€/mês (que actualmente é de 600€)
        29.5% para os salários maiores que 1250€/mês (como os recibos verdes)
        Uma regra linear no intervalos [675€; 1250€].
Em termos nominais os salários mais baixos aumentam 1.1% e os mais altos descem 11%.
   4 - A receita adicional será usada na redução da TSU do empregador dos actuais 23.5% para 5%.

Esta dupla medida causará uma redução dos custos do trabalho em 15%.
Tem a vantagem de diminuir o custo de um trabalhador a ganhar o salário mínimo (principalmente no sector exportador) de 485€/mês para 412€/mês sem diminuir o rendimento disponível desse trabalhador.

Mas o Krugman diz que é preciso reduzir os salários em 30%.
Vamos supor que os custos do capital são 40% e os custos do trabalho 60% no Valor Acrescentado;
Que as empresas amortizam o capital em 7 anos;
Que a taxa de juro normal é de 6%/ano e que a taxa de juro "com risco de país" passou a 12%/ano.
Então, os custos de capital aumentaram 22%.
Desta forma, os custos do trabalho têm que diminuir 22%*2/3 = 14.9%
    22%*0.40 + x*0.60 = 0

Vêm daqui os meus 15%.
Quando forem implementadas as minhas medidas, a competitividade das nossas empresas retorna imediatamente à situação de 2009 pelo que a taxa de desemprego tenderá a diminuir rapidamente para uma taxa inferior a 10%.

Mas os número do Krugman não estão errados.
Mas a situação da nossa economia já não era famosa em 2009 porque os nossos preços têm aumentado (+2.73%/ano) acima da média dos preços da Zona Euro (+2%/ano).
Considerando o período 1999-2011, esta pequena diferença anual traduz-se numa perda de 9%.
Mas a redução destes 9% adicionais obrigaria à descida do nível médio dos preços (deflação).
Acredito que estes 9% podem ser conseguidos no processo de ajustamento.
Como disse o Mao, mesmo a maior de todas as marchas começa com um pequeno passo.

Ou então sair da Zona Euro
Sair para poder desvalorizar o Escudo 15%.
Não se pode dizer, por um lado, que os salários não vão diminuir e, por outro lado, que nos vamos manter na Zona Euro.
Faço aqui ao Pedro Passos Coelho a pergunta que fizeram ao Teixeira dos Santos (qual a taxa de juro que obrigará o Sócrates a pedir ajuda?)

Coelho, qual é a taxa de desemprego que te obrigará a diminuir os custos do trabalho?
Estás à espera dos 25%?

Faltam 2 dias para saber se estou na Short List do Wolfson
No dia 6 de Março comunicarão se o meu trabalho sobre a saída do Euro está seleccionado para o grupo dos 10 com mais potencial de ganhar. Isto dá-me um nervoso miudinho.
Os meus amigos dizem que fiz mal em anunciar que tinha concorrido porque acreditam que o meu trabalho não presta (imaginem o que pensarão os meus inimigos). Então, vou passar por uma grande vergonha.
Se eu não tivesse dito nada, ninguém saberia do meu fracasso.
Eu penso que é sempre positivo anunciarmos o nosso trabalho.

1. Esforcei-me mais.
Como não queria passar pela vergonha de perder, tive que aplicar um esforço redobrado.

2. Confio no meu trabalho.
Trabalhei com afinco e respondi a todas as questões que a situação colocava. Mesmo tendo decorrido mais de um mês desde a entrega e de ter consultado 5 outros trabalhos submetidos, ainda não encontrei nenhuma opção melhor que a minha.
Um deles até tem uma introdução muito parecida com a minha mas a proposta de saida é diferente: defendem que os PIIGS devem sair todos ao mesmo tempo e com o procedimento usado na Chekoslováquia: suspender a liberdade de circulação de capitais e fazer a transição num fim de semana.
Até vi um que dizia que a Grécia irá sair da Zona Euro no proximo fim de semana de 10-11 de Março ou no seguinte (17-18 de Março).

Fiquei com a convicção de que fiz tudo o que estava ao meu alcance e, se ganhar, não será uma grande surpresa.
Se perder não será por eu ser calaceiro. Aconteceu.
Imaginando que perdi, fico com curiosidade de ver o que propuseram os vencedores.
Acredito que possa haver trabalhos melhores que o meu mas estou com curiosidade para os ver. 

Perder será como ver o Real Madrid ser goleado pelo Barcelona. Fico triste porque gosto do Mourinho mas hipnotizado pela beleza do jogo do Guardiola.
Também espero que esse trabalho me deixe hipnotizado pelo brilhantismo da solução apresentada.

Estou a pensar arranjar uma amante.
Uma mulher dá muito trabalho pelo que será melhor uma amante casada e com filhos. Já tenho uma debaixo de olho. 
É jeitosa para não dizer que é boa como o milho e muito ingénua. Se eu lhe disser que preciso apalpar-lhe as mamas para ver se amanhã chove, ela acredita.
Com o pouco que disse já muita gente vai descobrir quem é. Se digo mais alguma coisa, torna-se público.
Ter uma amante será como um divorciado que tem um filho: quando está cansado de aturar a criança, manda-a para o outro. Quando ganha saudades, vai lanchar com ela à saida da escola.
E é positivo mesmo para o "enganado" pois, imaginando que há qualquer coisa no ar, tem que dar o litro. Vai passar a fazer umas caminhadas, umas dietas e a barba antes de "deitar".

Fig. 3 - A "candidata" a minha amante é parecida com esta. Pensando bem, esta amante vai contribuir mais para a minha felicidade que ganhar os 300000€. Imaginando 1000€ de felicidade por carimbadela, amortiza-se a coisa num ano.

Amante que se preze, faz a barba a toda a hora.
Dizem as mulheres que a barba-por-fazer fica bonito no Mourinho mas que é o que mais odeiam nos seus homens porque dá-lhes cabo da pele.
Outra vantagem de ter uma amante é que a mais chata das conversas se torna agradável.
Ninguém tem uma amante para conversar. Quando ela começa a falar da mulher a dias ter partido um prato qualquer; da criança ter batido num colega de escola; da mãe dela dizer mal do seu legitimo homeme; etc. a gente até se ri porque pensa "coitado do desgraçado que tem que aturar esta conversa".
    - Vamos ao castigo amor.
O amante é como o funcionário dos CTT: não quer saber o conteúdo da carta porque está ali apenas para carimbar.
Diz o povo na tua sabedoria
"Se vires um homem por barbear ou é solteiro ou está na hora de atacar".

Diz o marido para a mulher
  - Amor, o que faz aquele homem dentro do nosso guarda fatos?
  - Está a concertá-lo.
  - E precisa estar nu?
  - É por causa da traça, ficou com medo que lhe comesse a roupa.
  - Aaah, é um homem previdente. Nem eu, que me considero inteligente, me lembrava de tomar essa precaução. É uma profissão dificil, deve passar muito frio.
  - Pois.

Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

João Silva disse...

Caro Professor,

críticos sempre existiram e sempre existirão! São mesmo uma forma de nos fazer crescer.
Penso que tem prestado um serviço (quase público) ao esclarecer uma enorme quantidade de pessoas sobre a verdadeira situação do país e sobre possíveis soluções exequíveis devidamente fundamentadas!
No meio de tanta demagogia e mentira neste país, faço-lhe uma vénia!
Só tenho pena que as pessoas a governarem este país estejam controladas por um grupo de cabeças 'ocas' focadas nos seus próprios interesses, antes do interesse de toda a sociedade.
Continue o bom trabalho =D

Fernando Ferreira disse...

O problema da crise mundial com o consequente desemprego vai continuar enquanto o modelo monetario mundial nao explodir, este modelo baseado em dinheiro-papel, inesgotavel, criado por bancos centrais as ordens do poder politico. Passaram 41 anos desde que os EUA abandonaram por completo o padrao-ouro e o balao vai explodir, mais cedo ou mais tarde, tal como todos os dinheiros-papel criados no passado acabaram por colapsar. Muitos economistas como o Pedro propoem N "solucoes" (Aumento o horario de trabalho daqui, estico a TSU dali, nao sei quantos por cento para ca e para la) mas sem nunca reconhecer que o problema esta no demasiado poder do Estado na economia (e em todos os aspectos da vida das pessoas) e no controlo do monopolio de criacao de dinheiro. Veja-se, por exemplo, o FED: Criado ha 99 anos atras, conseguiu a proeza de desvalorizar o dolar quase completamente: 1 dolar de 1913 tem o poder de compra de 1 centimo de 2012.
Enquanto o mundo nao compreender que a razao dos problemas actuais esta no demasiado poder do Estado, nada vai mudar... Eles vao continuar a empurrar o problema para a frente, o FED imprime mais uns trilioes, o BCE outros tantos, O Banco do Japao nao quer ficar atras, as bolsas vao "subir" com o novo dinheiro e as taxas de juro quase a zero e os politicos vao sorrir e dizer que eles "resolveram a crise" e que agora, esses gananciosos especuladores capitalistas, esses malvados, tem de cumprir nao sei quantas regulacoes... Ate ao proximo sinal de colapso... Cumprimentos!

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