domingo, 4 de março de 2012

Os danos sociais da austeridade

Sinais




1. Abandono no ensino superior.

1.1. A Juventude Comunista Portuguesa (JCP) denunciou recentemente que cerca de 100 alunos abandonam todos os dias o Ensino Superior no país devido às crescentes dificuldades económicas, noticiou a agência Lusa. Vamos dar um desconto e admitir que serão só 50 por dia que abandonam exclusivamente devido à crise. São poucos? São filhos da classe média que abandonam o horizonte de um melhor futuro para os próprios e para o país.

1.2.  No estudo “Classes sociais e estudantes universitários: Origens, oportunidades e orientações” (Revista Crítica de Ciências Sociais, 66, Outubro 2003: 45-80), em que o caso de máxima desigualdade de oportunidades é o que, com base nos dados da população portuguesa para 1981, opõe filhos de famílias com ensino superior e filhos de famílias de iletrados, os primeiros com 55 vezes mais hipóteses de chegar à universidade do que os segundos. Somos todos iguais, uns mais do que outros! Não é por acaso que os norte-americanos consideram mesmo que a qualidade de vida das crianças da classe média é uma questão de segurança nacional. Imagine que o seu filho lhe pede para ir estudar para a melhor universidade do país que fica em Lisboa e você mora no Porto ou em Braga. Imagine que é obrigado a negar-lhe essa mais-valia?  Multiplique isso pelos milhares de famílias da classe média portuguesa em decadência (ver ponto 3 mais abaixo). Dentro de 10 ou 20 anos, o país estará mais incompetente, com quadros menos competitivos e inteligentes. Não somos os EUA para considerarmos este cenário um problema de segurança nacional, mas devemos ter a noção de que o nosso futuro está em causa. Em média, não é nas classes mais altas, confortadas normalmente por heranças de antepassados, nem nas classes mais baixas, toldadas por ambientes pouco propícios ao desenvolvimento intelectual, que está o futuro do país. Parece-me uma evidência.

1.3. Para os mais cépticos sobre esta ligação umbilical da classe média ao saber mais qualificado e da sua importância para o futuro do país, aqui está mais um elemento. No estudo "Condições Socioeconómicas dos estudantes do Ensino Superior em Portugal" (ver aqui estudo completo), verificou-se que que 58% dos estudantes são provenientes das categorias sociais melhor equipadas de recursos económicos, culturais e sociais – os empresários, dirigentes e profissionais liberais e os profissionais técnicos e de enquadramento.
Existe uma forte prevalência de origens sociais de profissionais técnicos e de enquadramento (40%), sendo estes, aliás, os maiores portadores de qualificações, reflectindo-se nas próprias trajectórias escolares dos filhos. Estes estudantes ultrapassam um terço do conjunto do universo em referência. Aconselho a analisar bem estes dados, expostos aqui em quadro.



2. A saúde em causa.



2.1. A mortalidade em excesso "por todas as causas" atingiu na semana passada os 3080 óbitos, aumentando para 6110 a cifra das duas últimas semanas, revelam dados oficiais noticiados pelo Expresso do último sábado. Em declarações à agência Lusa, Baltazar Nunes, técnico do Departamento de Epidemiologia do Instituto Nacional de Saúde Dr. Ricardo Jorge, disse que na última semana, de 20 a 26 de fevereiro, a mortalidade "por todas as causas", com valores acima do esperado e observada principalmente entre idosos com 75 ou mais anos, fixou-se nos 3080 óbitos.

2.2. Não seria legítimo ligar todos aqueles óbitos à crise, e nem sequer parte deles, se outras notícias não nos fizessem apontar precisamente nesse sentido. O ex-director-geral da Saúde Constantino Sakellarides declarou que a crise económica pode ser responsável pelo aumento do número de mortes das últimas semanas. “O facto de as pessoas viverem com mais dificuldades são hipóteses plausíveis” para o anormal pico de mortalidade, referiu em declarações à TSF, na última sexta-feira.Um estudo “publicado muito recentemente que revela que a população portuguesa é na Europa aquela que tem mais dificuldades em manter a casa quente”. Como mero exemplo, recorde-se que o IVA sobre a eletricidade e gás natural passou a ser de 23% em Setembro de 2011, encarecendo sobremaneira o custo do conforto nos lares portugueses.

2.3. A ideia de que a crise pode acelerar a mortalidade não é propriamente uma ideia do senso comum, um palpite para conversa à mesa do café. Michael Marmot, diretor do International Institute os Society & Health, da University College of London, defende que a classe social influencia o estado de saúde e esperança de vida. Ele refere-se ao desenvolvimento infantil, a educação e formação, as condições de emprego, o rendimento, a existência de locais saudáveis e sustentáveis na comunidade e fatores como o tabagismo, o álcool, a obesidade e o exercício físico. Ora, todos sabemos como a crise tem afetado notoriamente alguns daqueles domínios. É possível estimar o impacto? "Se todas as pessoas com mais de 30 anos tivessem a taxa de mortalidade em valores tão baixos como a que têm os licenciados, haveria 202 mil mortes a menos por ano. Isso corresponde a 40% de todas as mortes por ano", explicou Marmot, referindo-se a Inglaterra. À escala portuguesa, os resultados poderiam ser interessantes de analisar e daí retirar conclusões para a governação. (veja aqui entrevista de Michael Marmot).

2.4. A realidade é o que é. Pode ser chata e incómoda, mas não há nada a fazer. Noticiava o Expresso de há duas semanas que os doentes crónicos estão a ficar sem dinheiro e, consequentemente, a abandonar a medicação. Estamos a falar de asmáticos, diabéticos e doentes mentais. Muitos aparecem nos hospitais não para consultas, mas sim nas urgências, devido ao seu estado agudo. Alguns perderão a vida? Provavelmente. (ver artigo aqui).

3. O ataque à classe média.



3.1. "Da leitura de A Classe Média: Ascensão e Declínio, do sociólogo Elísio Estanque (ed. Fundação Francisco Manuel dos Santos, janeiro de 2012) há uma ideia que fica clara: o destino do País confunde-se com o destino da classe média. Foi assim com a prosperidade ilusória. É agora assim com a austeridade. Acabou o tempo dos novos-ricos. Chegou a hora dos novos-pobres. E foi tudo muito rápido", refere Paulo Ferrreira, num artigo publicado pelo Dinheiro Vivo (ver aqui).  "Somos atores principais de tempos raros. Hoje, é generalizada a noção de que a próxima geração vai viver pior do que a nossa. Sempre assistimos ao inverso disso, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial. Olhamos para trás e constatamos que vivemos melhor do que os nossos pais, que por sua vez já tinham vivido melhor do que os nossos avós. Com mais conforto e melhores condições de vida, mais instruídos, com carreiras profissionais mais bem remuneradas, crescentemente com acesso a mais mundo".

3.2. Cerca de 100 mil pessoas em Portugal têm os ordenados penhorados. A lei limita a penhora até um terço do vencimento, o que tem permitido recuperar mensalmente cerca de 13 milhões de euros. “A penhora de vencimentos e de outro tipo de bens tem vindo a aumentar significativamente”, disse Carlos de Matos, presidente do Colégio da Especialidade dos Agentes de Execução. Nos últimos anos, os portugueses “endividaram-se sem limites” e, com a crise económica, “as pessoas começaram a ter cada vez mais dificuldades em cumprir com as suas obrigações”, acrescentou (ver aqui). Ora, normalmente quem se endivida é uma classe média (média-média e média-baixa) que aspira ao conforto de um alemão ou sueco. Quer uma casa e não tem mercado de arrendamento dinâmico e competitivo. Quer carros e o crédito é a solução, porque, caso arrendasse a preços normais, muito mais sobraria para comprar o carro a pronto ou quase. As pessoas querem LCD e iPads. Não devemos criticá-los (ou a nós próprios) excessivamente porque todo o país embarcou nessa ilusão do consumo entre 1986 e os primeiros anos 2000, altura em que os fundos comunitários chegavam aos milhões diariamente e a economia virtual das finanças internacionais, que redundou na crise de 2007-2008, contaminava a nossa banca e empresas, já para não falar do próprio Estado. Sempre que nos aproximávamos de um banco, atiravam-nos com um empréstimo para cima, pagando juros e spreads baixos. Como as coisas mudaram!

Pedro Palha Araújo

0 comentários:

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code