sexta-feira, 30 de março de 2012

Será que fui derrotado? Será que as taxas de juro estão bem?

O anúncio da queda nas taxas de juro é um embuste.
Nos últimos dias o governo tem anunciado que as descidas observadas nas taxas de juro implícita da dívida pública portuguesa indiciam que estamos a ser bem governados.
Isto é completamente errado e resulta de o nosso Primeiro, por ser filho de um médico, acreditar no efeito placebo. Fazendo o paciente acreditar que lhe estamos a dar um remédio muito potente (mas que é apenas farinha triga), ele melhora. Depois, anunciamos que já se observam melhoras significativas e ele fica completamente curado. Sem fazermos absolutamente nada.
Como eu queria com toda a minha força que isso fosse verdade pois recuperaria o "corte provisório de 5%" mais o "corte provisório dos subsídios" que durará "enquanto Portugal estiver a receber assistência internacional".
Rezo todos os dias à alma do gato da minha colega Manuela a ver se ela, a alma pois o bicho´é adubo da árvore que sempre lhe fez sombra, faz o milagre disto se tornar verdade.

Fig. 1 - O gatinho da Manuela depois de apanhado a fazer uma asneira. Rinhauuu...

A taxa de juro é imprevisível.
Se alguém soubesse, com certeza, que amanhã a taxa de juro ia estar menor que hoje, comprava imediatamente divida pública e vendia-a amanhã, tendo um ganho certo. No caso contrário, vendia hoje dívida e re-comprava-a amanhã, tendo também um ganho certo.
Como isso não é possível (todos ganhariam a todo o tempo), resulta o conceito de Mercado Eficiente, ME.

A melhor previsão para a taxa de juro futura é a taxa que se observou hoje.
Por isso, acreditar que alguém sabe em que sentido a taxa de juro vai evoluir é o mesmo que acreditar que a alma do gato da minha amiga foi para o Céu e que, se eu lhe rezar, vou voltar a receber aquelas maquias.
Eu, a Cristas e o Passos acreditamos que sim mesmo sabendo que não se vai concretizar.
"Tenho fé que vai chover nos próximos dias mas, se não chover, não perco a fé", Cristas
Mas fé em quê? Não é fé que vá chover mas noutra coisa qualquer.

Vejamos a evolução da taxa de juro dos últimos tempos.
Em 1/1/2010, quando começou a "Crise Portuguesa da Dívida Soberana", a taxa de juro a 10 anos exigida à divida pública portuguesa estava nos 4%/ano que comparava com 3.3%/ano para a Alemanha. Neste caso, a probabilidade de Portugal falir com um hair-cut de 75% (pagando 25% da obrigação) era antecipada como 8.7%.
        (1+4%)^10 x (25% x 8.7% + 100% x 92.3%) = (1+3.3%)^10

Em 23/3/2011, quando o Sócrates se demitiu, a taxa de juro portuguesa estava nos 7%/ano que comparava com  3.35%/ano para a Alemanha. Nesta altura, a probabilidade de Portugal falir estava avaliada em 39.1%.

Em 30/3/2012, já depois da "fortes quedas", a taxa de juro esteve nos 11.53%/ano que comparava com  1.80%/ano para a Alemanha. A probabilidade de Portugal falir está avaliada em 80.0%.
Quando o Sócrates teve que partir, a taxa estava nos 7%/ano e agora está nos 11.53%/ano. Se isto é demonstrativo do bom desempenho do Governo do Passos Coelho, eu vou ali e já volto.
Fig. 2 - Evolução da Taxa de Juro implícita da dívida Pública Portuguesa a 10 anos
(dados: Bloomberg)
A tendência
O conceito de ME diz não ser possível prever que, para o futuro, a taxa de juro terá uma tendência de subida. Se hoje a taxa de juro a 10 anos está nos 11.53%/ano então, o melhor que podemos dizer é que vai-se manter assim nos próximos 10 anos (que é o período de vigência do contrato).
Mas vamos supor que o podemos dizer sobre o passado e que a tendência verificada entre o inicio da "Crise", 1/1/2010, e o dia da demissão do Sócrates, 23/3/2011, se iria prolongar no tempo se o Sócrates e demais entulho governativo lá se tivessem mantido. Então, extrapolando essa tendência até ao dia de hoje, o mandato do Passos Coelho esteve sempre acima da tendência, o que é negativo, e apenas agora convergiu com a linha de Sócrates, o bancarrotador.

Sendo certo que o Sócrates encabeçou o pior governo que Portugal teve nos últimos 90 anos,
o Passos Coelho gaba-se quando ainda não conseguiu fazer melhor.
A taxa de juro estava nos 7%/ano e está nos 11.53%/ano, 4.53 pontos percentuais acima do que estava no dia da derrocada do socratismo.
O risco de bancarrota nos próximos 10 anos passou de 40% para 80%.
No melhor dos cenários, o Passos Coelho consegue estar na "previsível" tendência de degradação da situação economia nacional que aconteceria se ainda estivéssemos a ser desgovernados pelo Sócrates.
Se recordarmos que nesse dia 23/3/2012 se vivia um ambiente de cortar à faca, agora estamos  o dobro pior.

Nós vamos ao mercado em meados de 2013.
E tenho fé que vai chover muito ainda antes disso.
A afirmação de que vamos encontrar pessoas que, em meados de 2013, voluntariamente nos vão emprestam dinheiro não tem qualquer fundamento. É uma tontearia total.
Com a taxa de juro actual, 11.53%/ano, uma obrigação de 100€ a 10 anos equiparada a uma alemã (1.80%/ano), está a ser transaccionada por 43.80€.
Acreditando no Gaspar, que a taxa de juro estará nos 6%/ano, se alguém investir hoje 100€ em divida pública portuguesa a 10 anos, em meados de 2013, terá recebido 4.10€ em juros e as obrigações valerão 165.40€.

Fig. 3 - Em meados de 2013 Portugal já poderá ir aos mercados, comprar hortaliça.

Num prazo de 1 ano e 3 meses, será um ganho de 70%.
E sem qualquer risco, a menos que o Gaspar esteja enganado.
Eu, e toda a mais gente, considero as palavras do Gaspar equiparadas às do Sócrates quando dizia que "está tudo bem para não dizer que está óptimo". Pensamos nós e pensa ele pois, se acreditasse no que diz, estava cheínho de dívida pública portuguesa e, tanto quanto conste, não tem nem um euro emprestado ao Estado Português.
Tal como os administradores das empresas cotadas, deveria ser obrigatório que os membros do governo publicassem quanto têm de dívida pública na sua carteira de activos.

Qual é a taxa de juro sustentável para Portugal?
 Para simular o plano de pagamento vou ter que estimar certas grandezas.
H1) A divida é de 125% do PIB (pública e externa);
H2) Vamos reduzir a dívida a 60% do PIB em 30 anos;
H3) A taxa de inflação, se nos mantivermos no euro, será de 2%/ano (garante a Alemanha);
H4) A taxa de crescimento do PIB nos próximos 30 anos será de 1%/anos.

Fig. 4 - Estimativa para a taxa de crescimento do PIB nos próximos 30 anos
(dados: Banco Mundial, previsão do autor)

H5) Como o nosso défice público anda muito ligado ao défice comercial, o máximo que poderemos aspirar  de superávite para as contas do estado será o superávite conseguido pela Alemanha e pela China na década de 2000 para o seu saldo comercial: + 4.5% do PIB.

Fig. 5 - Balança comercial da China e da Alemanha, % do PIB (Dados: Banco Mundial)

Já posso fazer a simulação.
Dá uma taxa de juro limite de 5.5%/ano.

Isto é muito difícil para não dizer que é impossível.
As hipóteses consideradas têm risco.

Primeiro, é muito difícil que alguém alguma vez volte a emprestar-nos, a longo-prazo, dinheiro à taxa de 5.5%/ano.

Segundo, é muito difícil termos um superávite primário das contas públicas (e da balança comercial) de 4.5% do PIB. E mais num país habituado a défices enormes.
Passar de umas contas publicas com um saldo de -4% (sem juros) para + 4.5% é uma pancada de 15 mil milhões de euros que obriga a reduzir a despesa em 10% e aumentar os impostos em 15%.

Terceiro, o crescimento médio do PIB nos 13 anos de 2000 a 2012 ficou-se pelos 0.4%/ano pelo que não é certo que no período de consolidação consigamos um crescimento do PIB de 1%/ano.
Até podemos sonhar que vamos voltar a crescer 7%/ano como no ante-1974 mas isso é apenas um sonho lindo. Um sonho de quando éramos crianças e brincávamos às dívidas públicas.

Quarto, nos próximos 30 anos hão-de vir pelo menos mais quatro ou cinco crises tão graves como a actual. Olhando para os últimos 30 anos, o superávite comercial médio da China ficou-se pelos 2.1% do PIB e o da Alemanha pelos 1.1% do PIB (ver Fig. 5, linhas a tracejado).

Concluindo.
As taxas de juros implícitas de longo prazo da dívida pública estão proibitivamente elevadas.
11.53% é muito pior que o verificado no tempo do Sócrates o que indica que estamos numa situação muito pior que estávamos no dia em que o Sócrates se demitiu.
E ninguém no seu perfeito juizo pode garantir que as taxas vão diminuir nos próximos 10 anos.
Ninguém, a menos que alguém fale com Deus.
Podemos apresentar muitas desculpas e muitas histórias para justificar que os "7% do Sócrates" eram muito piores que os "11.53% do Passos Coelho" mas não passam de uma cantilena para adormecer o boi.
Como pode o Gaspar dizer que estamos no bom caminho se não indica minimamente como se podem arranjar os 15 mil milhões de euros em falta?
Vai ser impossível pagarmos o que devemos.

Mas ainda há notícias positivas.
A minha amiga Manuela perdeu o seu gatinho cujo corpo foi para debaixo da árvore e a alma para o céu.
Mas está praticamente com a sua tese de doutoramento concluída.
Claro que está uma pilha de nervos porque "os últimos dias" são os que custam mais a ponto de haver a Nossa Senhora dos Últimos Dias e a Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias.
Mas passam depressa.

Fig. 6 - Estou mortinho que a Manuela entregue a tese porque prometeu que, depois, vai trazer esta mulher para almoçarmos juntos. Vamos a isso rápido.

Pedro Cosme Costa Vieira

6 comentários:

Anónimo disse...

(1+4%)^10 x (25% x 6.5% + 100% x 93.5%) = (1+3.3%)^10


Parece que na expressão falta a incógnita.

Económico-Financeiro disse...

Obrigado pela sua questão principalmente porque o resultado estava errado:

(1+4%)^10 x (25% x P + 100% x (1-P)) = (1+3.3%)^10
<=>
(1-0.75% xP) = (1+3.3%)^10/(1+4%)^10
<=>
P = [1-(1+3.3%)^10/(1+4%)^10]/0.75
<=>
P = [1-(1+3.3%)^10/(1+4%)^10]/0.75
P= 8.7%
pc

António Dores disse...

Caro Professor:

Muito obrigado pelo esclarecimento.

Já agora e se não abusar da sua paciência pedia-lhe o desenvolvimento que lhe permitiu chegar à conclusão:

"Com a taxa de juro actual, 11.53%/ano, uma obrigação de 100€ a 10 anos equiparada a uma alemã (1.80%/ano), está a ser transaccionada por 43.80€.
Acreditando no Gaspar, que a taxa de juro estará nos 6%/ano, se alguém investir hoje 100€ em divida pública portuguesa a 10 anos, em meados de 2013, terá recebido 4.10€ em juros e as obrigações valerão 165.40€."

Fepiano disse...

Professor, concordo maioritariamente com você, mas neste post, alguma das suas afirmações roçam o ridículo.

Então compara a taxa de juro quando o Sócrates demitiu-se com a actualmente de forma linear?
Parece que não sabe que no período de transição resultante das negociações com a Troika e a eleição do Passos Coelho, a taxa de juro subiu constantemente.

Certo que mesmo depois de algumas medidas difíceis tomadas pelo actual executivo, a taxa de juro da dívida pública portuguesa continuou a subir, mas responsabilizar o actual governo pela pseudo-subida dos 7(,6)% para os actuais 11,629% é quase alhear-se do contexto que a Zona Euro vive, com receio sobre o futuro da Espanha e Itália, para além da falência mais que certa da Grécia.

PS: Já todos nós percebemos a sua aversão ao Euro, mas não podemos deixar que as emoções no façam perder a razão.

João Pinto disse...

Não faria mais sentido falar-se nas taxas do mercado primário?

Refere-se às taxas do mercado secundário, mas são as taxas do mercado primário que servem de base para o cálculo dos custos do Estado. O Estado financia-se no mercado primário, não no mercado secundário.

Por outro lado, relativamente ao défice comercial, é muito provável que nos próximos anos ela se converta em superávite comercial.

Anónimo disse...

Às vezes fico na dúvida se estou a ouvir comentários de economia ou de futebol.

A conjectura europeia justifica a subida dos juros na era Passos Coelho, já na era Sócrates nem pensar.

Dá para sentir a semelhança?

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