domingo, 1 de abril de 2012

Bancos de costas voltadas para a economia

A questão é pertinente. Os spreads dispararam, a corrida ao BCE por parte dos nossos bancos, para ir buscar liquidez a 1%, é um fartote e os depósitos dos bancos europeus (não se sabe em que medida dos nossos) é frequente, pese embora esse dinheiro depositado no BCE chegue a ser remunerado abaixo de 1% ao ano. E este dinheiro depositado no BCE fazia falta à nossa economia real (das empresas). Há empresas com spreads de 5% ou mais, isto quando conseguem algum crédito bancário depois de prestarem garantias colossais.



Efeito boomerang: empréstimos-depósitos no BCE

O financiamento do Banco Central Europeu à banca portuguesa aumentou em Fevereiro pelo quarto mês consecutivo, atingindo uma soma de 47,55 mil milhões de euros. O BCE injectou, no final de fevereiro de 2012, cerca de meio bilião de euros no mercado bancário de forma a reactivar o crédito aos particulares e às empresas na zona euro, mas esta operação teve um efeito boomerang, pois o dinheiro voltou em força aos cofres da instituição de Frankfurt. No dia 1 de março, 24 horas depois da operação de liquidez, os bancos efectuaram um recorde de 776,941 mil milhões de euros nos cofres do BCE, em depósitos diários, em detrimento de depositarem noutras instituições financeiras. O BCE permite que os bancos depositem o dinheiro a troco de um juro de 0,25%. Fazendo as contas, se o banco central vendeu o mesmo dinheiro a 1% no dia anterior, é evidente que a banca perde dinheiro com esta operação.

Vítor Constâncio para Mario Draghi: "Bem, sabes como os portugueses são... e vocês, italianos, ainda são mais mãos
de vaca para emprestar dinheiro. Se eu tivesse reparado no BPN há uns anos, esta balbúrdia não seria tão grave. 
Mas não desgosto do clima de Frankfurt"

BCP é o campeão no BCE

Repare-se atentamente nos dois gráficos seguintes. Só o BCP foi buscar ao BCE cerca de 15 mil milhões de euros (antes do último grande leilão). Colocando o problema do ponto de vista da percentagem dos ativos financiados pelo BCE, o BCP é imbatível. O BCE são dinheiros públicos, assim como as injeções de capital no setor feitas nos últimos anos. 

Quanto dinheiro cada banco já foi buscar ao BCE
Quanto dinheiro cada banco foi buscar ao BCE, em % dos ativos financiados

FONTE: UBS citada pelo Financial Times em: 

Euro system names n’ numbers



Banca está mal e o contribuinte é que paga

Os contribuintes portugueses já perderam 3,1 mil milhões de euros com o programa de apoio aos bancos, criado depois do início da crise financeira, em 2007. Um valor que já representa quase cinco vezes aquilo que o Governo planeia gastar com o programa de emergência social (640 milhões de euros). Estas perdas dizem respeito a injeções de capital público nos bancos, juros e garantias acionadas. Os números, publicados há dias pelo Instituto Nacional de Estatística (INE), mostram que metade do valor é da responsabilidade do BPN que, só em 2010, custou 1,8 mil milhões ao Estado (ver mais aqui).

Aproveito para reproduzir a seguir um artigo meu publicado no último sábado no JN e site Dinheiro Vivo e que ilustra um pouco do que a banca tem andado a fazer (ver original aqui).

Exportadores do Norte com menos crédito na banca

Os dados do Banco de Portugal mostram que o Norte, região responsável por 37% das exportações em 2011 (15,7 mil milhões euros), capta apenas 26% do crédito bancário para empresas (30,2 mil milhões de euros), contra 42% da região de  Lisboa (48,7 mil milhões de euros). Cruzando esses dados com o número de empresas exportadoras , (7208 a Norte e 6077 em Lisboa), bem como os valores das saídas por região, conclui-se quem mais vende ao exterior menos beneficiado tem sido na concessão de crédito.
Embora vários banqueiros reconheçam que as restrições ao crédito aumentaram, dando prioridade agora às sociedades exportadoras, a verdade é que o panorama  no final de 2011 ainda revelava desequilíbrios. As restrições da banca no crédito às empresas são frequentemente justificadas com o custo do financiamento dos próprios bancos.
"Relativamente aos cinco maiores bancos, a redução do custo de funding é bem significativa de 2007 para 2010 - 236 pontos base (pb) - e de 2010 para 2011 (projetado com base no primeiro semestre) o custo do funding poderá aumentar quando muito 31 pb", afirma Meira Fernandes, ex-gestor bancário e membro da tertúlia JN, Universidade Católica e Associação Comercial do Porto.

FONTE: Gráfico elaborado pelo economista e ex-gestor bancário Meira Fernandes, citado neste artigo,
e que já foi publicado duas vezes pelo JN até esta data

"Curiosamente, o Banco de Portugal teve uma intervenção ativa, limitativa, no funcionamento do mercado financeiro na ótica do 'preço da matéria-prima' para os bancos, quando impôs, no Outono passado, um limite máximo de 3% acima da euribor na captação de recursos [depósitos]. Mas nada fez para limitar o 'preço da matéria prima' para os utilizadores de crédito. Há crédito ao consumo a 33% e não há limites para taxas a cobrar nos empréstimos", considera o economista Meira Fernandes. "Quanto ao crédito às empresas, sob a forma de descobertos, as taxas praticadas aproximam-se em média dos 15%", acrescenta.

No ano passado, e com base nos cinco maiores bancos,  o juro cobrado pelos bancos situou-se nos 4,67%, mas o juro pago pela banca para se financiar a si própria ficou-se pelos 3,15%, um fosso que tem aumentado.

A UBS calculou os montantes que diferentes bancos europeus pediram emprestado ao Banco Central Europeu (BCE) a três anos com 1% de juro. BCP, BES e BPI conseguiram à volta de 26 mil milhões de euros através destes empréstimos.  O BCP tem à volta de 17% dos seus ativos financiados pelo BCE, colocando-se à frente nesse rácio dos maiores bancos espanhóis, irlandeses ou italianos. O BES surge em quarto lugar (15%).

Pedro Palha Araújo

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