sexta-feira, 13 de abril de 2012

A Irlanda, Portugal e a Espanha

Ainda há quem acredite na fada madrinha.

Ontem, 12 Abril 2012, no Jornal de Negócios, p. 40, o Nuno Carregueiro diz não saber porque a taxa de juro da dívida pública irlandesa, que há 8 meses estava nos 14%/ano, estar próxima dos 6%/ano enquanto que a portuguesa se mantém no mesmo nível (nos 12.5%/ano). Alega não compreender esta evolução porque a Irlanda está numa situação pior, diz, que a portuguesa. Mas avança com uma explicação: deve-se a uma imprensa desfavorável a Portugal e a um primeiro-ministro que ajuda a essa festa dizendo a verdade.
Vaticina que, se a imprensa e o primeiro-ministro dissessem que "está tudo bem para não dizer que está óptimo", logo ficaria tudo bem.
É incrível com a ignorância se transforma rapidamente numa opinião.
Nós portugueses começamos por dizer, "eu não sei" e "eu não compreendo" e, sem fazermos qualquer esforço para ficarmos a saber ou a compreender, atacamos com uma solução para tudo o que mexe.


Fig. 1 - Eu acredito que esta bonita mulher não toma drogas e que a Nossa Sr.a de Fátima nos vai salvar.


Conversa entre o Carregueiro e um irlandês gordo.
Diz o irlandês gordo:
- Sr. Carregueiro o que devo fazer para deixar de ser gordo?
Responde o Carregueiro:
- Eu não sei porque és gordo nem porque te custa tanto respirar quando sobes as escadas pelo que não faço ideia. Então, a razão de seres gordo está no facto de os teus vizinhos te chamarem gordo e a tua mulher dizer no cabeleireiro que tens falta de ar na hora H.
- Já sei a solução: os teus vizinhos têm que passar a dizer que estás magro e a sua mulher tem que te chamar Tarzan. Nessa altura deixas imediatamente de ser gordo e de ter falta de ar.
Diz o irlandês gordo:
- Mas amigo Carregueiro, como podes avançar com a terapia se acabaste de dizer que não sabes nada sobre o assunto?
Volta o Carregueiro.
- Não compreendo a tua duvida amigo irlandês. Seria fácil eu receitar-te uma dieta mas é muito mais inteligente convenceres os teus vizinhos para dizerem que estás magro.
- Garanto-te que, mesmo sem fazeres nada, quando os teus vizinhos passarem de dizer que estás magro, passas imediatamente a ser magro. Agora só tens que os convencer a fazer isso.
Conclui o irlandês gordo:
- É Carregueiro, o problema é que eu apenas os consigos convencer quando deixar de ser gordo. 


Como o Carregueiro nos comparou com a Irlanda.
No défice público estamos melhor.
O  défice público irlandês foi 11% em 2011 e prevê-se 8.6% para 2012 enquanto que o nosso foi  7.9%! em 2011 e este ano deve ficar nos 6%. 
No desemprego estamos melhor.
O desemprego irlandês foi 13.7% em 2010 e 14.4% em 2011 e em Portugal foi 12% e 12.9%.


Vamos ver o que diz a teoria económica.
Sendo que o Carraqueiro não sabe nem compreende o que se passa, vou pegar na teoria económica e ver como posso explicar porque somos diferentes da Irlanda.

A Balança Corrente.
As relações económicas entre os agentes económicos residentes num país e os residentes no exterior  agregam-se na balança corrente. Quando a balança corrente é negativa, o residentes têm que pedir dinheiro emprestado ao exterior, vender-lhes activos ou emigrar.
Quanto mais negativamente desequilibrada estiver a balança corrente e por mais tempo, maior será o perigo do país, como um todo, entrar em bancarrota.
Em termos internos, a balança corrente equilíbra-se com os custos do trabalho.
Então, para equilibrar um desequilíbrio negativo será preciso diminuir os custos dos trabalho.


O mercado de trabalho.
Para haver produção as pessoas têm que trabalhar. Então, taxas de desemprego elevados fazem diminuir o PIB. Como o trabalho conta 2/3 na produção, cada 1% de desemprego reduz o PIB em 0.67%.
O mercado de trabalho equilibra-se pela redução dos custos do trabalho. O desemprego indicia que há mais oferta (por parte os trabalhadores) que procura (por parte do empresários) pelo que se torna obrigatório a redução do preço do trabalho.

As finanças públicas.
Défices públicos elevados levaram a dívidas monstruosas provavelmente impossíveis de pagar. Esta probabilidade transforma-se em "risco de incumprimento" que é um spread que aumenta a taxa de juro que o soberano tem que pagar pela dívida pública.
As contas públicas equilíbram-se aumentando os imposto e diminuindo os serviços que o Estado fornece a preços reduzidos (principalmente, a despesa na Segurança Social, na Saúde e na Educação)
Como jogam as coisas.
Ao diminuir os custos do trabalho estamos ao mesmo tempo a reduzir o desemprego e a equilíbrar a balança corrente.
Ao equilibrar a balança corrente, os residentes deixam de pedir dinheiro emprestado ao exterior e passam a emprestar dinheiro ao Estado pelo que diminui a taxa de juro. A principal razão é psicológica:  os residentes  são menos sensíveis ao risco de bancarrota do seu Estado que dos Estados estrangeiros.
Para reduzir os custos do trabalho é preciso diminuir do salário mensal e aumentar as horas trabalhadas por mês.
Há a hipótese teórica de diminuir a carga fiscal sobre o trabalho, a TSU, mas isso tem um alcance limitado e desequilibraria ainda mais as contas públicas.


Como têm evoluído o custos do trabalho?
Supondo um trabalhador que ganhava 1500€/mês no ano do início da "crise do subprime", em 2007.
Na Irlanda ganha actualmente 1150€/mês. Houve uma redução nominal de 23%.
Em Portugal ganha actualmente 1525€/mês. Houve um aumento nominal de 1.7%.

Como tem evoluído a balança corrente?
Os esquerdistas dizem que diminuir os salários faz cair o PIB e destruir a economia. Chamam-lhe a espiral recessiva. Nada disso é verdade.

Em 2007/8 estávamos pior que a Irlanda. 
Nunca a situação irlandesa foi tão grave como a portuguesa. Em 2007/8 a Irlanda teve um desequilíbrio da balança corrente de -5.5% do PIB enquanto que Portugal teve o dobro, -11% do PIB.
Mas como previsto pela teoria económica, a diminuição dos custos do trabalho na Irlanda fez com que em 2010 e em 2011 já a balança corrente irlandesa seja ligeiramente positiva.
Pelo contrário, a balança corrente portuguesa acabou nos anos 2010/11 nos 10%.

Agora estamos muito pior que a Irlanda.
A Irlanda corrigiu a BC em 6% do PIB (de -5.5% para +0.5%) e nós em apenas 1% do PIB.

O que justifica termos taxas de juro nos 12.5% é não conseguirmos diminuir os custos do trabalho.
Naturalmente que as pessoas não querem ver o seu salário diminuir e o seu horário e trabalho aumentar.
Pensa o Passos Coelho que dizer publicamente que temos que ganhar menos é muito impopular pelo que é melhor falar de coisas genéricas como a "renegociação das parcerias publico privadas" nas quais vai poupar para aí uns 50 milhões de euros.
são 0.1% do que temos que pagar pelas PPP e vão ser gastos em pareceres jurídico e nas negociações.
Esta incapacidade política o governo dizer abertamente que o salários têm que diminuir e que o horário e trabalho tem que aumentar é que faz as taxas de juro manterem-se elevadas.
Não diminuindo os custos do trabalho, o desemprego não diminui e a balança corrente não corrige havendo mais necessidade de dinheiro do exterior.

Dizem os comunas que, então, os salários vão cair para o nível dos dos chineses.
Em termo de poder de compra equivalente, o salário médio na China anda pelo 350€/mês (cálculo efectuado pela comparação do PIBpc, ppp).
Para vermos porque os comunas mentem, tenho que explicar como se determinam os salários relativos dos países. Para isso tenho que lançar mão a um teoria com quase 200 anos. Já tem tanto tempo (deve-se a David Ricardo, o maior contributo de um português para a teoria económica, português judeu de Amsterdão) que já toda a gente tem obrigação de a conhecer, até os comunas.

Vantagens Comparativas Relativas.
Motivado pelo clima, a escolaridade, as infra-estruturas, os recursos naturais, etc., nuns países as pessoas são mais produtivas e noutros menos. Os países são pobres porque lá as pessoas são, em média, menos produtivas.
Vamos imaginar que a produtividade de um trabalhador se traduz no número de horas que precisa para produzir um determinado bem. Um chinês demora mais tempos a fazer um bem que um português. Por exemplo, existem na economia 4 bens que em cada país demoram x horas a ser produzidos:

                              China            Portugal            Rácio
Têxteis                       88                 80                  1.1
Sapatos                   150                 50                  3.0
Televisores              108                 30                  3.6
Automóveis             300                 60                  5.0

A teoria da vantagens relativas garante que a China ao especializar-se na produção dos bens em que o rácio das produtividades é mais baixo e Portugal nos bens em que o rácio é mais elevado, haverá ganho para ambos os países. Neste caso, em função dos salários relativos, a China irá produzir Têxteis e Sapatos que exportará para Portugal que, por sua vez, produzirá Televisores e Automóveis que exportará para a China.
Mas na China um trabalhador demora mais tempo a fazer Têxteis que em Portugal pelo que, para o preço ser menor que o Têxtil produzido em Portugal, o salário tem também que ser menor.

Preço = Tempo x Salário

Para a China produzir Têxteis:              88 x Salário_China < 80 x Salário_ Portugal
Para a China produzir Sapatos:          150 x Salário_China < 50 x Salário_ Portugal

Para Portugal produzir Televisores:    30 x Salário_ Portugal < 108 x Salário_China
Para Portugal produzir Automóveis:    60 x Salário_ Portugal < 300 x Salário_China

Então, desta condições resulta que para a China produzir (e exportar para Portugal) Têxteis e Calçado terá que ter um salário médio
Salário_China < 0.33 x Salário_ Portugal

E Portugal para poder produzir e exportar para a China Televisores e Automóveis tem que ter:
Salário_ Portugal < 3.7 x Salário_China

O salário relativo vai ficar entre estes valores. Se, por exemplo, na China o salário médio for 350€/mês, em Portugal poderá ser entre 1050€/mês e 1295€/mês.

O que acontece se o salário for maior que 1295€/mês?
A China passará a produzir Televisores e como a nossa produção de Automóveis não é suficiente para pagar todas as nossas importações, a balança corrente fica negativamente desequilibrada.
Para equilibrar novamente a balança, os nossos salários têm que diminuir.

Não são os baixos salários que tornam a China competitiva mas, pelo contrário, o ser a China pouco competitiva é que obriga a que os seus salários sejam baixos.

Se temos a balança corrente negativa, temos que desvalorizar os nossos salários até a balança corrente equilibrar.

E como está a evoluir a Espanha?
Tem uma taxa de desemprego elevadíssima e os custos do trabalho aumentaram.
A balança corrente não corrige (foi -4.5% do PIB em 2011 e está a piorar).
O governo disparata contra tudo e contra todos em vez de tomar as medidas certas: descer os custos do trabalho.
Está tal qual os da Guiné Bissau.

Amigo Nuno Carregueiro, espero que tenha ficado a compreender porque as taxas de juro da Irlanda desceram e as nossas não.

Pedro Cosme Costa Vieira

3 comentários:

Anónimo disse...

então e a irlanda? nao tem defice da balanca corrente nem defice comercial e tem desemprego muito elevado. como se explica?

HC disse...

Caro Professor Pedro,

Mais uma vez gostei muito deste seu artigo, vou aprendendo sempre que visito o seu site, e sem ser economista consigo perceber que o que diz faz sentido.

Neste artigo para mim não é claro o seguinte. O professor diz:
"Ao equilibrar a balança corrente, os residentes deixam de pedir dinheiro emprestado ao exterior e passam a emprestar dinheiro ao Estado pelo que diminui a taxa de juro." Sendo que a balança equilibra pela redução dos custos de trabalho. Mas eu questiono, se essa redução dos custos de trabalho não poderá ser completamente nefasta a longo termo, ao criar um padrão de pobreza exactamente nas pessoas que têm emprego. E sendo criado esse padrão de pobreza, não entendo como o cidadão pode emprestar dinheiro ao estado. Se eu não ganho não posso poupar. Eu acredito que o que diz, aplica-se com pertinência a países com a Bélgica onde vivo, onde o salário mínimo ronda 1200 euros, e onde de facto há margem para uma redução do preço do trabalho sem que a saúde económica individual (e saúde piscologica etc) seja posta em causa. Em Portugal em que o custo de vida é semelhante ao da Bélgica e o salario minimo e médio metade do que neste país, não vejo como podem ser reduzidos os salários, sem que isso não produza uma onda de pobreza difícil de corrigir no futuro, numa hipotética fase de economia mais saudável. Na minha modesta opinião o problema da pobreza não esta só no dinheiro que não se tem, mas nas capacidades/competências que se perdem por o não ter.

João Pinto disse...

Bom dia Pedro,

O tema é pertinente e no artigo é abordado um conjunto de elementos importantes para distinguir a Irlanda de Portugal. A balança comercial da Irlanda é muito superior à portuguesa. Aliás, as nossas exportações representam entre 30-40% do PIB, enquanto na Irlanda aquele valor é muito superior.
No entanto, no desenvolvimento da teoria das vantagens relativas, esquece-se de que o fator custo não é o único a ter em conta; de igual forma no cálculo do PIB a quantidade não é o único fator a ter em conta. Não sei se já se apercebeu que Portugal exporta sapatos de elevado valor acrescentado para a China e a China exporta para Portugal sapatos de baixo valor acrescentado. Ou seja, há fatores, por vezes mais importantes, que entram nesta equação. Não é pelos custos mais baixos que a Irlanda consegue exportar muito mais do que nós. É porque as suas empresas se especializaram e são mais competitivas do que outras de outros países, mesmo sabendo que os custos são mais elevados.
Não lhe parece paradoxal o facto de Portugal ser dos países com mais horas de trabalho e ao mesmo tempo ser dos menos produtivos? Será porque os portugueses trabalham devagar? Ou estará mais relacionado com o valor acrescentado dos produtos de outros países? Por que é que os países do leste Europeu, sendo os países com mão de obra mais barata, também são os menos produtivos da Europa? Porque trabalham mais devagar? Ou será porque os produtos que fabricam são de baixo valor acrescentado. Como sabe, a produtividade é calculada pelo VAB a dividir pelos fatores de produção.

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