sexta-feira, 25 de maio de 2012

O BCE não pode ser "credor de último recurso"

Não vou chamar ignorantes
às pessoas que defendem que o BCE deve salvar os estados europeus falidos comprando a sua dívida pública. Vou antes dizer que neste lote de pessoas enganadas existem indivíduos mais escolarizados como médicos, advogados, engenheiros e economistas e outros menos escolarizados como os 4.a classe e os 12.º das novas oportunidades que se sentem perdidos.
Quando ouço antigos governantes dizerem que "o BCE tem que ser credor de último recurso como o FED americano é, e eu sei do que falo porque ensino esta matéria há muito tempo", compreendo imediatamente porque estamos no fundo.
Ser isso seria emprestar todo o dinheiro que a Grécia, Portugal, a Espanha, etc. quisessem.
Se a coisa nos deu a volta à tripa, está na hora de por aquilo tudo para o esgoto e experimentar outra receita.

Fig. 1 - Irininha, como estás incluída na conta do jantar, hoje vou ser o teu sheik


O FED pode ser mas nunca foi.
O FEB americano faz as vezes do BCE, banco central europeu, e pode ser credor de último recurso mas nunca o foi. Nunca, jamais o foi porque o Estado Americano nunca entrou em banca rota nem nunca usou a inflação para fugir ao pagamento da sua dívida.
O FED pode o ser mas se alguém pensasse que o poderia de facto vir a ser, automaticamente, ninguém mais emprestaria dinheiro denominado em Dólares Americanos. Não só deixavam de emprestar ao estado americano como deixavam de realizar contratos em dólares.
Vamos ver se eu consigo explicar porque o Banco Central não pode ser credor de último recurso.

Vou criar uma Zona Monetária.
Hoje vemos as Zonas Monetárias (a moeda, os bancos centrais, o sistema monetário) como instituições públicas pertencentes a um país. Mas isto apenas acontece porque os governantes querem mandar em tudo o que existe.
De facto, qualquer pessoa pode criar uma Zona Monetária inventar uma moeda, fundando um banco central e promovendo-se a seu governador.


Fig. 2 - Eu não vejo mesmo nada, os óculos devem estar com as persianas fechadas.

A minha moeda denomina-se Conto, Ç.
Vou fazer uma moeda valiosa porque os ignorantes pensam que é "uma moeda forte".
Como não tenho país para medir taxas de inflação, de juro ou crescimento do PIB, vou atribuir à minha moeda um câmbio a um cabaz com moedas do Mundo. Pego numa moeda de cada continente, atribuo uns ponderadores a cada uma e fixo que o cabaz vai ter o valor de 100. A partir daqui determino a taxa de câmbio inicial do Ç contra cada um das moedas. A partir destas moedas, posso determinar a cotação de qualquer moeda.


Moeda

M/EUR
Peso
Calc1
M/Ç
Calc2
DÓLAR, USA
USD
1,256
30%
0,377
6,498
1,949
EURO, Zona Euro
EUR
1,000
20%
0,200
5,175
1,035
IENE, JAPONÊS
JPY
99,750
15%
14,963
516,168
77,425
YUAN, CHINA
CNY
7,954
15%
1,193
41,160
6,174
LIBRA, UK
GBP
0,8010
10%
0,080
4,145
0,414
REAL, BRASIL
BRL
2,557
4%
0,102
13,229
0,529
RAND, ÁFRICA DO SUL
ZAR
10,50
3%
0,315
54,357
1,631
RUPIA, INDIA
INR
69,84
3%
2,095
361,406
10,842




19,325

100,00

E2: =C2*D2     E10: =Sum(E2:E9)     F2: =100 * C2/E$10     G2: =F2*D2     G10: =Sum(G2:G19)  
Quadro 1 - Determinação do valor do Conto (*Banco de Portugal, 24/5/2012)

A minha política enquanto Governador da Zona Monetária.
Agora tenho que publicitar como vou governar a minha Zona Monetária. O mais fácil é observar a cada segundo as cotações das 6 moedas entre si e recalcular a cotação do Ç de forma a dar 100 com o procedimento do quadro 1.

O meu regime é de câmbios fixos. Apesar de a minha regra fazer as cotações individuais das moedas oscilar livremente, globalmente eu mantenho um regime de câmbio fixo ao "valor médio" do cabaz de moedas.

A taxa de inflação da minha zona monetária será a média da taxa de inflação das zonas monetárias que pertencem ao cabaz contra o qual eu vou manter um câmbio fixo.

Se eu quisesse manter a inflação num determinado nível, por exemplo, 2%/ano, teria que calcular a taxa de inflação média dos países do cabaz e corrigir a minha cotação na diferença. Por exemplo, se em média a inflação fosse de 3%/ano então, eu valorizaria a minha moeda em 1% fazendo-a passar de 100 para 101 pontos.

A minha Zona Monetária é estável.
Primeiro, não existindo moeda em circulação, não há a possibilidade de alguém fazer um ataque especulativo tentando trocar massivamente Ç por outra moeda do cabaz.
Segundo, como uso as cotações cruzadas para determinar a cotação do Ç, não há possibilidade de eu ter prejuízo se alguém arbitrar entre as moedas do meu cabaz. Eu vou cobrar, como fazem todos os bancos, 1% de taxa de transacção pelo que, se alguém quiser cambiar moedas, eu ainda ganho a  margem.


Agora vou "vender" a minha Zona Monetária.
Mesmo sem imprimir moeda e sem haver circulação, em qualquer parte do Mundo podem ser feitos contratos com denominação em Contos. E.g., no Chade pode ser feito um contrato de trabalho em que o salário são 10 Ç/mês.
Também podem ser feitos empréstimos e negociadas taxas de juro em qualquer parte do Mundo mesmo sem eu emitir qualquer nota. Pode haver contratos no valor de milhares de milhões de Contos sem existir qualquer nota em circulação.
Se eu quebrar a minha regra, por exemplo, desvalorizando o Conto, isso vai ter impactos tremendos nos contratos que existem por esse mundo fora. Umas pessoas serão beneficiadas (os devedores) e outras prejudicadas (os aforradores).

A Albânia decidiu adoptar a minha moeda.
Então, vou-lhes vender um milhão de Contos em notas. Mando imprimir as notas e vendo-as recebendo outras moedas que façam parte do meu cabaz. 
O valor da venda não será lucro porque tenho que guardar essas divisas para fazer face há a possibilidade de, mais tarde, os albaneses quererem cambiar os Contos nas outras moedas do cabaz (um ataque especulativo contra mim).
Para eu não ter risco, tenho que manter as minhas divisas exactamente na proporção que uso no calculo do cambio da minha moeda. Se alguém cambiar Contos por Euros, tenho que trocar parte dos Euros pelas outras moedas para refazer o mix das minhas divisas.

Fig. 3 - Esta albanesa, a Floriana Garo, dava para um Selo. Dava gosto carimbar.
Até o buço lhe fica a matar.

Eu não tenho lucro.
Para não ter risco de entrar em rotura, não posso assumir risco trocando as minhas divisas por activos que rendam juros. Por isso, ter uma zona monetária não me dá lucro.

Agora vou meter a dívida pública.
Entretanto entraram mais países para a minha Zona Monetária.
O governo grego está à rasca precisando de dinheiro. Dizem os gregos que eu devo ser "credor de último recurso" e que agora os seus bancos estão sem notas pelo que eu tenho que lhes dar mais.
Mas eu vendo notas, não as posso dar porque, senão, vão fazer um ataque contra mim  e eu não tenho divisas para recomprar as notas de Conto.
Dizem os gregos que me dão títulos da dívida pública prometendo uma taxa de juro anual.

Não posso aceitar.
Imaginemos que eu aceito os títulos e a Grécia vai à bancarrota. Nesse caso, os cidadãos que usam a minha moeda podem-me exigir Euros ou outras moedas do cabaz em troca dos Contos e eu não tenho como o fazer.
No caso da bancarrota, vou ter que diluir o calote por todas as pessoas que usam a minha moeda.
Não sou eu que vou ter prejuízo mas todas as pessoas que usam a minha moeda pois eu vou ter que a desvalorizar.

A perda pode ser materializada por um "reforço do capital"
Que reponha as minhas reservas. Se, por exemplo, eu deveria ter 1000Ç em divisas e a Grécia me pregar um calote de 100Ç, as outras pessoas têm que me dar notas no valor de 100Ç.
As perdas reduzem-se a este valor.

A perda pode ser materializada por uma desvalorização
Vou desvalorizar os contos de forma às revisas que cobriam 900Ç passarem a cobrir os 1000Ç que existem em circulação. Então, a minha moeda desvaloriza 10% somando o cabaz do quadro 1, em vez de 100, apenas 90.
Quem tem uma perda imediata são as pessoas que têm as notas de Conto na mão.
Cada nota vai diminuir o seu valor em 10%.

A desvalorização induz perdas nos contratos.
Todos os contratos por esse mundo fora denominados em Contos vão ser, em termos reais, alterados.
Umas pessoas serão prejudicadas e outras beneficiadas. Mas os contratos tomarem valores que não estavam previstos induz perda económica.
Por isso, a desvalorização causa mais prejuízo que a bancarrota.
O dólar americano é usado por esse mundo fora porque a regra de condução da zona monetária, inflação baixa, tem sido cumprida ao longo do tempo.

Concluindo.
Se uma Zona Monetária coincide com um país, se os governantes violarem a regra de governação do Banco Central, são as pessoas de lá que sofrem as consequencias. O Mugabe do Zimbabwe lembrou-se de que poderia fazer quantas notas quisesse, a inflação foi para milhares por mês e o maluco convenceu-se que a coisa não funcionava.
Agora quando a Zona Monetária tem vários países, se um país aceder a crédito do Banco Central sem limite contra títulos da dívida pública que nunca serão pagos, quem vai pagar são as pessoas são as pessoas dos outros países.
É conhecido da Teoria dos Jogos que esta situação é instável: todos os países vão pedir dinheiro sem limite, a inflação é infinita e ninguém usa mais essa moeda.

É como ir a um jantar com 1000 amigos.
Em que a conta é a dividir por todos. Tenho a certeza que o amigo leitor nunca iria a tal jantar.
Naturalmente, cada pessoa iria pedir do mais caro que lá houvesse porque por cada 100€ que comesse, só aumentaria a sua conta em 0.10€. Mas todos pensariam assim pelo que a conta ficaria nos 1000€ por pessoa. Até mandavam vir a Irina incluída na lagosta para jogar cartas, estão-me a perceber, três Irinas Pákova para cada um.
Seria pior que um estágio da selecção.

Não pode ser.
Se o Louçã não compreende isto, o que ensinarão lá faculdade de economia dele?
Se Seguro não compreende isto e gente da laia dele, como podem ter governado e pretenderem governar Portugal?
Já perceberam porque estamos na bancarrota?
Foram gajos destes a governar o nosso triste país.

Não posso esconder que que muitos que lá estiveram ensinam na minha faculdade.
O que me safa é que eles dizem que eu não sei nada de economia.
Graças a Deus. Ao menos sabem isso.

Pedro Cosme Costa Vieira

3 comentários:

Sérgio disse...

Boas Prof. muito gosto em ver que voltou em força! Mas gostaria de apontar o que me parece ser uma falha. Quando diz que os U.S.A não usaram inflação nem o FED imprimiu dinheiro para facilitar a sua divida monstruosa:-? então o que foi o quantitive easing? sei k as noticias que leio de relance na net podem não ser fiaveis mas mais que um artigo falam nessas e outras operações que envolvem o FED "imprimir" ou "injectar" novo dinheiro na economia, O valor das commodoties como ouro estarem a subir (dizem as más linguas que são mantidos baixos á força por artifices dubius). E ainda o facto dos preços estarem a subir sendo que muitos artigos mencionam isso mesmo comparando as diferentes fases da inflação do dolar desde o inicio do sec.XX. A mim parece-me que já o fizeram embora não directamente com o propósito de cobrir a sua divida. Noutro assunto sem lhe desejar mal espero que esteja enganado com a grécia... Só porque não quero ficar sem as minhas magras poupanças que levaram muitos aninhos de trabalho ufhh. Bem haja Prof. Pedro

António disse...

Quando em 5 de Abril de 1933 Roosevelt obrigou toda a população a entregar as moedas de ouro na sua posse à FED, não foi uma declaração de bancarrota do Estado americano?
Quando unilateralmente o Presidente Nixon em 1973 declarou a inconvertibilidade dos dólares americanos em posse dos bancos centrais do mundo inteiro não foi uma declaração de bancarrota?

Anónimo disse...

Caro senhor
Este sistema que apresentou como sendo o actual, pode ser quiçá a melhor coisinha que tenham inventado, mas que me parece mafioso lá isso parece. Assenta tudo sobre, hum sobre... sobre o quê?... áh já sei, sobre... nada?!...

A minha moeda tem valor, porque aquela tem valor. Aquela tem valor, porque a minha tem valor...
Será que sicilianos não têm uma certa inveja?...

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