sexta-feira, 1 de junho de 2012

Estive na Universidade de Aveiro - parte II - a solução

No poste parte I da minha viagem a Aveiro do dia 12 de Março
descrevi as vantagens e desvantagens económicas de termos entrado na Zona Euro e o caminho que nos levou à bancarrota. Neste poste vou referir os desafios que enfrentamos e, em termos de teoria económica, apresentar o que é preciso fazer para nos podermos manter na Zona Euro.
Como eu não acredito que Portugal se consiga manter na Zona Euro, apresento também um procedimento para um país poder sair do Euro sem grandes sobressaltos.
Como diz o povo, há coisas que é melhor antes do que tarde. É o caso da saída do euro que não devemos estar à espera da bancarrota total para iniciarmos os procedimentos para voltarmos ao Escudo.

Portugal tem três problemas muito graves.
A) O défice das contas públicas que se acumulou ao longo dos anos numa dívida publicaa que é maior que 125% do PIB de um ano (considerando as ppp) e que continua a aumentar.

Fig. 1 Défice público português (dados: Eurostat)

B) O défice da balança corrente que se acumulou numa divida externa equivalente a 125% do PIB de um ano e que continua.

Fig.2 - Défice da Balança corrente portuguesa (dados: eurostat)

Estes dois problemas são independentes mas estão ligados por pertencermos ao euro-sistema de cedência de liquidez. Apesar de uma parte substancial dos títulos de dívida pública ter sido adquiria por agentes económicos residentes em Portugal (bancos), estes usaram os títulos como colaterais para se endividarem junto do euro-sistema (outros bancos da Zona Euro e do  Banco Central Europeu).
Agora iniciou-se um programa de ajustamento, a austeridade pública, que pretende corrigir estes dois problemas.

Fig.3 Défice da Balança corrente portuguesa (dados: Banco Mundial)

D) A taxa de desemprego extremamente elevada e em crescimento tendo já ultrapassado os 15% da população activa.
Fig.4 Desempregados em Portugal, milhares (dados: INE)

Agora, o que precisamos fazer?

A Austeridade do Estado.
O Estado Português gasta mais do que recebe: é o défice. Como o povinho gosta de receber massa e não gosta de pagar impostos, os governantes populistas gastam e mandam para calote.
Como desde meados de 2010 que quase ninguém empresta dinheiro ao nosso querido país, para manter o o actual nível de despesa, há duas alternativas:
a) Gasta e não paga. Promete e rasga a promessa. Diz que são SCUTS e depois manda a factura a alguém.
b) Aumenta os impostos e taxas. O povinho não quer pagar.
Então, só fica mesmo a austeridade.
Cada um em sua casa faz como quiser, mas o nosso estado não tem cheta para gastar.

A balança corrente, BC.
Agrega as transacções do mercado de bens e serviços, as transferências (remessas do emigrantes e dádivas a fundo perdido) e os ganhos de capital (juros e dividendos).
Pela definição, a produção mais a balança corrente vai ser usado em consumo e em investimento:
    PIB + BC   =   Consumo + Investimento
Mas também sabemos que a poupança é igual à produção menos o consumo:
    Poupança    =  PIB - Consumo    <=>   Consumo  =  PIB - Poupança
Então, deduz-se que o saldo da BC é a diferença entre a poupança interna e o investimento:

BC = Poupança - Investimento
Assim, posso usar o modelo IS, Investment & Saving, para compreender o funcionamento da BC.
Em economia fechada, a BC está obrigatoriamente equilibrada (I = S).
Já em economia aberta, fazendo um gráfico IS, os locais fora do ponto de encontro traduzem desequilíbrios da BC que, no caso português, é negativo desde 1995 tendo sido na década 2000-2011 mais negativo que 98% dos países (em termos de população).
A influência da taxa de juro na balança corrente.
Quando a taxa de juro aumenta, não é certo como vai evoluir o PIB, i.e., se aumenta ou diminui (ver fig. 2). Mas é certo que a poupança interna aumenta.
Também é certo que o investimento diminui.
Assim, quando a taxa de juro aumenta, aumenta a poupança e diminui o investimento pelo que o aumento da taxa de juro é um movimento equilibrador da balança corrente deficitária.

Fig. 1 - Para diminuir o défice da BC, a taxa de juro real vai aumentar. 
  
O Mercado de Trabalho.
No mercado de trabalho temos, por um lado, os trabalhadores que se oferecem para trabalhar (a oferta, S) e os empresários que precisam de trabalhadores para aplicarem no processo produtivo (a procura, D). Posso estudar a dinâmica do mercado de trabalho como o mercado de um bem em que o preço de transacção é o salário real (horário).
O desemprego será a diferença entre a oferta e a procura de trabalhadores.

A influência do salário real na taxa de desemprego.
Quando o salário real aumenta (i.e., os custos do factor trabalho), w, as empresas tornam-se menos lucrativas pelo que a procura de trabalhadores diminui. Do lado da oferta, não é certo a influência do salário real na oferta de trabalho. A evidência empírica diz que um aumento definitivo do salário, no longo prazo faz diminuir a quantidade oferecida. No entanto, no curto prazo o aumento do salário real faz aumentar a oferta de trabalhadores porque mais pessoas querem trabalhar e cada pessoa quer trabalhar mais horas.
Havendo uma situação de desemprego acima dos 4% (que é a taxa de desemprego "zero"), uma descida do salário real vai induzir um aumento da quantidade procurada de trabalhadores e uma diminuição da quantidade oferecida de trabalhadores.
Estando o salário em wo onde o desemprego é elevado, a redução do salário real para w1 vai reduzir a taxa de desemprego pelo reforço das contratações e um enfraquecimento do número de pessoas que querem trabalhar.

Fig. 2 - Para diminuir a taxa de desemprego, o salário real vai diminuir. 

Os esquerdistas querem fazer crer que existe um ciclo vicioso
A diminuição dos salários -> reduz o rendimento -> reduz o consumo -> reduz a procura agregada -> reduz a actividade das empresas - > aumenta o desemprego -> ---

Mas esta ligação está errada porque a redução do rendimento dos trabalhadores é mais que compensado pelo aumento do rendimento dos desempregados que passam a estar empregados. Assim, quando existe desemprego elevado, inicia um ciclo virtuoso

Diminuição dos salários -> aumenta o número de empregados  -> reduz o rendimento dos empregados mas aumenta o rendimento dos ex-desempregados + baixam os custos de produção -> diminuem os preços -> aumenta a procura agregada (consumo + investimento + exportações) -> aumenta a actividade das empresas - > diminui o desemprego -> ...

Como a maioria das pessoas são trabalhadores por conta de outrem, todos queremos acreditar que descer os salários em termos nominais não combate o desemprego. Por isso é que é muito difícil observar uma descida nominal do salário médio da economia portuguesa.

A taxa de juro que corrige a BC também afecta o mercado de trabalho.
No processo de correcção da balança corrente, a taxa de juro real aumenta a taxa de desemprego (ou diminui o salário real).
Por um lado diminui a procura de trabalhadores porque o aumento dos custos financeiros torna as empresas menos competitivas. Por outro lado, os trabalhadores querem trabalhar mais porque querem antecipar o rendimento (pois vai render mais juros).
Se o mercado de trabalho é rígido (o salário mantém-se), o aumento da taxa de juro faz aumentar o desemprego  diminuindo a percentagem de pessoas empregadas (de N0 para N1,r) o que induz uma contracção do PIB.
Se o mercado de trabalho é flexível, o salário real diminui de w0 para w1 levando a um aumento da percentagem de pessoas empregadas (de N0 para N1,f) o que induz uma expansão do PIB.

Fig. 3 - O aumento da taxa de juro aumenta o desemprego ou diminui o salário real. 

Podemos concluir que em Portugal a taxa de desemprego aumenta porque a taxa de juro está a aumentar muito (para corrigir o grande défice da BC) e o mercado de trabalho é rígido. O aumento da taxa de desemprego é o mais forte indicador de que o nosso mercado de trabalho é rígido.

Fig. 4 - Se alguém encontrar um indicador que diga que o nosso mercado de trabalho é flexível, é mentira.

Precisamos controlar a despesa pública e corrigir a balança corrente porque fazem aumentar a taxa de juro que destroi as empresas e faz explodir o desemprego
Precisamos descer os salários reais para diminuir o desemprego e baixar os preços, equilibrando por este lado a balança corrente.

Será possível fazer isto estando Portugal na zona euro?
Não.
Não penso que seja possível descer os preços e os salários em termos nominais.
Sempre que se fala nisso é um ruído de fundo enorme.
Por isso, vai ser um constante degradar da situação económica, em que o indicador mais terrível será a taxa de desemprego, mas também a falência das empresas.

Por exemplo, a Portugal Telecom.

Fig.5 - A Portugal Telecom oferece 6.85%/ano porque não se consegue financiar lá fora

Desculpem que o procedimento da saída da Zona Euro ainda vai ter que ficar para uma terceira parte.
Afinal, aquilo em Aveiro foi uma autentica injecção.
Pedro Cosme Costa Vieira

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