sexta-feira, 15 de junho de 2012

Poderá a Grécia ficar na Zona Euro sem Euros?

A Zona Euro enquanto zona monetária, não está em crise.

Afirmo com convicção que a ZE é a mais bem governada zona monetária de todos os tempos. A taxa inflação está nos 2%/ano e a sua variabilidade é metade da americana.
Então, a crise que vivemos não é monetária (grande inflação, balança corrente desequilibrada) mas económica em que há a insolvência de muitos agentes económicos.
Se os insolventes estivessem regularmente espalhados por toda a ZE, nem se falava do assunto.
O problema é que os insolventes estão concentrados nos povos do SUL, os PIIGS,  e os diferentes povos que formam a ZE são diferentes em termos de rigor orçamental.

Para compreendermos uma Zona monetária é preciso voltar atrás.
Como os últimos comentários têm mostrado haver uma confusão entre moeda e crédito, sistema monetário e economia, pedia aos estimados seguidores que voltassem a ler os postes sobre o Condado da Negralhada 1 , 2 , 3 , 4.

O Gonçalo resumiu num comentário de enorme clareza como se liga o sistema monetário à economia.
As notas não são valor pois este apenas está nas cenouras que o lavrador produz.
O valor facial das notas, M, será igual à quantidade de cenouras, C, vezes o seu preço, P, vezes a velocidade de circulação da moeda, V.
     M = V. C. P
Se o BCE emitir mais notas, como as cenouras continuam as mesmas, apenas se observa um aumento do preço das cenouras.

Também é digno de nota o Gonçalo, mesmo tendo clareza de pensamento, duvidar do seu raciocínio enquanto os esquerdistas, vivendo na completa ignorância, se arrogam donos da verdade.
É importante rever a necessidade de existência de activos (contrapartida real) para garantir os depósitos bancários (rever, a contabilidade do cantineiro).

A governação da Zona Euro é perfeita.
A moeda tem que garantir a estabilidade dos preços (os fundadores decidiram que a ZE deveria ter uma inflação de 2%/ano) e o equilíbrio da Balança Corrente (o saldo com o exterior igual a 0).
O Governador do BCE mede estas duas variáveis e tem instrumentos de política para encaminhar os valores observados para os pretendidos.

Não é como o Alzheimado Cavaco diz
que "não se pode escrever na constituição o valor do défice nem da dívida pública porque isso não depende do governo".
Isso é mentira.
É intrujice.
É dizer o que o povinho ignorante quer ouvir.
É demagogia da mais rasca.
Não depende o valor em cada momento mas o governo tem instrumentos de política para encaminhar o valor observado em cada momento para o valor que se pretende.
É como a velocidade do nosso carro que depende de a estrada ser a subir (o carro acelera) ou a descer (o carro desacelera).
Nós queremos ir a 90km/h. então, se entramos numa descida em que o carro ultrapassa os 90k/h, aliviamos o pé do acelerador e, em caso de necessidade, travamos. Se aparecer uma subida e o carro diminuir a velocidade, carregamos mais no acelerador.

Para diminuir (aumentar) a inflação, o BCE baixa (aumenta) a taxa de cedência de liquidez. É a famosa "Taxa de Desconto do BCE" que está em 1%/ano. Para compreender este ponto, ver este poste.
Podemos ver que a meta da taxa de inflação na ZE é cumprida na perfeição (a média está muito próxima dos 2%/ano e a variabilidade está nos 1pp, ver Fig. 1) enquanto que a dos USA tem problemas (tem estado sistematicamente acima dos 2%/ano e com uma variabilidade de 2pp, ver, Fig. 2).
  
Fig. 1 - Evolução da taxa de inflação da Zona Euro (1995:1-2012:5, BCE)
  
Fig.2 - Evolução da taxa de inflação dos USA (1995:1-2012:5, BLS)

Para diminuir (aumentar) o saldo da Balança corrente, o BCE valoriza (desvaloriza) a taxa de câmbio do Euro. Este mecanismo é mais complexo mas passa também pela taxa de desconto (uma taxa de desconto maior, valoriza o Euro) e pela compra de euros e venda de dólares (vender dólares valoriza o Euro).
Nos últimos 10 anos, o BCE tem conseguido manter, no médio prazo, os desequilíbrios da BC abaixo de +-0.5% do PIB.

Fig. 3 - Evolução da Balança Corrente da Zona Euro (1999:1-2012:1, BCE)

A ZE é estável porque o BCE não depende de um Estado. 
Como o BCE tem um mandato que não depende de nenhum governo em particular (só é possível alterar os estatutos do BCE com a unanimidade dos Estados membros da ZE, o que nunca será conseguido), é muito mais estável que qualquer zona monetária dependente de apenas um Estado.
 
Qualquer país pode pertencer à Zona Euro.
Qualquer estado pode decidir de forma unilateral passar a pertencer à Zona Euro. Se, por exemplo, a Mongolia decidir que no seu país a moeda passa a ser o Euro, ninguém se pode opor a isso.
A único problema é que não recebe os lucros que resultam da emissão de moeda pelo BCE (cerca de 0.5% do PIB do país).


1 - A Grécia rasga o memorando de entendimento.
A Grécia só sai da Zona Euro se quiser e, actualmente, não quer sair. Então é preciso simular o que vai acontecer ao sistema monetário grego depois de o governo rasgar o memorando de entendimento.

2- Os bancos gregos deixam de poder usar os títulos de dívida pública grega como garantia.
O BCE já não deveria aceitar a divida grega desde que foi classificada como especulativa ("lixo"). A recusa tem que ser total pois, caso contrário, a Grécia emitirá milhares de milhões de euros de dívida pois não a pretende pagar.
Vamos supor que o BCE aceita as obrigações com a taxa de juro actual de 30%/ano e que a Grécia precisa de 10MM€. Então emite 1380MM€ de dívida.
Se a taxa de juro passar para 90%/ano, a Grécia emite 61300MM€, várias vezes o PIB total da Zona Euro mas eles estão-se borrifando pois não é para pagar.
A Zona Rublo explodiu porque a Ucrânia fez isso contra a Rússia.

3 - Os bancos gregos deixam de poder fazer transferencias para o exterior.
Quando um grego transfere 1000€ da sua conta no Millenium BCP Grécia  para o Millenium BCP Portugal,  tem que haver uma contrapartida para esse movimento contabilístico.
O banco grego tem que ter activos no exterior que possa transferir para o BCP Portugal de forma a que o daqui possa, posteriormente, pagar ao depositante grego. Se essa contrapartida não acontecer, o BCP Portugal fica insolvente (fica sem activos para pagar aos depositantes).
Seria como transferir água de uma barragem para outra em que a barragem original está seca.
É o milagre do Santo Louçã.

Será que isto é o fim do movimento de capitais?
Pela parte da Zona Euro, não.
Apenas os agentes económicos não terão o que tranferir.
Quem tiver activos no exterior e os quiser mover para a Grécia, é livre de o fazer.
E quem tiver activos na Grécia e os quiser mover para o exterior, também continua livre de o fazer.
Como o risco da Grécia é muito grande (actualmente, 30%/ano), ninguém vai querer transferir dinheiro para dentro da Grécia e não haverá activos para transferir os saldos bancários para o exterior.
Fica tudo congelado.

4 - As notas de euros vão para o bolso das pessoas.
Como as notas de euros têm valor em qualquer parte do Mundo, as pessoas vão levantar todas as notas que existam nos bancos.
É a corrida aos bancos. Nos últimos tempos os Gregos levantaram 1000M€ por dia.
Como existe uma quantidade muito pequena de notas (abaixo dos 15MM€), isto não dura uma semana.
O governo Grego pode proibir a expatriação de notas mas isso não terá qualquer efeito porque os gregos não vão querer expatriar as notas porque já têm poucas. Vão usa-las no dia a dia para fazer compreas imprescindíveis.

5 - Haverá transferências internas entre bancos gregos.
Os pagamentos passarão a ser possíveis com transferências bancárias dentro de cada banco.
Apesar de os bancos gregos não terem activos, é possível o cliente A com saldo no banco XPTO transferir 100€ para a conta do cliente B também do banco XPTO.
Não será possível fazer transferências entre bancos diferentes gregos porque a solvabilidade de cada um é diferente.
Não haverá possibilidade de comprar bens importados (e.g., gasolina) com transferências.

6 - Aparecerá um mercado de câmbio "Virtuais" / Euros.
Como os saldos bancários deixam de ser convertíveis em notas, passam a ser virtuais. Então, vão começar a ser transaccionados por notas de euro a um cambio que depende do comportamento do governo.
As pessoas atribuirão um cambio diferente aos virtuais de cada banco em função da sua situação económica.
O governo vai injectar "euros virtuais" no sistema para financiar o défice público que está nos 9.1% do PIB, obrigando os bancos a fazer pagamento recebendo como contrapartida títulos da dívida pública (sem meter lá os euros) que não valem nada.
Então, o câmbio dos Virtuais vem por aí abaixo.

Esse câmbio vai ser usado nas vendas de bens e serviços.
Eu estive na minha vida 12 horas em Maputo e nessa altura 1 Rand cambiava-se no banco por 1 Metical. No mercado, as mulheres faziam o câmbio de 1 Rand para 500 Metical. 
Na Grécia vai ser igual. Por exemplo, uma despesa no supermercado se for paga com uma transferência custará 30000€. Se for paga em dinheiro vivo, terá um desconto de 99.9%,  30€ (para um câmbio de 1000 "virtuais" para 1 Euro).
Com uma inflação de 100%/semana, quem tem actualmente 100000€ no banco (o tal valor garantido pelo estado grego), daqui a um mês manterá o saldo de 100000€ virtuais mas que se trocarão no supermercado por compras que valem 5000€ em notas. Daqui a três meses já só darão para compras no valor de 11.61€.

O povo vai tentar stockar tudo o que existe.
Vão meter gasolina em garrafões, esvaziar todo que é prateleira.
O governo vai ter que criar racionamento.

7 - Os salários vão desaparecer.
Na Ucrânia em 1990, o salário dos funcionários públicos desceu abaixo de 5 dólares por mês.
Em moeda virtual, os salários aumentaram, mas os saldos deixaram de ser aceites nas lojas.
Na Grécia vai acontecer o mesmo. Como o Estado não tem como financiar o défice, a desvalorização dos virtuais será tão rápida e violenta que, na prática, os trabalhadores deixarão de receber salário.
O salário é o mesmo ou maior mas estará preso em contas bancárias de banco completamente afogados em títulos de dívida grega que não valerão absolutamente nada.

8 - O Estado vai corrigir o défice rapidamente.
Porque ninguém vai querer fazer fornecimentos ou trabalhar para o Estado.
Como os pagamentos serão em Virtuais que não valem nada, os próprios funcionários públicos que os comunas vão contratar à força toda para combater o desemprego, vão deixar de aparecer ao local de "trabalho".
Não valerá a pena pagar transporte para, no fim do mês, o salário não dar para comprar nada.
Os médicos deixarão de aparecer nos hospitais, os lixeiros ficarão em casa.
Vai parar tudo como acontece na Guiné-Bissau em que os funcionários públicos não recebem desde o golpe de estado.
O que os comunas não querem fazer (cortar na despesa), vai acontecer de forma muito mais violenta mas voluntária pois as pessoas não vão querer vender ao Estado em troca de Virtuais.

9 - Os preços e salários em Euros-Notas vão diminuir.
Que é o que os comunas dizem nunca fazer.
Se tudo correr pelo melhor, os preços em Euros vão cair 40% e os salários 50%.
Se hoje um grego enche o deposito de gasolina trabalhando 1 dias, depois precisará de 2 dias.
E aí a economia vai ajustar, à bruta.

E, tecnicamente, a Grécia já saiu do Euro.
Sim e a nova moeda grega é o Virtual.
Um dia, os bancos vão começar a emitir "cheques ao portador com valor nominal fixo", CPVNF, para serem usados nos locais onde não há multibanco.
Haverá CPVNF de 1M de Vs, de 2M de Vs, de 5M de Vs e por aí fora.
Cada banco emitirá a sua moeda e, a prazo, haverá uma moeda que passará a ser a mais utilizada em concorrência com as notas de Euro.
O governo e o povo continuará a dizer que está na Zona Euro mas já terão uma nova moeda para usar no dia a dia.

Fig. 4 - Venha conhecer, em termos bíblicos, a beleza grega a preço de saldo.

Pedro Cosme Costa Vieira

2 comentários:

Anónimo disse...

espero que o bloco de esquerda grego ganhe a eleiçao e forme governo para podemos observar o que vai acontecer.

e se acontecer o que diz e que eu acredito que realmente vai acontecer, pode ser bom para portugal ja que teremos provas que o caminho mais dificil para todos é na verdade o melhor caminho para o crescimento e bem estar social

embora em portugal numca se saiba pois todos se referem á excelente situaçao alema mas depois todos criticam ao mesmo tempo as politicas que produzem essa condiçao economica e culpam a alemanha por nao nos sustentar como se eles fossem os nossos pais e tivessem a obrigaçao de nos manter

Nuno disse...

Gostaria de preguntar ao senhor professor se acha que é provável acontecer o mesmo em Portugal e começarmos também a usar o Virtual?

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