segunda-feira, 11 de junho de 2012

Um ano depois, o resgate dos bancos

Começaram os resgates nos bancos Irlandeses
Depois foram os Gregos, os portugueses e agora são os espanhois.
Tudo isto são o "sarcoma de karposi" do descomando que tomou conta das nossas economias porque a taxa de juro desceu para o nível da taxa de juro alemã.
Antes do processo de convergência para o Euro, os agentes económicos internacionais pensaram que estes países se iam tornar sérios tendo descido a taxa de juro dos 11%/ano para os 4%/ano.
Nós endividamo-nos à farta e, agora que descobriram que era tudo falso, as taxas de juro voltaram a esse patamar para não voltarem mais aos 4%/ano.
Não é por acaso que a média das taxas de juro da dívida pública portuguesas a 10 anos foi no período 1993:1995 de 10.7%/ano e nos últimos 15 meses (2011:1-2013:3) foi de 10.9%/ano.

É o retornar à tendência de longo prazo.
Nem daqui a 10 anos, a correr tudo bem, teremos em Portugal taxas de juro consistentemente abaixo dos 10%/ano.
E o povo tem que saber que isso terá um impacto terrível no nosso nível de vida porque agora estamos muito endividados face ao exterior.

 Fig.1- Evolução das taxas de juro, 10Y, dívida pública, 1993-2012 (dados: BCE, pp)

Apresento o exemplo da França para as pessoas não ficarem com a ideia, como os comunas e berloquistas querem transmitir, de que só as taxas de juro da Alemanha é que desceram.
Todos os países viram as suas taxas de juro descer mas alguns, onde nos incluímos, defraudaram as expectativas e retornaram às taxas de juro anteriores à entrada na Zona Euro.
Claro que toda a gente quer dizer que Portugal, a Espanha e a Itália estamos no mesmo barco, mas ainda há diferenças substanciais (ver, Fig. 1)
A Espanha e a Itália ainda estão muito longe desses valores pelo que, olhando apenas para as taxas de juro, não podemos falar de uma crise verdadeiramente grave.

Os bancos são intermediários entre os aforradores e os investidores/gastadores.
Quem intermediou o dinheiro dos aforradores dos países do norte para os caloteiros dos países do Sul foi a banca.
Imaginemos que existem 1000 aforradores e que cada um deposita 1000€ nos bancos. Se a taxa de juro for de 3%/ano então, os depositantes vão receber 1030€ ao fim de um ano.
Imaginemos que o banco empresta os 1000€ a 1000 investidores em que 5% deles vai à falência (não pagando a dívida). Então, o banco tem que cobrar 8.42%/ano de juros para, no fim do ano, ter dinheiro suficiente para devolver o dinheiro dos depositantes.

Os bancos também são seguradores do crédito.
Se o negócio bancário fosse apenas a intermediação do crédito, seria um negócio fácil.
Sabendo o total de depósitos, D, e o diferencial entre a taxa de juro passiva, p (que pagam aos depositantes) e a taxa de juro activa, a (que recebem dos devedores), calculavam o lucro:

    Lucro do banco = D.(a - p) - despesas administrativas

O problema é que os bancos também intermedeiam riscos (os aforradores querem risco zero e cada devedor têm um risco próprio de não pagar) que é desconhecido porque apenas se vai concretizar no futuro (como um seguro de vida). Então, o lucro actual vai depender do que o contabilista pensa ser o risco dos clientes, r, dado como a percentagem de devedores que não vai pagar

    Lucro do banco = D.(ap - r) - despesas administrativas

Se houver um defeito no calculo do risco (o contabilista for optimista), o banco parece que dá lucro mas, feitas as contas no fim, dá prejuízo.
Neste caso em que a taxa de juro activa não incluiu um spread suficiente para compensar das pessoas que não pagam, os bancos ficam sem activos para devolver o dinheiro dos depositantes.

É isso que está a acontecer em Portugal.
Os bancos pensaram que o crédito para compra de habitação com hipoteca e o crédito às empresas públicas, autarquias e Estado não tinham risco pelo que fizeram contratos de longo prazo com spreads exageradamente baixos.
Como o erro de avaliação do risco se traduz num subsídio aos devedores, verificado este erro, o Estado te a obrigação, por via legislativa, de corrigir este problema.
Ao tomar os devedores como coitadinhos e sabido que os depositantes não podem perder o seu dinheiro,  não resta outra solução que não seja o Estado cobrir o diferencial.
Como o dinheiro não cai do Céu, mais cedo ou mais tarde, essa injecção de capital vai-se traduzir em mais austeridade e mais impostos.

O que deveria o Estado fazer?
Deveria permitir que os Bancos cobrassem aos clientes a taxa de juro que equilibra o sistema.
Por exemplo, devia-se utilizar o sistema dos USA (de que os esquerdistas aplaudem por pensarem que o Obama impôs ao FED uma politica monetária expacionista) em que os contratos os contratos estão indexados à Dívida Pública Americana a 10 Anos.
Se tal estratégia fosse utilizada em cada país da Zona euro, não haveria necessidade de os Estados resgatar os bancos.
Mas esta re-indexação está parcialmente prevista na recapitalização.
O plano de recapitalização da banca pressupõe que os bancos vão pagar uma taxa de juro de 8.50%/ano e que "os créditos à  economia concedidos pela banca terão esta taxa de juro como referência de forma a que esses créditos não têm impacto negativo na rentabilidade do sistema bancário".
Assim, está implícita uma indexação a uma taxa muito diferente da EURIBOR mas apenas para os novos contratos.
Como o risco das pequenas e médias empresas anda na ordem dos 5%/ano então, nos créditos previstos no acordo de resgate da banca

As taxas de juro dos créditos a conceder às P.M.Es serão próximas dos 15%/ano.
Haverá alguma PME que consiga rentabilidades desta ordem de grandeza?
Haverá algum banco português que consiga pagar 8.5%/ano do dinheiro que o Estado lá vai injectar?
Só se for a vender droga ou tabaco de contrabando.

Como o sistema bancário chegou à situação actual?
Os esquerdistas vão pelo caminho mais fácil: foi a ganancia dos banqueiros.
Eu investiguei trabalhos científicos, pensei muito sobre o assunto e cheguei a uma conclusão algo estranha:

A culpa foi de o mercado bancário se ter tornado concorrêncial.
O monopólio, no geral, é mau para a sociedade porque o monopolista cobra um preço muito elevado e não tem incentivos a melhorar os seus produtos. Com a abertura de um mercado à concorrência, observa-se a diminuição do preço e a melhoria da qualidade dos produtos.
Todos nós observamos isso, por exemplo, nos telefones. Depois das décadas do marasmo do monopólio da PT, o aparecimento dos outros operadores reduziu o preços a quase zero.
Mas no caso do mercado bancário, a "descida do preço" traduziu-se em baixar os critérios de avaliação do risco dos clientes.
Assim compreende-se que a CGD, uma instituição bancária que durante anos foi o exemplo da gestão cautelosa, tivesse engolido o negócio da compra do BCP pelo Berardo sem pedir garantias.
Agora tem um calote de 1 000 000 000€ para digerir.
Quando é que este calote aparece nas contas da CGD?
Talvez quando se souber quanto é o calote do BPN: nunca.

O número de bancos aumentou e o mercado reduziu.
Antes de entrarmos na Zona Euro, a poupança em euros constantes dos portugueses aumentava 4%/ano.
Isto traduzia-se num negócio bancário em expansão que acomodava a existência de mais bancos e mais balcões.
O problema é que, após a nossa entrada na Zona Euro, a poupança em Euros começou a diminuir rapidamente (-3.0%/ano).
Também não ajuda nada terem dado cabo dos Certificados de Aforro e terem aumentado a tributação dos juros para 25%. Estão mesmo a dizer que não interessa que o povo poupe. O que o Estado quer é que a Festa Continue.
Assim, uma sistema bancário que estava dimensionado para um mercado em crescimento, tornou-se sobre-dimensionado. Assim, tos balcões viram-se obrigados a aceitar clientes de elevado risco assumindo que os mesmo eram de baixo risco (as tais empresas públicas, empreiteiros sem capital, autarquias e Estados falidos e famílias sem rendimentos para pagar os seus empréstimos).

Fig.2 - Poupança bruta dos portugueses no ano, 1970-2010 (dados: Banco Mundial, € constantes)

E agora? Vejamos o exemplo da recapitalização do BCP.
No nossos sistema bancário está-se a passar a maior fraude contabilistica de que há memoria.
Por um lado, os bancos apresentam lucros mas, por outro lado, o capital diminui.
Em 31 de Março de 2011 o BCP reportava um capital de 7207M€ que correspondiam a 7207 M.acções com um valor nominal de 1€.
Em 31 de Março de 2012 o BCP reporta um capital de 4560M€, 0.633€/acção.

Em 2011, o BCP teve um prejuízo de 2647 M€.
A minha sabedoria diz que, exceptuando as entregas aos sócios (dividendos ou reduções de capital), as reduções no capital próprio resultam apenas e tão só de prejuízos.
E está nas conta de balanço do BCP que o capital reduziu 2547M€ entre 31/3/2011 e 31/3/2012.
Claro que eu é que percebo pouco de contabilidade pois o BCP refere um lucro de 41milhões€.
Os avaliadores de mercado dizem que o BCP só vale 640M€, 0.089€/acção.
Vamos supor que em 2000 o Vítor Baía tinha 10M€ em acções do BCP que lhe permitia gastar 16670€/mês durante os próximos 50 anos. Agora já só pode gastar 270€/mês. Naturalmente que aquela mulheraça o deixou e não se convence da falência.
Imagine quantas pessoas viviam bem das aplicações financeiras em empresas sólidas e que agora estão na miséria.

Fig. 3 - Cotação do BCP, 2000-2011 (dados: bolsapt, € constantes)

O Estado vai começar por "tomar firme" 12500M.acções (500M€ a 0.04€/acção) do BCP.
Quer isto dizer que, se os privados não forem ao aumento de capital, o Estado injecta os 500milhões ficando com 63.5% do capital do BCP.
Vamos ser optimistas e acreditar que os privados subscrevem integralmente o aumento de capital.
Depois, o Estado injecta mais 3000M€ em "CoCo - obrigações contingentes" remuneradas à taxa de 8.5%/ano.

O BCP terá que pagar 255M€/ano.
Se neste momento o BCP está a ter prejuízos terríveis, onde vai arranjar estes 255 milhões€/ano?
Se o BCP não conseguir pagar os 3000 M€ até 2017, estas são convertidas em capital à cotação de 0.04€/acção.
Então, mesmo que os privados vão agora ao aumento de capital, como o banco não vai conseguir resgatar estas obrigações, em 2017, o Estado ficará com 79.2% do BCP.
Isto é um desincentivo grande a que os provados metam dinheiro pelo que o Estado vai ficar com
O Estado vai ficar com 92.4% do BCP.
Mas a coisa não vai chegar a 2017.
Por a base usada para calcular as necessidade de capitalização estar sobrevalorizada.
É considerado que o BCP tem 4560M€ de capital quando os especialistas dizem que só tem 640M€.
Então, algures entre agora e 2017, o descobrir dos buracos vai obrigar o Estado meter mais 4000M€ no banco.

O BPI está na mesma situação ou ainda pior.
Também teve uma redução enorme no seu capital sem reportar prejuízos.
O Estado vai injectar de 1500M€  para um valor bolsista na ordem dos 430M€.

E que vai o Estado fazer em 2017?
No final de o Estado injectar os 7500 M€ no BCP num total de 20000M€ se contarmos os outros mais pequenos, o seu valor será zero.
Os 120000M€ do imobiliário à taxa de juro de 2.5%/ano quando deveria estar a 6.5%/ano, traduz perdas total de 40000M€.
Os privados (os accionistas dos bancos) já perderam metade deste valor e agora vai o Estado assumir os outros 20000M€.
Depois, vai haver duas hipóteses.
   H1. Vender estes bancos ao BIC por 40M€ (se em 2017 não tiver também já falido).
   H2. Fundir todos com a CGD e liquidar as operações ficando um balcão em cada sede de concelho.
Eu inclino-me mais para a hipótese 2 porque o negócio bancário português não tem lugar para tantos players.

Ainda o que nos safa são os 50000M€ do LTRO.
A Europa ter emprestado 50000M€ ao nosso sistema bancário a 1%/ano traduz uma transferência a fundo perdido de 5000M€/ano (pois os nossos bancos não se conseguiriam financiar nem a 11%/ano).
São estes 50000M€ a 1%/ano que estão a permitir o Pedro Passos Coelho dizer que estamos a corrigir as nossas contas externas (a balança corrente).
Obrigado Sr.a Merkel por nos mandar essa massa.

Fig. 4 - A miss Merkel, mais nova, era uma braza.

Pedro Cosme Costa Vieira

6 comentários:

Anónimo disse...

50000M€ e ainda precisamos mais.
se nao emprestar, a europa entope a alemanha de bmw mercedes vw submarinos etc, vai tudo pra traz.
precisamos de tractores , barcos de pesca, tecnologia etc e quem paga a conta é a alemanha sem pestanejar!

Vivendi disse...

Tem um joker nessa história! O efeito boomerang do investimento dos bancos portugueses na dívida pública nacional.Um toma lá, da cá.

Realmente os bancos que cometeram excessos mereciam todos afundar e os bancos centrais deveriam ser exterminados e passarmos novamente ao padrão-ouro.

vivendi-pt.blogspot.com

Vivendi disse...

O quadro dos credores da dívida pública...

http://vivendi-pt.blogspot.com/2012/03/quadro-bancos-credores-divida-publica.html

Fernando Ferreira disse...

O Pedro disse: "Imaginemos que existem 1000 aforradores e que cada um deposita 1000€ nos bancos. Se a taxa de juro for de 3%/ano então, os depositantes vão receber 1030€ ao fim de um ano.
Imaginemos que o banco empresta os 1000€ a 1000 investidores em que 5% deles vai à falência (não pagando a dívida). Então, o banco tem que cobrar 8.42%/ano de juros para, no fim do ano, ter dinheiro suficiente para devolver o dinheiro dos depositantes."

O Pedro esqueceu-se de mencionar um pormenor que e', na minha perspectiva, importante para as pessoas menos conhecedoras realmente perceberem como e' que uma economia controlada pelo politicos funciona; Uma economia em que o monopolio da criacao do dinheiro esta na mao dos politicos e dos amigos banqueiros que os suportam e apoiam:
Quando 1000 aforradores depositam cada um 1000 euros no banco (total de 1 milhao de euros), o banco nao empresta esse 1 milhao de euros aos investidores. Vai sim emprestar 10 milhoes de euros (se considerarmos a reserva fraccionaria 10%)e guardar o milhao de euros em reserva. De onde vem os outros 9 milhoes de euros? Vem do nada, sao apenas numeros no computador.
Quem e' que incentiva e apoia a banca de reserva fraccionaria? O Estado, e' claro. Quem e' que beneficia com a banca de reserva fraccionaria? Os politicos e os banqueiros. Enquanto o cidadao comum nao abrir os olhos, nada vai mudar. Este sistema monetario mundial baseado em dinheiro-papel criado pelo poder politico vai colapsar e vai acontecer ainda durante a nossa vida.

António disse...

Dos agentes económicos internacionais fazem parte as instituições financeiras nomeadamente a banca que em virtude de erros graves de gestão ao conceder crédito à habitação a particulares de alto risco estiveram perto da falência e foram salvos pela intervenção dos governos com o dinheiro dos contribuintes.
Nós endividámo-nos à farta os particulares, governos, empresas e principalmente os bancos que sendo os principais especialistas na matéria e, portanto, os mais responsáveis deviam ter evitado cair em semelhante situação e só o fizeram para obter elevados lucros e com isso justificar bónus estratosféricos aos seus administradores.
O povo sabe com o que tem que contar já teve taxas de juros de depósitos reais negativas e sobreviveu e talvez melhor do que agora dado que as taxas de desemprego eram muito mais baixas.
António

Anónimo disse...

O BCP é, de facto um caso terrivel para muitos pequenos investidores. Ações que já estiveram cotadas a quase 4€ estão agora a 0.08€!! Imaginem que quem tem 10000 acões do BCP já teve cerca de 40000€ e agora tem 800€!! Caro Pedro, poderia fazer um post dedicado ao BCP.

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