sexta-feira, 13 de julho de 2012

A exportações não estão a aumentar como diz o governo

As exportações, diz o Governo, aumentam a grande velocidade
mas, de facto, estão apenas a retornar ao valor de 2008.
Se olharmos para a série de longo-prazo das exportações vemos que, antes de entrarmos na Zona Euro (de termos passado para o regime de câmbios fixos relativamente à maioria dos nossos mercados de exportação), as exportações cresciam 7.0%/ano e, desde então, a sua taxa de crescimento ficou reduzida a 1.4%/ano (ver, Fig. 1).
O facto de o PIB (ver, Fig. 2) e as exportações (ver, Fig. 1) terem passado a crescer apenas de forma anémica e o desemprego ter aumentado continuamente (ver, Fig. 3), ilustra que a nossa economia não consegue lidar com os câmbios fixos.
O Euro, ao fixar o câmbio da nossa moeda relativamente aos nossos principais parceiros comerciais, tornou-se uma camisa de forças que os nossos governantes e cidadãos não conseguem desatar.

Como não nos sabemos governar em Câmbios Fixos, temos que retornar ao Escudo.
Assim, a crise que vivemos começa há 10 anos atrás quando a nossa economia não conseguiu digerir a crise de 2003, o que se foi propagando no tempo e resultou numa marretada fatal quando a Europa foi atingida, em 2009, por uma nova crise, a do Subprime.

Fig. 1 -Evolução das exportações portuguesas, preços constante, 1993-2012
(dados: INE, grafismo meu)

Fig. 2 -Evolução do PIB português, 1996-2012
(dados: INE, grafismo meu)

Fig. 3 -Evolução da taxa de desemprego portuguesa, 1993-2012
(dados: INE e Banco Mundial, grafismo meu)

O Ajustamento
Dizer que a economia portuguesa já ajustou (leia-se: os salários já reduziram o suficiente) porque as exportações estão a crescer mais de 10%/ano é TOTALMENTE EXAGERADO pois é apenas o fenómeno de curto prazo de reposição dos valores anteriores à crise do Subprime (rever, Fig. 1).
Em 2009 houve uma quebra de 20% nas exportações que, entretanto, tem sido anulada pela convergência com à tendência de longo-prazo.

Mas o Défice Comercial tem reduzido.
Sim, o DC está a reduzir desde 2008. Desta forma, não é algo que resulte da politica (de austeridade) do actual governo mas é uma tendência que começa com a Crise do Subprime (ainda no tempo do Sócrates).
A subida da taxa de juro que se iniciou em 2008 (que quantifica a dificuldade de acesso ao crédito externo) é a força que faz corrigir a balança comercial pela impossibilidade de comprarmos produtos importados a crédito (rever, Porque é que a taxa de juro equilibra a economia, 2011). 

Fig. 4 -Evolução do défice comercial português, preços constante, 1993-2012
(dados: INE, cálculo do autor, grafismo meu)

A correcção acontece à custa das importações.
Como, relativamente a 2008, as exportações só aumentaram 0.2MM€/mês então, o Défice Comercial reduziu de 2.00MM€/mês para 0.8MM€/mês principalmente à custa de uma redução das importações em 1.0MM€/mês (de 5.0MM€/mês para 4.0MM€/mês).

Fig. 5 -Evolução do défice comercial português, preços constante, 1993-2012
(dados: INE, cálculo meu, grafismo meu)

Por cada 100€ de correcção da balança comercial relativamente a 2008 (o ano pré-crise),  83.5€ resultam de uma diminuição nas importações e apenas 16.5€ resultam de um aumento nas exportações.

É o problema da dinâmica da economia.
A economia tem uma dinâmica própria que é independente daquilo que as pessoas ou os governos querem ou anunciam.
Dizem os comunas que "Portugal alienou a soberania económica" mas essa nunca existiu.
Existem as forças de mercado a que nos temos de sujeitar ou passar para uma economia do tipo da Coreia do Norte em que o Estado decide tudo. Mas nesse país as pessoas têm toda a soberania para passar fome,  frio, andar a pé e morrerem como puderem.
Alguém ter a liberdade de decidir que o seu ordenado vão ser 20000€/mês é a mesma coisa que decidir que nunca terá um emprego.

Fig. 6 - Eu ter decidido, usando da minha soberania, que quero esta para minha amante, estou a decidir que nunca terei uma amante. Não me falta soberania de decisão mas falta-me o cacau do Ronaldo.
(fonte: uns país cuidadosos)

O governo pode decretar que "o preço da gasolina passa a ser 0.10€/l" mas, depois, onde a vão as pessoas que actualmente vendem gasolina buscar o produto a esse preço?
Vamos, com os nossos submarinos, invadir o Irão?
Será que o Chaves Comuna da Venezuela nos vai vender gasolina a 0.10€/l para mantermos a nossa soberania económica?
O hipotético governo do Louçã também pode vir a decidir contratar mais 50000 professores e 25000 médicos e enfermeiros. E pode-os contratar mas o ordenado terá que ir para calote porque não há dinheiro.

Diz o do sindicato dos médicos para o ministro da saúde
     - Os médicos exigem um mínimo de 35€/hora porque menos é uma indignidade.
Diz o sr. ministro.
     -O governo está disponível a pagar 100€/hora mas os médicos portugueses têm que fazer o que fazem os seus colegas da "nossa" Guiné.
     - Claro que sim. Mas o que é que eles fazem que nós não saibamos fazer?
     -No fim do mês, o ordenado vai para calote e prometemos em nome do Estado Português e respeitando a Constituição que, quando for possível, irão receber esses ordenados com a taxa de juro paga pelo Tesouro Alemão porque somos tão sérios como eles.
     - E quando será isso?
- O ano 1386 foi o ano subsequente a 1385 logo, o ano 2150 será o subsequente a 2149.

Se os comunas e broquistas dizem que o Estado deve pregar o calote a torto e a direito, isso aplica-se a todos, inclusive aos seus salários e subvenções. Tal qual se faz na "nossa" Guiné onde a Troika não entra.

Fig. 7 - São 35€/hora / Dou-te 100€/h se fizeres o a Lizete faz: vai para calote.
(fonte: General Motors)


Com as importações passa-se o mesmo que com as "meninas da vida".
Se não há dinheiro, não há brincadeira.
O Passos Coelho não decretou que as pessoas estavam proibidas de importar. O problema é que, não havendo crédito nem dinheiro para pagar as importações, estas acabam.
O único crédito que existe é o previsto no Memorando de Entendimento e na "cedência de liquidez" do BCE aos bancos portugueses.
Se amanhã entrarem 100€ líquidos por um destes dois mecanismos então, será possível manter um défice comercial de exactamente 100€. Caso contrario, o défice comercial anula-se automaticamente.
Por cada 1€ a menos, serão menos 0.83€ de importações (e mais 0.17€ de exportações).

O Governo está muito pessimista.
O Passos Coelho dizer (com base numa alegada previsão do INE) que vamos atingir o equilíbrio da balança comercial em 2013, é exageradamente pessimista porque indica que o nosso governo antecipa que o crédito externo vai piorar.
O Governo está a imaginar que,  em 2013, uma vez acabado o plano de ajuda da Troika, o dinheiro vai secar deixando de ser possível manter o actual nível de importações.
Se as exportações mantiverem a tendência de longo-prazo, as importações precisam reduzir anda mais 600M€/mês para a balança corrente equilibrar.

Será grave diminuir as importações?
Depende muito do que deixamos de importar.
Vamos ver o que o INE diz sobre as nossas importações e como evoluiu o processo de ajustamento.
Se pegarmos nos dados sobre as importações, em cada 100€ importados e a variação foram

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                   Classe de bens                                      Peso         Variação (2008/2012)     
     Alimentos e bens industriais relacionados       ->  14.5€                 -  4%
     Produtos químicos                                         ->  13.5€                +  4%
     Petróleo e coisas relacionadas com energia    ->  13.5€                + 28%
     Maquinas, computadores, electrodomésticos ->  17.0€                 - 40%
     Automóveis e demais veículos                       ->  12.0€                 - 43%
     Aço e produtos metalúrgicos                         ->   6.0€                  - 35%
                        Remanescente                            ->  23.5€
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     Quadro 1 - Principais rubricas das importações e sua variação 2008/12 (dados: INE, cálculo meu)

O problema da consolidação pela redução das importações
É negativo, extraordinariamente negativo, porque as rubricas que aumentam são a energia e as que reduzem são bens de investimento.
Apesar de o Sócrates nos ter obrigado a "investir" milhares de milhões de euros em eólicas (que agora nos custam centenas de milhões de euros por ano de juros que temos que pagar na conta de electricidade), a importação de energia aumentou 28%.
A importação de máquinas, equipamentos, computadores, material eléctrico e material circulante reduziu em 40% o que indica que o ajustamento da balança comercial acontece pela quebra abrupta do investimento (os televisores, frigoríficos e automóveis adquiridos pelas famílias, por serem bens duráveis, seriam investimento das famílias).

Esta dinâmica de consolidação já se verificou em 2002 (rever, Fig. 5) e traduziu-se pela diminuição da tendência de crescimento do PIB de cerca de + 4%/ano para + 1%/ano (rever, Fig. 2).
A consolidação actual traduz-se numa nova diminuição na taxa de crescimento do PIB potencial de cerca de + 1%/ano para - 1%/ano.

Criticar é fácil mas o que pode fazer o Governo?
Tem que actuar com mais força e convicção.
Não é dizer, decorrido mais de um ano, que as condições de privatização dos Estaleiros Navais de Viana do Castelo estão definidas e que será para manter os postos de trabalho.
Então, temos que lá meter no dia da privatização 250 milhões de € e pagar os ordenados aos 700 que lá estão ao alto até se reformarem.
Tal e qual o que fizeram no BPN: pagar para privatizar.

Uma senhora, anteriormente com 120 kg, foi-se queixar ao nutricionista
- Sr. Doutor, no nosso memorando de entendimento, acordamos que eu, para voltar a ter 60kg, teria que fazer 30 minutos de exercício violento por dia e reduzir a comida em 25%.
- Decorrido 1 ano, estou com 100kg. Não valeu a pena.
- Vou passar a comer mais e cortar no exercício pois é assim que vou emagrecer.
Diz o médico:
- Minha Sr.a, não pense nisso pois vamos no bom caminho.
- 100kg é muito melhor que 120 kg mas ainda não é suficiente.
- Agora tem que passar o exercício para 60 minutos por dia e cortar a alimentação em mais 25%.

1. Descer os custos do trabalho
   A) Aumentar o horário de trabalho das 40h/semana para as 45h/semana
   B) Cortar os subsídios de férias e de natal nos trabalhadores do privado com um imposto
   C) Usar o valor obtido pela medida B) para
                C.1) Reduzir a TSU do empregador.
                C.2) Reduzir significativamente ou acabar com o IRS sobre os juros.
                C.3) Reduzir significativamente ou acabar com as mais valias dos investimentos.
                C.4) Reduzir significativamente ou acabar com o IRC.
                C.5) Manter o RSI, o rendimento mínimo, activo.

2. Permitir que as empresas desçam os salários
Alterar a legislação do trabalho de forma a permitir que as empresas desçam o salário de um trabalhador até 70% do salário base "acordado" no Contrato Colectivo de Trabalho.

Parecem medidas duras?
Então esperem pelo "não fazer nada" a que o Guterres e o Sócrates nos habituaram no período 1995/2011.
Os trabalhadores podem pensar que aguentam o seu salário e que o "capitalista" é que tem que pagar a crise. Mas o "produto potencial" vai continuar a contrair 1%/ano pelo que vamos empobrecendo.
Em 2001 estávamos no pântano (disse-o o Guterres)
Em 2002 estávamos de tanga (disse- o Durão Barroso)
Em 2011 estávamos numa situação muito difícil (disse-o o Teixeira dos Santos)
Em 2012 estamos em risco (disse-o o Gaspar)
Em 2020 estamos f... (digo-o eu, mas quem sou eu).

Querem que eu fale do Relvas?
Está como estaremos em 2020.
Não se safa.

Finalmente, as minas de Moncorvo
No tempo do Salazar também se faziam investimentos loucos.
Um deles foi tudo o que está relacionado com as Minas de Moncorvo:
A) a navegabilidade do Douro tinha por fim o transporte do minério de Moncorvo e foi um colosso financeiro que não teve qualquer aplicação digna. Bem, agora passam lá um cruzeiros mas o investimento foi colossal.
B) A siderurgia de Sines que não chegou a trabalhar também tinha por fim esse minério.
No entanto, o minério não presta nem nunca prestou.
"Parecia não haver preocupação quanto às características do minério. O seu baixo teor de ferro e o elevado teor de fósforo, que o tornavam de difícil comercialização nos mercados internacionais e impunham onerosos tratamentos para utilização na Siderurgias Nacional não estavam na primeira linha das preocupações."
Rocha Gomes, 1979, 67 – O jazigo de ferro de Moncorvo ,  (fomos colegas em 1989/1992 como responsáveis pela leccionação da disciplina de Prospecção Mineira, eu na FEUP e ele na FCUP).

De facto, não presta porque tem muito fósforo, o teor em ferro é baixo e o transporte é caro.
O fósforo é muito difícil de retirar do minério e, tornando o aço quebradiço, retira-lhe o valor.
Então, o minério de Moncorvo, apesar de existir em grande quantidade, não tem valor económico.
Parece-me que o Governo vai enterrar mais uns milhões num projecto ruinoso.

Amigo Paulo Portas: não interessam projectos que criem emprego mas apenas projectos que criem riqueza.
Quem acredita que mais emprego é mais riqueza (mesmo que sejam uns a abrir covas e outros a tapá-las) são os comunas e não os fulanos da direita como tu dizes ser.
AAAHHHAAAAA  o Miguel reencarnou em ti e ainda ninguém deu conta.


Pedro Cosme Costa Vieira

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