quarta-feira, 4 de julho de 2012

Hoje vou responder aos comentários

Volta e meia, mandam-se dúvidas muito interessantes que hoje vou tentar clarificar.

1. Fernando Ferreira coloca a dúvida de como se determina qual a quantidade certa de moeda para manter a estabildiade dos preços.
É por observação da taxa de inflação e, depois, tentativa e erro.

Como o cálculo da inflação é complexo, a inflação só é calculada cada mês e com atraso. O Banco Central não pode ficar à espera dos valores exactos pelo que constroi um modelo de previsão da inflação do período t  usando várias variáveis explicativas conhecidas facilmente como, por exemplo, as vendas de cimento e de combustíveis: 
     Inflação(t) = a.Inflação (t-1) +  b.Var.Quantidade.moeda +  c.Cons.Cimento(t) + ... + parte aleatória
Com este modelo o BC decide quanto terá que aumentar a quantidade de moeda em circulação.
Para isso pode usar as "reservas compulsivas" (que é usado na China e menos na Zona Euro), a taxa de desconto, operações de "Open Market" e aquelas operações LTRO.
O BC observa diáriamente os valores das variáveis e está continuamente a corrigir a quantidade de moeda em circulação.
É como guiar um carro. Nós não sabemos à partida quanto teremos que carregar no travão e no acelerador para manter uma velocidade de 100km/h mas, estamos sempre a olhar para o conta-kilometros de forma que, quando a velocidade cai abaixo de 100, aceleramos um pouco mais e vice-versa.

Poderá haver uma quantidade qualquer de moeda?
Em termos nominais, sim. Na Zona euro, a quantidade total de moeda poderia ser apenas 1€. Na "Condado da Negralhada", apenas existem 7 moedas.
A questão tem dois problemas.
1. Tem que haver um mecanismo de divisão dessa "moeda" em unidades pequenas para poder haver trocos.
2. A redução da actual quantidade de moeda de 850MM€ para apenas 1€ implicava a redução extraordinária (um bem com preço actual de 850€ ficaria reduzido a 0.000000001€) dos preços, deflação.

Será isto ser keynesiano?
Não, muito antes pelo contrário. É ser monetarista que é a corrente de pensamento que se opoe ao keynesianismo.
O keynesianismo diz que a expansão da quantidade de moeda induz aumento do produto e diminuição do desemprego. É a curva de Phillips.
O monetarismo diz que a expansão da quantidade de moeda induz apenas aumento da inflação.

2. Tiago Mota pergunta se a situação que vivemos é identica à de 1929.
Não porque a ciencia económica evoluiu muito.
Dizer que sim será como dizer que uma pessoa que sofre hoje de tuberculose está na mesma situação do Júlio Diniz (que morreu disso). Mas hoje sabe-se como corar essa doença outrora mortal.
Em 1929 houve uma crise normal que se expandiu por, na altura, o sistema monetário ser muito rígido e por se terem cometido erros de politica económica identicos ao que o Teixeira-Sócrates cometeram.
1 - Em 1929 não se sabia que era importante manter a inflação estável.
Como os governos mantinham a quantidade de moeda em circulação fixa (porque estava indexada à quantidae de ouro), quando havia uma crise, os preços desciam, era a deflação, e quando a economia expandia, os preços subiam.
2 - Os salários eram rígidos em termos nominais.
Quando vinha a crise, os preços desciam mas os salários mantinham-se em termos nominais o que fazia aumentar o custo do trabalho real. Então, este efeito fazia aumentar muito a taxa de desemprego.
3 - O governo americano promoveu a subida dos salários nominais.
Foi igual ao que o Teixeira - Sócrates fizeram em 2009. Neste aspecto, decorridos 70 anos, os nossos governantes da altura continuavam a viver na ignorância. Assim, a nossa crise foi agravada pelos mesmo erros cometidos em 1929 mas a Troika veio por travão nisso.
A Lógica da batata seria um ciclo virtuoso
   "+ salários -> + poder de compra -> + consumo -> + produção -> +Emprego"
Mas a realidade, tal como prevê a teoria económica que os comunas desvalorizam, foi contrária
   "+ salários -> + desemprego -> - consumo -> - produção -> - preço"

Porque a economia começou a crescer com a guerra?
A poupança é que leva ao crescimento. E, no pós-guerra até 1974, Portugal poupou mais que os USA e também cresceu mais que os USA.
Os países europeus eram contra o comercio internacional. Imaginavam o mundo dividido em Impérios Coloniais que, por serem inimigos entre si, não trocariam bens nem serviços.
Se Portugal precisasse, por exemplo, de bacalhau, teria que conquistar um território onde esse peixe existisse.
Os USA eram contra os impérios e a favor do livre comercio entre países.
Com a vitória dos EUA na WW-II, passou-se do modelo imperial para o que actual vivemos, a globalização.
O comércio internacional permite que cada país se especialize nas actividades em que tem vantagens comparativas relativas, aumentando-se assim a capacidade de produção global de bens e serviços.
Se não fosse o comercio internacional, nós não poderíamos produzir automóveis (de gama média) que exportamos para a Alemanha que produz automóveis de gama alta que importamos.
A tecnologia que usamos na produção dos nossos automóveis foi desenvolvida noutros países.

Será que os USA vão perder importância?
Os países da OCDE, onde nos incluimos e os USA, têm uma taxa de poupança muito baixa.
Então, em termos relativos, vão perder importancia.
A China e a Índia, onde vive 1/3 da população mundial, vão ganhar peso à custa dos países da OCDE.
Apesar disto parecer negativo, também tem as suas vantágens.
É que a generalidade das invenções são caras de obter mas baratas de replicar, a existencia de um mercado mundial maior, aumenta a rentabilidade das invenções em que os USA são líderes mundiais.
Por exemplo, criar hoje um novo medicamento é muito mais rentável do que era há 50 anos porque os Chineses têm dinheiro para o comprar.

3. Carlos Miguel Sousa põe a questão do equilibrio do câmbio de uma moeda.
Se os PIIGS sairem da Zona Euro, não é certo que o Euro valorize, tudo dependendo de se manterem (ou não) as transferências de recursos dos países do Norte para os PIIGS.
Apesar de a Alemanha ter um excedente da Balança Corrente que levaria à valorização do Euro até que se anulasse e não mais, se no pacote de saida dos PIIGS da Zona Euro estiver contido um resgate desses países, haverá necessidade de a Alemanha continuar a política macroeconomica restritiva que tem tido nos últimos 13 anos para poder "pagar" essa ajuda. Neste caso, o Euro não valorizará.
Se não houver resgate, o Euro pode valorizar mas muito pouco porque a França também tem um défice enorme.
A cotação de uma moeda não esta ou uma coisa catastrófica. Pode valorizar 10% mas não mais.

A cotação do Euro e as exportações alemãs.
Supondo que a Mercedez vende um carro para a China por 50000€ e que o Marco Alemão se valoriza 25%. Automaticamente, o preço do mercedez em Euros desceria para 42 000€ porque apenas 20% do valor acrescentado desse automóvel é feito em território alemão e nos remanescentes sitios onde se fazem peças (algumas na China), a cotação matem-se. Então, em termos de preço entendido pelos chineses, o aumento da cotação do AMrco em 25% ficaria reduzido a um aumento do preço de apenas 5%.

A cotação fixa do Yuan é uma mentira.
O Yuan tem-se valorizado muito relativamente ao Euro, aos Yen e ao Dólares. RElativamente a este último, valorizou 73% nos útimos 10 anos. Desde 2006, o Yuan tem valorizado 7%/ano relativamente ao Dólar.
Quando Portugal sair do Euro, defendo que o Escudo terá que iniciar uma trajectoria de desvalorização a esta velocidade média (0.13%/semana).
O cambio valoriza por causa do aumento nominal e do diferencial da taxa de inflação. Eu fiz estas contas para os principais parceiros cheneses e mostro que essa conversa (que já neinguém fala há vários meses) é para justificar as más políticas levadas a cabo no USA.

Cotação do Yuan em Yenes e em Dólares Americanos (dados: FED)

4 - Um anónimo defendeu que a solução para o desemprego seria haver milhares de cursos proficionais.
A questão que procuramos é a produção de riqueza que possa ser distribuida por nós e não a criação de emrpegos.
Uma solução desse tipo seria desligar os motores dos comboios e a CP contratar os desempregados para empurrar os comboio. Cada comboio, daria emprego a centenas de pessoas.
Mas de onde viria a riqueza para pagar os salários dessas pessoas?
Dos bilhetes? Passar o passe para 1000€/mês? ninguém andaria de comboio.

5- O Carlos Neves diz que quem diz a verdade não merce nada.
Só digo que tenho tido muitas pressões para fechar este blog.
Respondi assim à minha entidade patronal:
O blog está residente em local desconhecido o que tem por fim fugir aos ditadores que pretendem impor censura aos seus cidadãos. Repetidamente governantes como os chineses, iranianos ou sírios querem fechar blogs, havendo necessidade de manter a segurança jurídica e a confidencialidade dos conteúdos dos blogs.
A beleza do Mundo resulta da diversidade. De haver montanhas e planícies, girafas e formigas, frio e calor, morte e vida. Imagino que o Mundo seria enfadonho se tudo fosse obrigado a ser igual: só maçãs, vermelhas, de calibre 50.
Ainda mais enfadonho seria se a normalização se aplicasse ao pensamento. Mesmo que essa normalização fosse decidida pela mais brilhante das mentes (como foi o caso do Hitler), o resultado seria sempre catastrófico.

6 - O Gonçalo pergunta-me qual o peso da Economia de Ponta na economia.
É muito discutivel o que é a "economia de ponta".
Isto é como as espécies de seres vivos: todas as que existem hoje, das aparentemente mais complexas às aparentemente mais simples, são igualmente evoluidas.
Quem não tem cão, caça com o gato mas é igualmnete um caçador capaz.
Com a economia é igual. É tão economia de ponta produzir trigo (que já se faz há mais de 10 mil anos) como produzir computadores ou medicamentos para a SIDA.
Ao contrário do que pensava a mente tonta do Sócrates, o sucesso económico não é baseado em "choques tecnológicos" e ir dizer à ONU que estamos no guiness em não sei quê que nos vai obrigar a pagar milhares de milhões de euros.
Está em fazermos automóveis de gama média, materiais electricos, máquinas e ferramentas ligeiras, texteis, vestuário e calçado como sabemos fazer.
O resto é um caminho para a nossa perdição.

Pedro Cosme Costa Vieira

6 comentários:

Newton Pessoa disse...

Professor Pedro Cosme,

Já que o sr. está disposto a responder as peguntas dos leitores, eu envio-te mais uma:

Por que as mulheres se aposentam 5 anos antes dos homens se elas vivem mais?

Não vejo nenhum sentido atuarial nisto.

Fernando Ferreira disse...

1 d 2
Boa tarde, Pedro. Reparei que tive a honra de merecer um comentario seu aos meus comentarios. Permita-me que comente as suas explicacoes. Fiquei a perceber que o Pedro nao se considera Keynesiano, mas sim "monetarista", ou seja, defende a escola de Chicago e o seu guru Milton Friedman. Quando o Gaspar foi escolhido para ministro das financas, li algures que o mentor do Gaspar e' o Friedman, pelo que o Pedro e o Gaspar devem estar de "acordo" em muitas coisas, suponho eu.
1 - Bem, quanto a sua suposicao que o banco central e' capaz de calcular a quantidade "certa" de dinheiro, o Pedro acabou por me dar a resposta: NAO E' CAPAZ! Primeiro seria preciso calcular a taxa de inflaccao (o que e' muito complexo) e por isso constroi modelos todos giros, todos cheios de formulas complexas que e' para quem nao percebe nada do assunto achar que os economistas sao uns grandes craneos e que fazemos "bem" em aceitar que os politicos e os seus economistas do "sistema" estejam ao volante desse complicado "automovel" chamado economia. Usando a sua analogia do automovel, o maximo que o banco central consegue fazer e' travar demasiado quando o carro ja devia de estar a andar e acelerar demasiado quando o carro ja esta em frente duma parede, pronto para se esburrachar. Lamento, mas se e' isso o melhor que conseguem fazer, entao nao serve.
Este e' um dos GRANDES problemas dos Chicagos. Eles acham que a economia e' como a fisica ou outra ciencia exacta. Eles acham que sao capzes de construir modelos "precisos", matematicos e estes modelos fornecem "previsoes" sobre variaveis quantitativas tais como o desemprego ou o PIB. Depois, eles comparam estas "previsoes" com os dados estatisticos e vao "refinando" o modelo. Isto tudo funciona maravilhosamente para particulas ou objectos sem uma MENTE, que se comportam todos da mesma maneira em todas as circunstanceas.
Ora, os objecto de estudo da economia sao os SERES HUMANOS. Milhoes deles, a agir de acordo com a sua vontade. Ao contrario de particulas, os seres humanos sao completamente IMPREVISIVEIS e nao ha "modelo" que descreva as interaccoes de 7 mil milhoes de pessoas que habitam este planeta.
CONCLUSAO: NEM O BANCO CENTRAL NEM OS ECONOMISTAS DE CHICAGO NEM OUTROS QUE NAO SEJAM DE CHICAGO SAO CAPAZES DE SABER QUAL E' A QUANTIDADE DE DINHEIRO IDEAL PORQUE NAO EXISTE TAL COISA, UMA QUANTIDADE IDEAL DE DINHEIRO.

Fernando Ferreira disse...

2 de 2
2 - E isto leva-me ao ponto 2, uma quantidade qualquer de moeda. Para uma economia funcionar, a quantidade de moeda pode ser qualquer. Quer dizer, NAO E' PRECISO haver um banco central que esta constantemente a criar mais dinheiro-papel e a injecta-lo na economia com a desculpa que "ha procura de dinheiro" na economia, isto e', ha "falta" de dinheiro, ou de "liquidez" como estamos fartos de ouvir em todo o lado. Numa economia com uma quantidade de dinheiro fixa, e' o PODER DE COMPRA DO DINHEIRO que varia, nao sendo por isso necessaria uma variacao da quantidade.
Numa economia com uma quantidade de dinheiro mais ou menos fixa, tal como acontecia com o padrao-ouro, a medida que a economia se tornasse cada vez mais produtiva veriamos uma suave deflaccao ao longo do tempo. Ha medida que a tecnologia melhorasse e os metodos produtivos se tornassem mais eficientes, mantendo constante a quantidade de dinheiro, seria normal vermos precos mais baixos. Ora os Keynesianos (e se calhar os de Chicago, nao sei) acham que isso e' o "fim do mundo em cuecas", pois se os precos estivessem constantemente a descer, entao ninguem comprava nada, ja que estaria tudo a espera do mes seguinte porque seria mais barato e assim sucessivamente. Esta ideia e' completamente ridicula. Temos exemplos contrarios a nossa volta. As televisoes LCD, por exemplo. Avancos na tecnologia permitem que se vendam televisoes cada vez mais baratas e melhores e, no entanto, todos os meses se vendem milhoes de televisoes. Segundo os Keynesianos, a Samsung, a LG, a Sony ja tinham ido a falencia ha muito tempo. Os que os Keynesianos querem, mais os seus mestres politicos que os governam, e' uma "justificacao" para que o poveco, iludido e endrominado com o "nosso Benfas" e as telenovelas, continue a crer que nao ha outra maneira senao ter estas "mentes brilhantes" no controlo da economia e continurarem com o monopolio da criacao de dinheiro-papel para que possam continuar a safar bancos que sao "demasiado grandes para falharem", com as suas agendas socialista de viverem completamente acima das suas possibilidades, distribuirem a riqueza existente pela sua clientela e fingirem todos que sao muito prosperos. Basta olhar para a Europa, os EUA e o resto do mundo para compreender o estado em que este mundo esta.
So para finalizar, gostaria de comentar os seus 2 pontos no que se refere a quantidade de dinheiro. Confesso que nao percebi a sua logica. Nunca considerei a idea de uma economia funcionar com 1 euro apenas (embora fosse possivel). Reduzir 850MM€ para 1€ pode parecer complicado (pelos "trocos", como o Pedro diz) mas nao seria se quisessemos reduzir de 850MM€ para 85MM€ ou mesmo para 8.5MM€. Nao percebo onde o Pedro ve deflaccao: Se eu ganhar 100.000€ por ano e gastar 70.000€ nas minhas despesas, nao sera o mesmo que ganhar 10.000€ e gastar 7.000€? Cumprimentos!

Fernando Ferreira disse...

E ja agora, mesmo metendo o bedelho na pergunta do Tiago Mota sobre a grande depressao de 1929, nao foi nada como o Pedro diz, que os culpados foi o padrao-ouro, longissiomo disso. O culpado foi o FED, acabadinho de criar em 1913 e que de 1913 ate 1929 fartou-se de expandir a oferta de dinheiro, criando assim o que eles sabem de melhor criar: Uma bolha de credito que acabou por rebentar em 1929. Ha varios bons livros sobre o assunto: America's Great Depression, por Murray Rothbard, The failure of the New Economics, por Henry Hazzlitt e The Great Depression por Lionel Robbins. Todos os livros em Ingles e gratis na net, para quem quiser ler... Cumprimentos!

Vivendi disse...

Totalmente de acordo com o Fernando Ferreira e o mundo só volta a cair na real quando se voltar ao padrão-ouro.

É o momento da Escola Austríaca.

O krugman já tenta conversar com os marcianos os chicagos boys coitados!!! Tudo de cabeça perdida.

vivendi-pt.blogspot.com

Carlos Neves disse...

nem me lembrava desse comentário...lol e nem sequer o encontrei... (por lapso desactivei a notificação de resposta).
Na realidade depois de ler o seu livro sistematizei algumas ideias que tinha não apenas no plano económico mas também na perspectiva social deste momento de ajustamento económico que vivemos... quando digo o que disse quero obviamente dizer que me fica a ideia de que os portugueses (com letra pequena) preferem ignorar a realidade e acreditar no Pai Natal... é uma opção deles que são a maioria mas que nos afecta a todos... a democracia tem destas coisas... também é verdade que se não houvesse pobres que teimassem em continuar a sê-lo não haveria quem trabalhasse...lol

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