sexta-feira, 3 de agosto de 2012

A riqueza de Israel, a pobreza da Palestina e o crescimento da produtividade

O candidato republicano à presidencia americana Mitt Romney
justifica a enorme disparidade entre a riqueza de Israel e a riqueza (pobreza) da Palestina com as diferenças culturais (hipótese que retira de David S. Landes, 1998, The Wealth and Poverty of Nations).
Esta hipótese tem origem em Max Weber (1904,  The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism) avançada como explicação da diferença de riqueza observada entre os países do Norte (cristãos protestantes e judeus) e os do Sul da Europa (cristãos católicos).

Até eu já usei esse argumento em “Os problemas da Zona Euro parecem culturais” e “Serão os 7% uma característica nossa?”.
Os palestinianos vieram logo dizer que o Romney era racista e que eram pobretanas exactamente por causa de Israel os embargar.
Mas a reacção apenas está de acordo com a hipótese: na cultura palestiniana (e na portuguesa) em vez de procurarem corrigir as falhas trabalhando para melhor a sua vida, cada um atira a culpa do seu fracasso para os outros.


O Romney está completamente inocente porque apenas aplicou uma hipótese séria e aceite pela comunidade científica à diferença gritante que existe entre o desenvolvimento económico de Israel e da Palestina.
Não se pode classificar logo como racista alguém que diz que existem culturas diferentes no mundo e que isso tem impacto na economia.
Ainda bem que assim é, que cada povo tem direito à sua cultura mas nem todas estão igualmente preparadas para criar riqueza.

Não é de excluir que Israel seja rico porque tem uma cultura tolerante, criativa, em que se respeita quem tem ideias diferentes e em que se "caminha para a frente" e a Palestina é pobre exactamente porque tem uma cultura beligerante e onde não há lugar a ser diferente.

Se nos recordarmos que os palestinianos paneleiros e lesbianas têm que fugir para Israel senão são executados e que Israel, que não dá cidadania aos palestinianos pelo casamento, dá asilo se forem larilolas, já podemos ver quão diferentes são estas duas culturas.

Fig. 2 - Importam peças da Palestina e fazem a montagem em Israel

Os esquerdistas portugueses batem na mesma tecla: a cultura do confronto.

Em Portugal os rendimentos são maiores que a produção.
Desde o fim do cavaquismo (1995) até hoje que, em média, gastamos 110€ por cada 100€ de riqueza que criamos. Esse diferencial foi pago com endividamento mas agora que mais ninguém nos empresta dinheiro, é preciso diminuir o consumo.
Este desequilíbrio acontece também porque os rendimentos (salários + dividendos) são maiores que a produção.
Tem que se cortar no custo do trabalho: - salários; + horas de trabalho.
A riqueza produzida é distribuida, por um lado, para remunerar o trabalho (cerca de 2/3) e, por outro lado, para remunerar o capital (cerca de 1/3). Como em Portugal existe uma grande escassez de capital (que resulta da pequena poupança e que se traduz em taxas de juro altíssimas), a diminuição dos 10% necessários para equilibrar as nossas contas tem que ser feita à custa das remunerações do trabalho.
Custa mas, para não cairmos na pobreza dos palestinianos, temos que percorrer esse caminho.

Porque haverá países pobres e países ricos? Não poderiam ser todos ricos?
Desde há centenas de anos que as pessoas querem uma resposta para as diferenças na riqueza dos países.
Sendo que, à partida, ter muitos recursos naturais é um factor importante (boa terra, petróleo, gás natural, ouro, etc.), o que se observa é que isso, sendo importante, não é fundamental.
A teoria aponta como razões para o sucesso dos países vários factores:

1 - Capital que são máquinas, edifícios, estradas, portos, patentes, etc. É considerado como o mais importante factor de riqueza de um país (e.g., Solow, 1956; Barro & Sala-I-Martin, 1995) até porque também contém os recursos naturais. Em termos genéricos, traduz tudo que dura alguns anos e que ajuda na produção de bens, serviços e de outros bens de capital.
Para o capital aumentar é preciso investimento que vem da poupança.

2 - Capital Humano que condensa o conhecimento dos indivíduos quanto a saber fazer bens e serviços de elevado valor (Mincer, 1958) e que, também é importante na capacidade de inovar pela criação de maneiras mais eficientes de produzir os bens e serviços e inventando novos bens e serviços (e.g., Aghion and Howitt, 1992). É diferente do "trabalho" porque é um processo de acumulação do investimento como, por exemplo, acontece com a escolaridade.

3 - Abertura da economia / liberdade de comércio que permite que cada pessoa (região e país) se especialize nas actividades nas quais tem vantagens comparativas (é relativamente mais eficiente) (David Ricardo, 1817).
Se, por exemplo, um trabalhador português produz na agricultura 500€/mês e na produção de automóveis 1000€/mês então, devemos importar produtos agrícolas e pagá-los com a exportação de automóveis.
Ricardo era português mas nasceu na Holanda em 1772 onde a sua família estava refugiada das perseguições anti-semitas portuguesas.

4 - Investimento Directo Estrangeiro porque reforçam o capital do país (investimento - Freckleton et al., 2010), traz novas ideias (capital humano), novas formas de produção (tecnologia - Arvanitidis et al., 2007), novos produtos (patentes e segredos) e abrem novos mercados (os de origem do capital - Freckleton et al., 2010). 

5 - Boa governação, traduzida em políticas macroeconómicas adequadas, segurança física e legislativa,  bom funcionamento das instituições (tribunais, polícia, escolas, segurança social, mercados, etc.).

Um país para ser rico tem que ter destas 5 coisas.
Mas muitas destas características chocam com a cultura do povo, por exemplo, aceitar que haja capitalistas, que quem é mais produtivo tenha direito a um salário superior, que a concorrência interna e externa e o investimento estrangeiro via multinacionais são coisas boas.

Estará o Passos Coelho a fazer alguma coisa para o "crescimento"?

1) Os comunas falam que é preciso mais investimento (aumento de capital) o que é impossível porque Portugal não tem poupança interna e não há quem nos empreste dinheiro.

Fig. 3 - Quanto mais ricos estamos, menor é a nossa taxa de poupança (dados: Banco Mundial)

Então ficam os outros factores de crescimento.
E, se formos observadores, realmente o governo anuncia mexidas em todos os outros factores de crescimento.

2) o governo anuncia a reforma das escolas diminuindo o seu custo por aluno para libertar recursos tornando possível aumentar o número de alunos.
Nos países de rendimento elevado da OCDE, 92% dos jovens frequenta o ensino secundário e 75% o ensino superior enquanto que em Portugal ficamos pelos 81% e 63%, respectivamente (dados do Banco Mundial). É preciso fazer alguma coisa ao nível dos custos porque para ficarmos na média é preciso aumentar em 15% o número de alunos na escola e não há dinheiro disponível.

3) o governo anuncia a liberalização da economia pela abertura das profissões reguladas, dos sectores protegidos, do mercado de trabalho, do mercado de arrendamento e promovendo as exportações.

4) o governo procura investidores estrangeiros que queiram tomar posição nas nossas empresas a privatizar e criando incentivos a novos investimentos.

5) o governo anuncia transparência da governação na contratação de dirigentes e procura o melhorar do funcionamento dos tribunais e das diversas instituições.

Digo que anuncia porque ainda não é possível avaliar se, de facto, o governo está a fazer alguma coisas. Mas as indicações parecem-me positivas.

E ainda há tanto por fazer a começar pelos Estaleiros Navais de Viana do Castelo que nunca mais andam sem desandam. E a CP, a RTP, a REFER, os Metros, etc., etc., etc.

Vamos agora comparar Israel com os seus vizinhos árabes.
O problema da pobreza da Palestina estende-se a todos os vizinhos de Israel. O que tem maior riqueza, o Líbano, tem apenas 1/4 do PIB pc de Israel e o Irão, mesmo com o petróleo, fica com um PIBpc de 1/10 do israelita (ver, Quadro 1).

País                                       PIBpc C/Rec. Nat.                  PIBpc S/Rec. Nat.
------------------------------------------------------------------------------------------------------
United Arab Emirates                 149%                                         115%


Israel                                           100%                                        100%


Qatar                                           155%                                          88%


Kuwait                                         111%                                          55%


Bahrain                                          65%                                         46%


Lebanon                                         26%                                         26%


Oman                                             49%                                         26%


Saudi Arabia                                  46%                                          23%


Jordan                                            11%                                          10%


Egypt, Arab Rep.                           8,2%                                         7,0%


Iran, Islamic Rep.                          9,4%                                         5,5%


West Bank and Gaza                  5,4%                                         5,4%


Syrian Arab Republic                    6,6%                                         5,0%


Yemen, Rep.                                 2,8%                                         1,9%


Iraq                                                3,8%                                         0,4%


----------------------------------------------------------------------------------
Quadro 1 - PIB per capita relativo a Israel, 2005-2011, (dados: Banco Mundial)

Ao ver que o PIBpc da Palestina está equiparado ao do Irão e da Síria, parece-me como exagerado o argumento de que a sua pobreza deriva integralmente do embargo israelita.

Estará tudo perdido?
O Líbano e Marrocos são dois bons exemplo de países islâmicos onde tem havido desenvolvimento económico. Desde 2000, estes países que não têm petróleo, têm crescido, em termos per capita, 4.1%/ano (dados: Banco Mundial).
E são países com muitos problemas internos e sem ajudas externas significativas.
Por isso, um país para ser rico tem que querer pois isso obriga a fazer sacrifícios.

Agora, tenho que me penitenciar.
Não existe qualquer dúvida que a liberdade de pensamento é o grande motor do desenvolvimento da Humanidade.
Mas a liberdade tem um preço: termos que aceitar os outros como eles são.
Costumo dizer aos meus alunos (menos vezes do que deveria), que quando estiverem numa empresa em posição de superioridade disciplinar devem relativizar o comportamento pessoal das subordinados pensando que as grandes inovações partem das pessoas mais rebeldes.
No meu emprego, pensei que tinham criado um "corpo editorial dos working papers" para censurar as coisas que, de vez em quando, escrevo mas, neste ponto, errei.

Fig. 4 -  Errei. Esta bomba, a Patrícia Araujo, é um homem!

Não quer dizer que não me aconselhem a "moderar" o discurso mas fazem-no como meus amigos. Para eu não me prejudicar.
Em particular, escrevi um texto sobre energia nuclear a que poderiam facilmente aplicar o argumento de que "é um tema mais das engenharias que economia" e mandar a coisa para a gaveta.
Mas não. Para meu espanto, não foi censurado.
Tenho que pedir desculpa pelo que andei a dizer, mal, deles.



Pedro Cosme Costa Vieira

3 comentários:

Kão Vadio disse...

Este foi o pior exemplo para ser escolhido. Reduzir a questão israelo-palestiniana apenas a questões económicas e culturais é simplista e quiçá mal intencionado.
Sem querer tirar valor aos judeus, todos sabemos que Israel só faz o que faz por causa de ter as costas quentes com os americanos. Rouba indecentemente os primos palestinianos, desde o território roubado, ocupado e vedado com um muro até à própria água. Isto é feito por um povo que fugiu da sua terra e esteve ausente durante dois mil anos. Se houvesse justiça e segundo o princípio de usucapião nunca mais lá teriam postos os pés. Claro que os judeus são melhores que os primos filisteus, talvez por isso não precisassem de ser ladrões para ter sucesso. Mas talvez seja por isso mesmo, que os judeus nunca fizeram grandes amigos ao longo da história.

JB disse...

Caríssimo,

Concordo com muito do que diz, mas essa de achar que consegue cativar mais alunos para o secundário aumentando o nº de alunos por turma cheira-me a... Relvas! :)

Então acha que os alunos que abandonam a escola é por não terem cadeira para se sentar na sala de aulas ou por a turma ser muito pequena?

OH!

Económico-Financeiro disse...

Caro JB,
Não sei como vamos fazer para aumentar o número de alunos mas é preciso faze-lo e sem gastar mais dinheiro.
O mais certo é a solução passar pela redução dos salários dos professores que actualmente são elevados porque foram determinados quando havia poucas pessoas habilitadas para a profissão.
Agora que há profs a pontapés, teremos que ser vítimas, eu também, de um ajustamento.
pc

Twitter Delicious Facebook Digg Stumbleupon Favorites More

 
Design by Free WordPress Themes | Bloggerized by Lasantha - Premium Blogger Themes | Best Hostgator Coupon Code