sexta-feira, 31 de agosto de 2012

O défice parece descontrolado mas não é bem assim

Já sabemos há uns tempos que o défice está um pouco descontrolado.
Eu sempre desconfiei que o orçamento de estado para 2012 tinha previsões muito optimistas para a receita fiscal e essas visões exageradas não se concretizaram.
Como as previsões, principalmente do IVA, estavam exageradas, agora não se concretizaram pelo que o défice que em 2012 vai ficar (sem medidas adicionais) entre os 5.5% do PIB e 5.7% do PIB (uma derrapagem entre 1600M€ e 2000M€).

Se virmos a realidade pelos olhos do governo, 
o desvio não é sua culpa porque é uma herança do "desvio colossal" de 2700M€ que aconteceu nos primeiros meses de 2011 (ainda com o Sócrates) que se traduziu num incumprimento das metas acordados que foi escondido com os fundos de pensões da banca.
Assim, quem for optimista, vê nos números que as coisas estão a correr melhor que o previsto pois não só se vai consolidar o valor acordado com a Troika para 2011 (2885M€) como ainda se vão recuperar 700M€ do desvio de 2011.
Uma vez acontecendo um desvio (por exemplo, um aumento das reformas), irá perdurar para todo o sempre pelo que o controlo de qualquer desvio é uma missão que obriga a muito esforço ao longo de vários anos.

Quem for esquerdista dirá que tudo é um fracasso.
Nem que o desvio fosse de apenas 1€, os esquerdistas anunciariam o fracasso total.
Como nunca seria possível o Governo acertar exactamente no número, se houvesse um desvio de 1€ para abaixo seria "ir além da Troika" e se ficasse acima 1€, era a prova do fracasso das políticas de austeridade neo-liberal do Passos Coelho.

Se não metermos gasolina no carro, ele vai parar. Mas se metermos gasolina, gastamos o nosso dinheirinho e o carro, mais cedo ou mais tarde, vai parar na mesma. Então, meter gasolina é uma perda de dinheiro. 

Quem leva uma vida saudável fazendo actividade física regular e seguindo uma alimentação regrada vai morrer tal e qual as outras pessoas. Então, não vale a pena fazer o sacrifício de ter uma vida saudável.

Para sermos correctos, a recuperação está um bocadinho descarrilada.
Pois, para atingir o défice de 3% do PIB em 2014 seria necessário reduzir o desvio colossal de 2011 a metade. Se assim fosse feito, em 2011 o défice ficaria na ordem dos 5.3% do PIB o que ainda tornaria possível  atingir um défice de 3% do PIB em 2013.
Mas, para isso, é preciso tapar até ao fim do ano parte do desvio com uma receita adicional de 1000M€.

Os agentes económicos entendem que o governo se está a esforçar.
O Passos pode não estar a fazer as coisas como deveriam ser feitas mas tem mostrado alguma convicção no que faz.
Esta convicção está a ser testada no caso da "Concessão da RTP" em que, vitima de um ataque por toda a parte, ainda não recuou.
Desta forma, as perspectivas de longo prazo parecem estar a melhorar o que se traduz na estabilização da taxa de juro de longo prazo em redor do nível existente na tomada de posse do actual governo (ver, fig. 1).
Uma taxa de "juro sem risco" (é assim que se denomina a taxa de juro do soberano) na ordem dos 10%/ano é muito elevada mas está na ordem de grandeza de outras economias por esse mundo fora (por exemplo, o Brasil, a Argentina e a Venezuela).
Ainda estamos muito longe de sermos considerada uma economia europeia de baixo risco (os 4%/ano que tínhamos em 2009) mas já se deram uns passos, pequenos, para descer abaixo da barreira psicológica dos 7%/ano indicada pelo Teixeira dos Santos como o limite da sustentabilidade da nossa economia, local onde têm vivido a Itália e a Espanha.

Fig. 1 - Evolução das taxas de juro na Crise das Dívidas Soberanas (dados: Bloomberg)

Antes de entrarmos no Euro, Portugal, Espanha e Itália estavam na faixa dos spreads de 4%/ano a 6%/ano e parece que estamos a convergir outra vez para essa faixa.
O Gaspar acredita que a convergência vai continuar atingindo em meados de 2013 os 5%/ano.

Fig. 2 - Evolução das taxas de juro 10Y na Crise das Dívidas Soberasna relativamente às bonds alemãs
(dados: ECB, grafismo do autor)

O problema é o desemprego.
Se a taxa de juro tem evoluído favoravelmente, dentro do pensamento do Gaspar e um bocado melhor que eu antecipava, já o desemprego tem evoluído muito desviado do optimismo do Gaspar e muito mais próximo dos números catastróficos que avancei em Fevereiro sobre o desemprego.
Eu previ que o desemprego iria atingir 19% no fim da legislatura (2015) e tudo encaminha para que esse valor venha a ser ultrapassado (ver, Fig. 3)


Fig. 3 - Evolução da taxa de desemprego (dados: INE) e previsão de evolução (minha)

O desemprego é muito mais grave que a RTP.
Depois de a administração da RTP (onde o presidente recebe +17000€/mês e os vogais 15000€/mês) avançar com informação falsa (de que a RTP tinha dado lucro em 2011 e iria dar lucro em 2012) que o JN desmontou completamente, não sobrava mais que se demitir.
Parece que o serviço público é mesmo este: mentir à força toda e combater alguém, no caso o governo, usando meios do povo.
Mas o que a RTP tem de diferente relativamente à SIC ou TVI para derreter centenas de milhões de euros?
Eu vou fazer uma proposta para que a RTP me seja concessionada.
Quando aquilo estiver sobre meu mando, aí haverá o tal serviço público que ninguém sabe o que é.

Fig. 4 - Dado o seu cu'rico, está contratada como minha secretária da direcção.
Aviso que a secretariação envolve irmos regularmente ao arquivo da RTP.

Pedro Cosme Costa Vieira

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